Links

ARQUITETURA E DESIGN




Paulo Catrica in In Situ nº 3 e 4, 2002


A dessincronia entre a congestão urbana e o vazio ainda rural.


O “terrain vague” como espaço de memória e contemplação


Enclave urbano ditado por uma unidade industrial desactivada


O secretismo e organização social do Terrain Vague de uma antiga área industrial no filme, Terrain Vague de Marcel Carné, 1960


O jogo como iniciação ao Terrain Vague numa antiga área industrial no filme, Terrain Vague de Marcel Carné, 1960


Edward Burtynsky, Oxford Tire Pile #5, Westley, California, 1999


Área Industrial desactivada, Porto, 2006


Área Industrial desactivada, Pormenor de Graffitti, Porto, 2006


Área Industrial desactivada, Pormenor de Graffitti, Porto, 2006


Jean-Philippe Côté, Terrain Vague, 2006

Outros artigos:

2017-06-30


PASSAGENS DE SERRALVES PELO TERMINAL DE CRUZEIROS DO PORTO DE LEIXÕES


2017-05-30


EVERYTHING IN THE GARDEN IS ROSY: AS PERIFERIAS EM IMAGENS


2017-04-18


“ÁRVORE” (2002), UMA OBRA COM A AUTORIA EM SUSPENSO


2017-03-17


ÁLVARO SIZA : VISÕES DA ALHAMBRA


2017-02-14


“NÃO TOCAR”: O NOVO MUSEU DO DESIGN EM LONDRES


2017-01-17


MAXXI ROMA


2016-12-10


NOTAS SOBRE ESPAÇO E MOVIMENTO


2016-11-15


X BIAU EM SÃO PAULO: JOÃO LUÍS CARRILHO DA GRAÇA À CONVERSA COM PAULO MENDES DA ROCHA E EDUARDO SOUTO DE MOURA


2016-10-11


CENAS PARA UM NOVO PATRIMÓNIO


2016-08-31


DREAM OUT LOUD E O DESIGN SOCIAL NO STEDELIJK MUSEUM


2016-06-24


MATÉRIA-PRIMA. UM OLHAR SOBRE O ARQUIVO DE ÁLVARO SIZA


2016-05-28


NA PEGADA DE LE CORBUSIER


2016-04-29


O EFEITO BREUER – PARTE 2


2016-03-24


O EFEITO BREUER - PARTE 1


2016-02-16


GEORGE BEYLERIAN CELEBRA O DESIGN ITALIANO COM LANÇAMENTO DE “DESIGN MEMORABILIA”


2016-01-08


RESOLUÇÕES DE ANO NOVO PARA A ARQUITETURA E DESIGN EM 2016


2015-11-30


BITTE LEBN. POR FAVOR, VIVE.


2015-10-30


A FORMA IDEAL


2015-09-14


DOS FANTASMAS DE SERRALVES AO CLIENTE COMO ARQUITECTO


2015-08-01


“EXTRA ORDINARY” - JOVENS DESIGNERS EXPLORAM MATERIAIS, PRODUTOS E PROCESSOS


2015-06-25


PODE A TIPOGRAFIA AJUDAR-NOS A CRIAR EMPATIA COM OS OUTROS?


2015-05-20


BIJOY JAIN, STUDIO MUMBAI


2015-04-14


O FIM DA ARQUITECTURA


2015-03-12


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE II/II)


2015-02-11


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE I/II)


2015-01-11


ESPECTADOR


2014-12-09


ARQUITECTAS: ENSAIO PARA UM MANUAL REVOLUCIONÁRIO


2014-11-10


A MARCA QUE TEM O MEU NOME


2014-10-04


NEWS FROM VENICE


2014-09-08


A INCONSCIÊNCIA DE ZENO. MÁQUINAS DE SUBJECTIVIDADE NO SUPERSTUDIO*


2014-07-30


ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO PINTO


2014-06-17


ÍNDICES, LISTAGENS E DIAGRAMAS: the world is all there is the case


2014-05-15


FILME COMO ARQUITECTURA, ARQUITECTURA COMO AUTOBIOGRAFIA


2014-04-14


O MUNDO NA MÃO


2014-03-13


A CASA DA PORTA DO MAR


2014-02-13


O VERNACULAR CONTEMPORÂNEO


2014-01-07


PÓS-TRIENAL 2013 [RELAÇÕES INSTÁVEIS ENTRE EVENTOS, ARQUITECTURAS E CIDADES]


2013-11-12


UMA SUBTIL INTERFERÊNCIA: A MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO “FERNANDO TÁVORA: MODERNIDADE PERMANENTE” EM GUIMARÃES OU UMA EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA NUMA ESCOLA EM PLENO FUNCIONAMENTO


2013-09-24


DESIGN E DELITO


2013-08-12


“NADA MUDAR PARA QUE TUDO SEJA DIFERENTE”: CONVERSA COM BEYOND ENTROPY


2013-08-11


“CHANGING NOTHING SO THAT EVERYTHING IS DIFFERENT”: CONVERSATION WITH BEYOND ENTROPY


2013-07-04


CORTA MATO. Design industrial do ponto de vista do utilizador


2013-05-20


VÍTOR FIGUEIREDO: A MISÉRIA DO SUPÉRFLUO


2013-04-02


O DESIGNER SOCIAL


2013-03-11


DRESS SEXY AT MY FUNERAL: PARA QUE SERVE A BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA?


2013-02-08


O CONSUMIDOR EMANCIPADO


2013-01-08


SOBRE-QUALIFICAÇÃO E REBUSCO


2012-10-29


“REGIONALISM REDIVIVUS”: UM OUTRO OLHAR SOBRE UM TEMA PERSISTENTE


2012-10-08


LEVINA VALENTIM E JOAQUIM PAULO NOGUEIRA


2012-10-07


HOMENAGEM A ROBIN FIOR (1935-2012)


2012-09-08


A PROMESSA DA ARQUITECTURA. CONSIDERAÇÕES SOBRE A GERAÇÃO POR VIR


2012-07-01


ENTREVISTA | ANDRÉ TAVARES


2012-06-10


O DESIGN DA HISTÓRIA DO DESIGN


2012-05-07


O SER URBANO: UMA EXPOSIÇÃO COMO OBRA ABERTA. NO CAMINHO DOS CAMINHOS DE NUNO PORTAS


2012-04-05


UM OBJECTO DE RONAN E ERWAN BOUROULLEC


2012-03-05


DEZ ANOS DE NUDEZ


2012-02-13


ENCONTROS DE DESIGN DE LISBOA ::: DESIGN, CRISE E DEPOIS


2012-01-06


ARCHIZINES – QUAL O TAMANHO DA PEQUENÊS?


2011-12-02


STUDIO ASTOLFI


2011-11-01


TRAMA E EMOÇÃO – TRÊS DISCURSOS


2011-09-07


COMO COMPOR A CONTEMPLAÇÃO? – UMA HISTÓRIA SOBRE O PAVILHÃO TEMPORÁRIO DA SERPENTINE GALLERY E O PROCESSO CRIATIVO DE PETER ZUMTHOR


2011-07-18


EDUARDO SOUTO DE MOURA – PRITZKER 2011. UMA SISTEMATIZAÇÃO A PROPÓSITO DA VISITA DE JUHANI PALLASMAA


2011-06-03


JAHARA STUDIO


2011-05-05


FALEMOS DE 1 MILHÃO DE CASAS. NOTAS SOBRE O CONCURSO E EXPOSIÇÃO “A HOUSE IN LUANDA: PATIO AND PAVILLION”


2011-04-04


A PROPÓSITO DA CONFERÊNCIA “ARQUITECTURA [IN] ]OUT[ POLÍTICA”: UMA LEITURA DISCIPLINAR SOBRE A MEDIAÇÃO E A ESPECIFICIDADE


2011-03-09


HUGO MADUREIRA: O ARTISTA-JOALHEIRO


2011-02-07


O QUE MUDOU, O QUE NÃO MUDOU E O QUE PRECISA MUDAR


2011-01-11


nada


2010-12-02


PEQUENO ELOGIO DO ARCAICO


2010-11-02


CABRACEGA


2010-10-01


12ª BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA — “PEOPLE MEET IN ARCHITECTURE”


2010-08-02


ENTREVISTA | FILIPA GUERREIRO E TIAGO CORREIA


2010-07-09


ATYPYK PRODUCTS ARE NOT MADE IN CHINA


2010-06-03


OS PRÓXIMOS 20 ANOS. NOTAS SOBRE OS “DISCURSOS (RE)VISITADOS”


2010-05-07


OBJECTOS SEM MEDO


2010-04-01


O POTENCIAL TRANSFORMADOR DO EFÉMERO: A PROPÓSITO DO PAVILHÃO SERPENTINE EM LONDRES


2010-03-04


PEDRO + RITA = PEDRITA


2010-02-03


PARA UMA ARQUITECTURA SWISSPORT


2009-12-12


SOU FUJIMOTO


2009-11-10


THE HOME PROJECT


2009-10-01


ESTRATÉGIA PARA HABITAÇÃO EVOLUTIVA – ÍNDIA


2009-09-01


NA MANGA DE LIDIJA KOLOVRAT


2009-07-24


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR (Parte II)


2009-06-16


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR


2009-05-19


O QUE É QUE SE SEGUE?


2009-04-17


À MESA COM SAM BARON


2009-03-24


HISTÓRIAS DE UMA MALA


2009-02-18


NOTAS SOBRE PROJECTOS, ESPAÇOS, VIVÊNCIAS


2009-01-26


OUTONO ESCALDANTE OU LAPSO CRÍTICO? 90 DIAS DE DEBATE DE IDEIAS NA ARQUITECTURA PORTUENSE


2009-01-16


APRENDER COM A PASTELARIA SEMI-INDUSTRIAL PORTUGUESA OU PORQUE É QUE SÓ HÁ UMA RECEITA NO LIVRO FABRICO PRÓPRIO


2008-11-20


ÁLVARO SIZA E O BRASIL


2008-10-21


A FORMA BONITA – PETER ZUMTHOR EM LISBOA


2008-09-18


“DELIRIOUS NEW YORK” EXPLICADO ÀS CRIANÇAS


2008-08-15


A ROOM WITH A VIEW


2008-07-16


DEBATER CRIATIVAMENTE A CIDADE: A EXPERIÊNCIA PORTO REDUX


2008-06-17


FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO


2008-05-14


A PROPÓSITO DA DEMOLIÇÃO DO ROBIN HOOD GARDENS


2008-04-08


INTERFACES URBANOS: O CASO DE MACAU


2008-03-01


AS CORES DA COR


2008-02-02


Notas sobre a produção arquitectónica portuguesa e sua cartografia na Architectural Association


2008-01-03


TARZANS OF THE MEDIA JUNGLE


2007-12-04


MÚSICA INTERIOR


2007-11-04


O CIRURGIÃO INGLÊS


2007-10-02


NÓS E OS CARROS


2007-09-01


Considerações sobre Tempo e Limite na produção e recepção da Arquitectura


2007-08-01


A SUBLIMAÇÃO DA CONTEMPORANEIDADE


2007-07-01


UMA MITOLOGIA DE CARNE E OSSO


2007-06-01


O LUGAR COMO ARMADILHA


2007-05-02


ESPAÇOS DE FILMAR


2007-04-02


ARTES DO ESPAÇO: ARQUITECTURA/CENOGRAFIA


2007-02-02


ERRARE HUMANUM EST…


2007-01-02


QUANDO A CIDADE É TELA PARA ARTE CONTEMPORÂNEA


2006-12-02


ARQUITECTURA: ESPAÇO E RITUAL


2006-11-02


IN SUSTENTÁVEL ( I )


2006-10-01


VISÕES DO FUTURO - AS NOVAS CIDADES ASIÁTICAS


2006-09-03


NOTAS SOLTAS SOBRE ARQUITECTURA E TECNOLOGIA


2006-07-30


O BANAL E A ARQUITECTURA


2006-07-01


NOVAS MORFOLOGIAS NO PORTO INDUSTRIAL DE LISBOA


2006-06-02


SOBRE O ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO MODERNO


2006-04-27


MODOS DE “VER” O ESPAÇO - A PROPÓSITO DE MONTAGENS FOTOGRÁFICAS


share |

TERRAIN VAGUE – NOTAS DE INVESTIGAÇÃO PARA UMA IDENTIDADE

LUÍS PEDRO SÁ E MELO


Tema cada vez mais recorrente, os dos “vazios urbanos” parece ter tomado conta de uma apaixonada discussão no seio do debate sobre a cidade pós-industrial. Confirma-o o facto deste ser o tema da primeira Trienal de Arquitectura de Lisboa.
Pessoalmente prefiro a expressão “Terrain Vague”, pela sua transversalidade linguística, e pela sua ressonância imagética.
Este texto pretende ser um início de apropriação desses “terrain vague”, e das suas diferentes manifestações. Assim, apesar de não ter como objectivo uma reflexão sobre a trienal, debruçar-nos-emos a título introdutório, com a pertinência óbvia, na definição inscrita no seu texto de apresentação:

“São espaços expectantes, mais ou menos abandonados, mais ou menos delimitados no coração da cidade tradicional, ou mais ou menos indefinidos nas periferias difusas. São manchas de “não-cidade”, espaços ausentes, ignorados ou caídos em desuso, alheios ou sobreviventes a quaisquer sistemas estruturantes do território.”

Salvaguardando as condicionantes peculiares onde esta definição aparece, ela encerra em si uma clareza quase insofismável na constatação física das duas vertentes sobre as quais aqui quero ponderar.
Ao citar este trecho, surge-nos a noção de haver diferentes tipos de “vazios urbanos”, sejam eles consequência de uma urbanização descontínua e heterogénea sobre o território, deixando nos seus interstícios retalhos de uma ruralidade persistente; ou sejam esses vazios os resquícios de uma cidade industrial passada e esquecida nas ruínas de grandes unidades produtivas desactivadas.

Proponho assim um exercício, que de especulativo, tentará lançar nutrientes sobre estas duas variantes: o valor da memória e jogo na construção da identidade dos vazios rurais ainda não ocupados e nas marcas da industrialização passada, respectivamente. Desta ultima associação tentaremos ver se é possível constatar algum comportamento que faça participar o “terrain vague”numa cultura urbana.

Partindo do texto citado, há um aspecto logo à partida confrangedor, a visão fria e distante, de fora para dentro do “terrain vague”. Aparentemente foi posta de lado qualquer possibilidade de haver uma identidade que vá para além desta mancha, quase nódoa, de “não cidade”.
Mas será assim mesmo, nesta definição que encontraremos o verdadeiro valor intrínseco dos “vazios urbanos”?

Para questionar o valor dessa “ausência” voltemo-nos para o interior destes espaços, ponderando sobre se existe em si algum potencial de valor de memória individual e colectiva, de e para a cidade. Quando falo de memória, refiro-me a essa particularidade que une a realidade presente a um passado remoto, rural, através de um tempo impreciso e nebuloso, suscitada por uma qualidade de duas faces, onde a primeira corresponde à memória colectiva e a segunda à memória individual.
Assim sendo, neste enclave, rural, que constitui o “vazio”, é criada uma nova ideia de memória colectiva, longe de uma representatividade ociosa, na medida em que é transitória.

Esta memória revela-se, não como ícone colectivo (identificado, catalogado e divulgado), mas antes como também diz Ignasi de Solà-Morales numa série de “indícios territoriais” (1) que, ao serem descontextualizados em clusters, representam a ausência desse mesmo colectivo.

É por isso que o seu ocaso é, normalmente, a única forma de actuação sobre o “vazio”, uma vez que o reconhecimento dessa ausência colectiva, quando requer uma intervenção, a requer colectivamente, ordenando-a através do mundo das formas, colectivamente reconhecidas, numa consagração da ordem urbana.

Em contra partida, a estranheza que provoca essa ausência colectiva no meio urbano percorre individualmente a memória do sujeito.
Esta memória individual é de extrema importância para o sedentário que entra, percorre, vagueia, no “terrain vague”. E é importante, porque passa a pertencer-lhe a capacidade intelectual de fazer o exercício dessa mesma memória, responsável pelas emoções de reconhecimento e/ou estranheza, só possíveis pela distância física e sobretudo temporal.
Por outro lado, este choque de dessincronia, provocado pela tal memória de um espaço passado no presente, mas cuja representação é a ausência colectiva, um passado com futuro em aberto, não orientado, fonte de possibilidades, de tudo o que podia ter sido mas não foi, vai rasgar, entre os dois tempos, a ordem urbana e o “terrain vague”, permitindo que o usufrutuário, momentaneamente ausente de ordem, e presente na ausência, contemple a cidade de fora para dentro.
Consequência dessa distância, a noção de jogo poder-nos-á esclarecer se, quando falamos de “terrain vague, nos referimos a uma parte integrante da complexa malha urbana, onde a própria cidade, também enquanto identidade colectiva, se circunscreve conjuntamente com o “terrain vague”.

Detenhamo-nos, então, para este conceito de jogo, no período pós-guerra, nomeadamente dentro de uma perspectiva pós-industrial.
Partamos das grandes indústrias desactivadas, que se vêm, desde aí, apresentando como áreas expectantes, na medida em que representam um potencial de especulação imobiliário enorme, mas que por enquanto, na sua grande maioria, são fiéis depositárias das expectativas dos seus usufrutuários e aí se desenrolam, como que manifestos de um provir ambicionado.
Finalmente, peguemos então no conceito de jogo, tal como o define Johan Huizinga no livro “Homo Ludens” (2), ainda no período de entre guerras:

“…uma actividade que se desenvolve dentro de certos limites de tempo e de espaço, numa ordem visível, de acordo com regras livrementes aceites, e que se situa fora da esfera da necessidade ou da utilidade material. “ (3).

Com esta definição, Huizinga dá-nos três coordenadas que regem o conceito de jogo: liberdade de ter “regras autónomas e livremente aceites”, anormalidade, na medida em que não se enquadra dentro da “esfera da necessidade ou da utilidade material”, e limite, no confinamento “dentro de certos limites de tempo e de espaço”.

Se olharmos para a primeira noção, a ideia de limite parecer-nos apreendida, desde o texto introdutório da trienal.
Já a vocação do jogo para a anormalidade, leva-nos à dimensão de “mundano”, na medida em que segue paralela à corrente vivência urbana, comummente aceite, e estratificada segundo uma série de regras, e compromissos sociais de troca, mais ou menos intuídos e pré estabelecidos em cânones não questionados nem questionáveis pela maioria dos habitantes.
Assim, anormalidade é como uma passagem para o exterior do “real”, mas dentro de um quadro mundano mais lato.
Essa passagem faz-se como uma actividade temporária, dotada de uma ordem própria, à margem da satisfação imediata das necessidades e dos desejos da dita vida “normal”, é o enquadramento em que inicialmente colocamos o habitante do “terrain vague”, o “que vagueia; errante; vagabundo”.

O jogo e o “terrain vague” parecem estreitamente ligados, visto não haver em ambos “qualquer interesse material, e da qual não advém lucro” (4), assim como “promove a formação de agrupamentos sociais que tendem a rodear-se de secretismo e a sublinhar a sua diferença em relação ao mundo exterior, por meio de disfarces ou por qualquer outro processo” (5).

Senão, vejamos as duas imagens duma desactivada área industrial na cidade do Porto, como um de muitos e diversos exemplos de uma consequência pós-industrial, onde se verifica isto que tenho vindo a expôr.
Se, por um lado, existe um jogo-competição na forma como são expostas as suas manifestações, assinadas sob pseudónimos praticamente só perceptíveis a quem pertence a esse grupo social restrito, por outro constata-se uma competição por um melhor e mais expressivo graffitti, que representa, no seu tema alusões claras à cidade, ao meio de onde se ausentaram momentaneamente.
Finalmente, podemos corroborar a ideia de que “uma vez jogado, permanece como uma nova criação da mente, um tesouro guardado pela memória” (6), memória essa, sobre um colectivo, tornando-se assim parte da cidade; individual na sua expressão e liberdade, é transmitido e torna-se numa tradição de um lazer no “terrain vague”.

E é desta forma que o “terrain vague” se constitui numa primeira instância, como uma interrupção, um interlúdio no quotidiano. O “terrain vague” pós-industrial faz-se sobre as ruínas dessas grandes unidades desactivadas, como que representando um grito de liberdade da estrutura produtiva em que as cidades se tornaram.

Poderemos adiantar-nos mais, ainda, e considerar que falamos de hiatos dentro da cidade que hoje existem como manifestações diárias de um objectivo, onde ainda não terá sido cumprido, na sobreposição à falência da optimização segundo propósitos produtivos, a putativa emergência dentro da cidade, fragmentada ou não, de uma sociedade onde o ócio, a lentidão e o prazer concorram de igual ponto de partida com o trabalho e a velocidade crescente da produção.
Nesta medida, encontramos o “terrain vague” como uma espécie de “outro” da cidade onde se luta, através do distanciamento, contra um processo de apropriação acrítico, de esvaziamento do sujeito na esfera dos objectos.
O “terrain vague”, como sugeria Ignasi de Solà Morales, tem a capacidade de colocar o indivíduo num espaço cujo modo de percepção vai passar além dos limites desse mesmo espaço, que é a cidade enquanto máquina produtiva.
E como afirma Huizinga sobre o jogo, este “ornamenta a vida, confere-lhe outra dimensão e, nesse sentido, constitui uma necessidade, tanto para o indivíduo – como função da vida – como para a sociedade, em função do sentido que possui, do significado, do seu valor expressivo, das suas associações espirituais e sociais, em suma, enquanto função cultural” (7).

Assim, e do modo como o “terrain vague” representa a fuga e uma oportunidade de alternância, de distância para a contemplação, leva-me a crer que este é, tem de ser, parte integrante da cidade.
“Terrain vague” detém essa capacidade de, ao deslocar o seu habitante, poder desdobrá-lo em si, no outro que contempla, mantendo uma importante função cultural da cidade.






Notas:
(1) Ignasi de SOLÀ-MORALES – “Terrain Vague” in Territórios. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2002
(2) (4) (5) (6) (7) Johan HUIZINGA – Homo Ludens. Lisboa: Edições 70, 2003.
(3) Johan HUIZINGA – Homo Ludens. segundo George STEINER – “Introdução” in Homo Ludens. Lisboa: Edições 70, 2003



Luís Pedro Sá e Melo, arquitecto
Doutorando pela Escuela Técnica Superior de Arquitectura da Universidad de Valladolid