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QUANDO A CIDADE É TELA PARA ARTE CONTEMPORÂNEA

LUÍSA SANTOS


Quando a Cidade é tela para Arte Contemporânea
“SHOP LOCAL”, um exemplo singular em Londres por Bob & Roberta Smith.

O projecto off-site “Shop Local” intriga o mais distraído dos transeuntes Londrinos. Os cartazes incrivelmente apelativos, numa tipografia que há muito tomámos como desaparecida são incontornáveis e impossíveis de ignorar. Uma tipografia claramente urbana, em cores vibrantes, num corpo e tipo de letra desenhados para coabitarem com edifícios em ruas amplas. Os cartazes apresentam um dos inúmeros trabalhos gráficos por Bob & Roberta Smith (1) para o projecto Britânico “Platform for Art”, em Londres, (2) e publicitam a caravana branca de venda de peixe congelado sem toldo. Este ponto de pequeno comércio encontra-se instalado no Hoxton Street Market há trinta e cinco anos. Os mercados em Londres continuam a existir mas a proliferação das grandes superfícies sobrepõe-se claramente. Talvez por isso, tantas pessoas, em especial jovens estudantes temporariamente habitantes desta cidade, sejam impelidas a invadir aquela zona com olhos curiosos, intrigados, críticos. No Verão passado, para coincidir com o Shoreditch festival, o Peer – uma organizacão de artes independente que desenvolve e apresenta projectos num vasto leque de meios e em vários locais da cidade, comissariou o artista Bob & Roberta Smith para o desenvolvimento de um projecto que envolvesse a comunidade e exponenciasse as particularidades da zona urbana de Shoreditch, especialmente no que diz respeito às suas etnias e estruturas sociais. A ênfase reside na apresentação inesperada da comunidade enquanto promotora da sua identidade, sendo o único mandatório a inclusão de palavras. O artista, nascido e residente no distrito, optou por criar cinco peças de texto especificamente para o bairro, referindo-se ao pequeno comércio aí existente. As características mais relevantes deste projecto artístico são o facto de abraçar o contexto urbano e, em simultâneo, operar a um nível tanto funcional, enquanto publicidade, como artístico, enquanto arte conceptual.

I. O PROJECTO

As peças públicas

O projecto “Shop Local” consiste em cinco peças de texto de grande formato, montadas letra a letra ou pintadas directamente nas paredes em lugares inesperados, para publicidade, na área de Shoreditch. Apesar de não estarem colocados ao lado dos espaços que anunciam, os textos relacionam-se directamente com as cinco seguintes lojas da Hoxton Street: Hoxton Electrovision, Dad’s Unisex Hairdressers, Discoveries bric-a-brac shop, Hoxton Fruit and Veg e Ron’s Eel and Shellfish. Cada peça refere o nome da loja, lista o tipo de produtos ou serviços que oferecem, dá a morada detalhada e acaba com a assinatura “Shop Local”, que é também o mote e o título do projecto.
O artista não escolheu a localização das peças. Foram indicados pelo Council , à excepção do que se encontra no canal, que estava livre e é, sem dúvida, perfeito para a peça que anuncia a caravana de peixe do Mr. Ron. O canal é ladeado de edifícios baixos, não ao estilo victoriano, mas de tijolo de uma grande riqueza de tonalidades de castanho. O edifício que alberga a publicidade é um armazém abandonado, de vidros partidos que deixam ver fios de electricidade soltos de dentro. No canal, a publicidade em estilo old school, pintada à mão, aparece-nos reflectida, com o peixe meticulosamente desenhado agora distorcido, como que debaixo de água. Todas as peças ficarão nos locais por um ano, excepto esta que ficará até que surja um projecto de renovação do edifício.

A exposição no Peer

Em paralelo às peças off-site , a galeria Peer exibiu novos trabalhos do Bob and Roberta Smith. Textos pintados em painéis de madeira, mostram reflexões em tom provocativo There is no point in making art unless you think you are the best artist in the world / Não faz sentido fazer arte a menos que te consideres o melhor artista do mundo. Estes textos funcionam, segundo a Directora do Peer, Ingrid Swenson, como “proclamações políticas, slogans revolucionários, gritos contra o elitismo do mundo da arte e são apenas jogo com o absurdo”. Os painéis lembram o tipo de cartazes usado em manifestações, mas também cartazes publicitários, em particular os de lojas de comércio tradicional que são feitos diariamente por comerciantes anónimos e que podem ser vistos com um desenho meticuloso por toda a cidade. Londres é singular na tradição de cartazes deste tipo, pelo cuidado tanto ortográfico como pela qualidade visual. Assim, estes painéis, apresentados no Peer, têm um estatuto deliberadamente ambíguo, referindo-se tanto a progresso como a exploração social.

II. CONTEXTOS HISTÓRICO E FORMAL

História

Antes de descrever o projecto em detalhe, é necessário fazer uma breve introdução ao panorama histórico de Hoxton. A relevância desta contextualização prende-se com o facto do projecto do Bob and Roberta Smith basear-se claramente nos desenvolvimentos social, histórico e económicos desta área. Tal como a maioria dos distritos Londrinos, Hoxton era originalmente rural. No entanto, até meados do século XVIII, albergou casas amplas e foi dominado pelo fluxo de proletários de classe baixa no sulco da industrialização e, progressivamente, engolido pelo crescimento da malha urbana. A freguesia de Shoreditch foi desde então conhecida pela pobreza: “Nas últimas décadas do século XIX, Shoreditch era uma das zonas mais miseráveis em Londres e reconhecida apenas por três características: pobreza, crime e prostituição. [...] O crime continua a existir, certamente, se o comportamento dos agentes estatais locais não mudar. Nos últimos anos, a área tem assistido à grande procura de estúdios a preços acessíveis por parte de artistas. A comunidade artística na área contribui para o seu desenvolvimento e rejuvenescimento, mesmo que lento. O 'passa-palavra' e meios de comunicação marginais atraíram muita gente. As pessoas começaram a mudar-se em massa, os preços das propriedades subiram exponencialmente, conduzindo à mudança da comunidade artística para a zona Este da cidade (3)”. Hoje em dia, Hoxton é uma área viva, repleta de diversidade ainda com as marcas da pobreza que a caracterizaram no passado. A imigração é um assunto gerador de mitos e medos desde o seu início. Contudo, Hoxton é um lugar onde pessoas de diferentes lugares e camadas sociais co-habitam em harmonia. Aquando a escolha das lojas, Bob and Roberta Smith tentou encontrar lugares característicos que reflectissem a população de Shoreditch, como um retrato colectivo vivo. O artista optou então por entrar em contacto com comerciantes locais: Mr. Ron (Ron's Eel and Shellfish) e Mrs. Valeries (Discoveries) — dois representantes da classe trabalhadora Inglesa -; Mr. Nashir do Bangladesh (Hoxton Electrevision); Mr. Elisson das Caraíbas (Dad's Unisex Hair Salon) e a Mrs. Bridget, natural da Turquia (Hoxton Fruit and Veg). As suas múltiplas proveniências reflectem as ondas de imigração sucessivas que marcaram a área até hoje.

Questões Formais

Bob and Roberta Smith, um artista com um percurso académico em pintura, desenvolveu um interesse natural por desenho de letras. Para o lettering do projecto “Shop Local”, colaborou com duas equipas diferentes de designers gráficos que representaram os dois maiores grupos da comunidade: uma equipa de jovens designers e uma equipa liderada por um tipógrafo tradicional também residente em Hoxton. O resultado final é um diálogo entre estilos distintos com lugar num cenário urbano. Um único briefing foi dado às duas equipas — ambas poderiam escolher a sua própria tipografia e técnica. Este método é a voz da abordagem conceptual do Bob and Roberta Smith. Dando poder criativo às pessoas envolvidas no processo (“Make your own damn art”, é um dos motes do artista), assegura a imprevisibilidade do resultado final (4). Como resposta ao briefing do artista, a equipa de jovens artistas produziu stencils em letras Helvetica, uma fonte legível e contemporânea. Um destes trabalhos, com cerca de dez metros de largura e posicionado num edifício Estatal do Pós-Guerra frente a um carril eléctrico da mesma época, anuncia “Hoxton Fruit and Veg”. Na linha abaixo, — tal como nas outras quatro peças — uma lista dos produtos disponíveis na loja respectiva. Uma batata, um rabanete e três cenouras, recortados em metal e pintados em graffiti, aparecem alinhados com as duas linhas que os antecedem. A outra equipa — liderada por Fred, um tipógrafo tradicional — criou murais publicitários pintados à mão ao estilo dos séculos XIX e XX. A equipa pintou letra a letra num processo demorado e cuidado. Fora de moda, e interessantes talvez por isso, este tipo de murais marca uma posição vincadamente oposta à publicidade contemporânea. Estes projectos gráficos foram criados em harmonia com o cenário urbano, enquanto testemunhas visuais da história da área. Pela escolha de publicidade num estilo old-school, com letras pintadas à mão directamente nas fachadas dos edifícios, criam uma ênfase na dimensão histórica. A determinação específica de cada loja tem o mesmo papel, ilustrando as mudanças no local desenhadas pelas sucessivas ondas de imigração.

Percepções e Reacções

Tal como a maior parte dos projectos do Bob and Roberta Smith, “Shop Local” tem um tom humorístico extremamente apurado. Neste caso específico, pelo desmesurado contraste entre a dimensão dos anúncios e dos anunciantes. Nas palavras do artista, “O humor no [meu] trabalho é tão importante como o contacto com as pessoas, ambos estão relacionados com emoções. Um aspecto do humor no meu trabalho é ser sério e, como a maior parte do humor, está intimamente ligado à humilhação. O tipo de humor que me interessa é aquele em que as coisas falham nalguma coisa — não porque são engraçadas mas porque são humanas”. O método do Bob and Roberta Smith poderia ser denominado “positivo”. Recusando uma crítica directa às grandes superfícies comerciais pelo seu papel na decadência do pequeno comércio — uma posição bastante óbvia e simplista de tomar — o artista encoraja as pessoas a comprarem localmente. A crítica está inerente no seu trabalho mas com uma voz tanto positiva como afirmativa, dirigindo-se às pessoas no seu papel de consumidores e mostrando o que cada um, enquanto ser individual, pode fazer para mudar a realidade numa escala pequena, a do dia-a-dia. Uma das razões pelas quais o projecto é realmente efectivo prende-se com a escolha do meio adequado para comunicar a mensagem. Publicidade, neste caso, é um meio óbvio para expressar a ideia; conteúdo e forma dialogam no mesmo tom. Tal como no design gráfico, o meio é usado para implementar uma subtil mudança formal que conduz os espectadores a questionar a posição dos anúncios — históricos ou contemporâneos? publicidade ou arte? Ao entrevistar os proprietários das lojas envolvidas no projecto, foi possível perceber a resposta positiva à proposta do artista. Viram-na, de facto, como uma tentativa de chamar a atenção para a sua situação financeira. “Ganhei seis novos clientes desde o anúncio. Este homem trabalha muito, é uma pessoa fantástica” diz, a título de exemplo, Nashir, proprietário da Hoxton Electrovision. Na grande maioria, também pareceram ter a percepção da carga humorística do projecto. O mesmo é observável noutros membros da comunidade. Contudo, estes tendem a descrer na mudança da sua situação actual pelo projecto. Alguns demonstraram claramente o seu desagrado perante a intervenção nas fachadas dos edifícios. “É uma idiotice completa. São elefantes nas paredes! Não faz sentido!”, é um dos comentários de um dos moradores da Hoxton Street.

III. O CONTEXTO TEÓRICO

“Shop Local” é tanto conceptual como funcional permitindo que comunique a vários níveis. Está enraizado na realidade quotidiana e, paralelamente, no contexto artístico.
Sob uma perspectiva artística, “Shop Local” é claramente uma peça conceptual. Usando linguagem como matéria, refere-se a uma tradição de artistas conceptuais que, desde os anos 60, têm vindo a experimentar a combinação de texto com símbolos e têm exposto no domínio público (cf. Daniel Buren, “When Attitudes become Forms”, 1969). Nomes como Joseph Kosuth e Lawrence Weiner estão próximos deste modo de comunicar. No entanto, este projecto do Bob and Roberta Smith está mais próximo do “Truisms” por Jenny Holzer (f.i. “Protect Me From What I Want”, 1977) ou das afirmações da Barbara Kruger (“I Shop Therefore I Am”). De facto, enquanto Kosuth e Weiner usam meios artísticos convencionais, Holzer e Kruger usam meios de comunicação mais comuns como jornais, folhetos, cartazes, caixas de luz, LED's, outdoors para uma maior visibilidade. Outros nomes podem ser citados como Ken Lum (“Shopkeepers”), Allen Rupersberg (“Singing Posters”), tal como Guy de Cointet e as suas experiências linguísticas no movimento Dada. O próprio artista refere esta ligação, sublinhando o aspecto conceptual do seu trabalho ao dar o poder de decisão a outros — neste caso, a duas equipas de designers — o processo é essencial ao projecto. No livro “Postproduction”, Nicolas Bourriaud compara o actual sucesso do mercado — enquanto matriz formal para os artistas contemporâneos (um tópico que discute num capítulo em separado) — com um desejo de tornar as relações comerciais concretas de novo; relações que a economia pós-moderna tende a tornar imaterial. “Quando secções completas da nossa existência se tornam abstracção como resultado da globalização económica, quando as funções básicas das nossas vidas diárias são transformadas, pouco a pouco, em produtos de consumo (incluindo relações humanas, que estão a tornar-se uma preocupação para as indústrias), parece lógico que os artistas procurem re-materializar estas funções e processos, dando forma ao que está a desaparecer frente aos nossos olhos (5)”, escreve. O projecto do Bob and Roberta Smith está relacionado com o que Borriaud entitulou de “estética relacional”, pelas trocas humanas e os objectos estéticos, a obra de arte, per se. O Hoxton Market, para o qual Bob and Roberta Smith dedicou a sua atenção, é percepcionado enquanto estrutura unitária composta por individuais em transacções. Como o economista Francês Michel Henochsberg refere, pode ser definido como um “encontro de sucesso de histórias, afinidades, desejos, hábitos, medos, tensões (6)”.

“Shop Local” refere-se de volta ao mercado das relações “factuais”, “concretas”, simbolizadas pela economia de compra e venda.

A loja enquanto metáfora do atelier do artista

Como a curadora do projecto, Ingrid Swenson, refere, “a vida do proprietário de uma pequena loja têm um número de paralelismos com o dia-a-dia do artista, de quem Bob and Roberta Smith tem sido auto-nomeado porta-voz. Ambos lidam com uma magra economia, ambos trabalham por longas horas, ambos operam dentro do contexto de um mundo capitalista, ambos trabalham nas suas comunidades locais e ambos são comerciantes solitários (7)”. Segundo o artista, o seu trabalho lembra aquele do dono da pequena loja na medida em que partilham o mesmo tipo de economia, baseada na precariedade e tomando parte num mercado global. Tal como Guernica de Picasso não pararia a Guerra Civil Espanhola, o “Shop Local” também não mudará muito nos fenómenos resultantes da globalização. Poderá, no entanto, conduzir a uma mudança lenta e subtil nos hábitos dos consumidores. O espírito deste projecto está ligado, na essência, a outras campanhas de grande escala como “Save Our Small Shops”, publicada no The Evening Standard, a acção de um dia “Packaging Day of Action” pelo Women's Institute ou o “Keep it Local” pela ONG Friends of the Earth. ”Shop Local” é um projecto artístico pós-modernista no sentido em que desconfia de metanarrativas (cf. Lyotard) e introduz o local versus o global. Fá-lo de um modo optimista pela tentativa de consciencializar para uma mudança num contexto que diz respeito a todos nós. Pelo uso de anúncios de grande escala e envolvendo a comunidade na sua produção, usa um meio e um processo que reflecte um realismo que tem vindo a caracterizar uma grande parte da prática artística contemporânea.



Notas
(1)“Bob and Roberta Smith” is/are actually one individual; it is the artist Patrick Pill’s pseudonym. It is to reflect the artist’s idea that “gender doesn’t matter”.
(2) SWENSON Ingrid, Foreword in the “Shop Local” booklet.
(3) http://www.london-footprints.co.uk/wkhoxtonroute.htm
(4) O artista declarou, no decorrer da entrevista, que dizia aos proprietários das lojas, nas primeiras conversas, ser enviado pelo conselho districtal e propôs-lhes apenas criar-lhes anúncios publicitários gratuitos.
(5) BOURRIAUD Nicolas, Postproduction, Lukas & Steinberg, 2001, New York, p. 32. (6) HENOCHSBERG Michel, Nous nous sentions comme une sale espèce : sur le commerce et l’économie, Denoël, 1999, Paris, p. 239.
(7) SWENSON Ingrid, Prefácio no folheto do projecto “Shop Local”.


Luísa Santos
Designer, mestranda em curadoria de arte contemporânea na Royal College of Art, Londres