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ARQUITETURA E DESIGN




Sou Fujimoto. ©David Vintiner. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“House N” (Oita, Japão, 2008). © Iwaan Baan. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“House N”, corte. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“House N”. © Iwan Baan. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“House Before House”, corte (Utsonomiya, Japão, 2008). Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“House Before House”. © Daici Ano. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“House Before House”. © Daici Ano. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“Primitive Future House”, maquete conceptual. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“Wooden House” (Kumamoto, Japão, 2008). © Daici Ano. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“Wooden House”. © Iwan Baan. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“Wooden House”. © Iwan Baan. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


Mandala de Sou Fujimoto (extracto). Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“1000m2 House”, maquete (Ordos, China). Cortesia: Sou Fujimoto Architects


Biblioteca de Musashino Art University, maquete (Tóquio, 2007-2010). Cortesia: Sou Fujimoto Architects


“Crystallised Wind”, banco desenhado para a instalação da marca Lexus, Salone Internazionale de Milano 2009. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


Imagem conceptual da instalação “Crystallised Wind”. Cortesia: Sou Fujimoto Architects


Sou Fujimoto no atelier, maquete da “House NA” (Tóquio, 2007-). Fotografia: Marta Pedro


Atelier Sou Fujimoto Architects, área reservada à elaboração de maquetes. Fotografia: Marta Pedro


Atelier Sou Fujimoto Architects, processo de discussão de projecto, maquetes e desenhos dispostos no atelier. Fotografia: Marta Pedro


Sou Fujimoto explica os projectos mais recentes. Fotografia: Hideto Cijiwa

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SOU FUJIMOTO

MARTA PEDRO


“Regressemos às origens da arquitectura, a arquitectura do futuro é a arquitectura dos primórdios da humanidade.” (1)

O trabalho do arquitecto japonês Sou Fujimoto, largamente premiado e reconhecido internacionalmente, introduz um nível de complexidade que deita por terra qualquer concepção instituída.
Com um entendimento único do espaço, o seu pensamento arquitectónico é informado pela cultura espacial japonesa, pela cidade de Tóquio, pela história da arquitectura, pela história do Universo. É uma arquitectura que resulta de um processo incessante de pesquisa que, atravessando o tempo e espaço, questiona ambiguidades, explora contingências, procurando um espaço relacional, um território “entre” sempre com uma liberdade intelectual e formal radicalmente desarmante. É esta a arquitectura do futuro primitivo que Sou propõe.

Setembro de 2009
Por Marta Pedro em Tóquio



P: O Sou tem um início de carreira peculiar. Não começou por trabalhar noutros ateliers antes de iniciar a sua prática individual, preferindo concentrar-se no desenvolvimento das suas ideias e na sua pesquisa individual. Pode explicar melhor essa necessidade de introspecção e o seu trabalho de reflexão destes primeiros tempos?

R: Sim, na verdade, quando estava prestes a terminar a faculdade não sabia que direcção tomar. O percurso natural seria começar por trabalhar num escritório de arquitectura, ou simplesmente prosseguir um caminho mais académico. Mas sentia-me inseguro e precisava de espaço para a minha pesquisa individual. Queria pensar em arquitectura por mim mesmo, de forma original; decidi então prosseguir individualmente. Foi um tempo muito decisivo na estruturação do meu pensamento, não apenas arquitectónico, mas global também. Lia muitos livros, em particular sobre ciências naturais - interessava-me muito a teoria de Einstein, o modo de pensar sobre o mundo, a natureza, quem somos, as nossas relações com as coisas naturais. Quis encontrar algo novo na arquitectura através de um entendimento global. Foi esse o período fundamental para a estruturação das bases do meu pensamento arquitectónico. Foi também pensar sobre Tóquio e nas relações entre a cidade e natureza. O meio natural é uma parte fundamental do meu passado, cresci em Hokkaido (2), onde a natureza está presente no dia-a-dia. Este tipo de contraste entre natural e artificial é uma das bases da minha investigação.


P: No seu pensamento arquitectónico, são evidentes alguns conceitos da cultura espacial japonesa, como a harmonia com a natureza, ou a forma particular de entender o tempo e de apreender os espaços e as suas transições. De que forma a cultura japonesa se constitui como agente informador do seu pensamento e de que outra instâncias se alimenta o seu trabalho?

R: A cultura espacial japonesa é muito importante para mim, é motivante, familiar mas é também uma fronteira misteriosa, que não está muito presente na nossa vida quotidiana. No ensino da arquitectura nas universidades japonesas há uma grande base de conhecimento relativa à arquitectura moderna ocidental. Arquitectos como Le Corbusier ou Mies, fazem parte fundamental da nossa educação. Quando terminei os estudos, questionei-me como ir além destes grandes mestres da arquitectura moderna. Foi então que, enquanto japonês, pensei em trazer essas relações intersticiais, essas ambivalências espaço/tempo, ou sentimentos ambíguos, para a arquitectura contemporânea. Procurei uma forma contemporânea de representar esse tipo de conceitos antigos. É um enorme desafio. Mas na verdade inspirei-me na cidade de Tóquio – Tóquio tem um carácter muito artificial, congestionado. Mas é ao mesmo tempo como uma floresta natural. Tem esta atmosfera ambígua que se manifesta nas diferentes escalas, áreas escondidas, pequenos universos que produzem diferentes ambientes. Desta análise pensei que “natural” e “artificial” podem não ser conceitos opostos, já que podemos encontrar algo “entre”, algo que é comum a estes diferentes aspectos. Comecei gradualmente a entender esta dualidade japonesa, esta forma de entender os espaços. Estou muito interessado nos espaços “entre”, na descoberta de uma dimensão nova, que existe entre exterior e interior, natural e artificial. É uma experiência muito enriquecedora e um grande desafio, explorar este tipo de dimensões escondidas.


P: A expressão tectónica destes espaços intermédios, desta dualidade, é certamente um grande desafio. Trata-se da representação de uma dimensão muito sensorial, mas também de um processo mental de apreensão gradual do espaço. Como expressa estes conceitos na sua arquitectura?

R: A “HOUSE N” é um bom exemplo para explicar os espaços intersticiais, espaços “entre” e a relação entre a casa e a cidade. Neste projecto criei um sistema de três caixas dispostas dentro umas das outras. A primeira imagem é apenas da casa como uma nuvem. Ou seja, a caixa exterior tem já alguma delimitação, mas não é totalmente encerrada. Tal como uma floresta que, vista do exterior, apresenta um grande volume. Contudo, podemos percorrer o seu espaço com liberdade. Não existe aqui um limite físico, uma barreira ou um sentimento de fronteira, apenas densidade de espaço. É apenas esta densidade que pode criar essa qualidade de protecção. É esta a primeira imagem. No entanto, temos que fazer a casa. Então pensei fazer este espaço nuvem, com limites dissipados, através da utilização de paredes rasgadas, utilizando este sistema de caixas dentro de outras, e este espaço “entre”, literalmente, já que o interior da caixa maior é o exterior da caixa intermédia e o mesmo se passa em relação à caixa mais pequena. Consegue-se, desta forma, a fluidez entre exterior e interior. Estas camadas de espaços podem criar sentimentos ambíguos, distâncias, algo muito japonês. A casa surge apenas como uma gradação de densidades do espaço. Acho que é uma boa mistura entre uma arquitectura de elementos muito concretos e os espaços intermédios da tradição japonesa.


P: Como referiu, retira inspiração da cidade de Tóquio. Esta cidade é um paradigma em termos de desenvolvimento urbano, de composição, tem vários centros, okus (3), e uma escala surpreendentemente humana. É este sentimento que pretende passar para os seus projectos?

R: Sim. Considero que a casa e a cidade não são duas coisas diferentes. Entendo que a casa, ou espaço privado, é realmente a parte mais profunda protegida da cidade. Neste sentido, casa e cidade podem ser contínuos. Mas a densidade da sensação de protecção, essa, é diferente. Este tipo de percepção de continuidade entre casa e cidade é o conceito chave da minha arquitectura. Apesar de ter crescido num ambiente totalmente diferente em Hokkaido, quando cheguei a Tóquio encontrei uma atmosfera e pequenos mundos que remetiam para a minha infância. Comecei por viver num pequeno apartamento de uma divisão. Nessa altura, achei que a atmosfera dentro de casa e o caminhar pelas estreitas ruas nalguns bairros de casas de dois pisos me fazia sentir parte de uma grande casa. Como se parte da cidade fosse a minha casa também. Gradualmente, a casa e o espaço privado dissolvem-se na cidade. Este tipo de sentimentos foi muito surpreendente para mim, e era para mim uma forma muito confortável de viver.


P: Esta investigação tem desenvolvimento em projectos como “House before House” (4) onde se produz esta gradação de ambientes. Pode explicar melhor esta apropriação individual do espaço da cidade?

R: Sim, o projecto “House Before House” tem como pressupostos a vida em Tóquio. O interior dos diferentes volumes que compõem a casa assume naturalmente um carácter mais privado. Mas também os pequenos caminhos exteriores, os espaços entre os volumes são usados activamente. Aqui procuro agarrar esse tipo de áreas soltas, nunca encarando apenas o volume fechado como casa. Podemos sentir os volumes e os vazios igualmente, com a mesma intensidade. Ao mesmo tempo, este projecto é influenciado pela minha infância, quando nos perdíamos na floresta em explorações. No fundo, penso que a sensação de brincar na floresta é muito semelhante à experiência de viver em Tóquio. Foi isso que procurei traduzir com a disposição tridimensional das árvores no projecto.


P: Na sua pesquisa, questiona e subverte a lógica dicotómica de certos conceitos como exterior e interior, natural e artificial, tendo sempre presente a forma do homem se relacionar com o meio. Como explica este regresso ao primitivo, ao mínimo enquanto campo fértil de novas possibilidades para a arquitectura do futuro?

R: Penso que é necessário voltar ao primitivo, a uma condição original, e encontrar uma nova relação entre o homem e o ambiente, ou o espaço físico de ocupação do homem. De seguida, quero encontrar uma nova forma, ou relação. Estamos a usar pequenas caixas brancas, elementos minimais mas quero ir além desta forma simples. Encontrar complexidades baseadas no comportamento primitivo, no sentido das intuições do homem, ou do homem com o meio.


P: “Wooden House” é então o epítome deste raciocínio?

R: Sim, este é um projecto muito especial. O projecto é construído em troncos de madeira empilhados e encaixados entre si. Tem uma apropriação sensorial. Este projecto vem no seguimento de uma pesquisa muito conceptual, a “Primitive Future House” onde queríamos desenhar apenas o mínimo através da análise da composição de degraus enquanto campo para habitação. Foi a materialização dessa pesquisa, foi isto que entendi como a casa ideal do futuro. Ou seja, uma casa onde sejam exploradas ao máximo as relações entre o corpo humano e o campo onde se movimenta, puro pensamento conceptual. Como um “espaço-caverna”, onde as pessoas se apropriam e usam o espaço de forma criativa. Elas decidem como sentar, dormir, viver. Uma espécie de sistema em aberto, em oposição ao “espaço-ninho” elaborado para uma função específica. Não feito para uma função mas uma paisagem ou terreno funcional na sua globalidade - este é um dos pressupostos da minha arquitectura. Talvez toque um pouco na tradição japonesa, de apropriação de espaço, em que tiramos os sapatos, nos sentamos no chão. Mas penso que vai além disso. Quero voltar atrás, a uma condição original, a elementos realmente primitivos de relacionar o corpo humano e o espaço.


P: A lógica de apropriação criativa do espaço está subjacente aos seus projectos. Como funciona na prática esta liberdade?

R: Tenho sempre em conta, claro, o cliente específico para quem estou a desenhar o espaço, ou a casa, tentando sempre entender o estilo de vida, os requerimentos mínimos. No entanto, procuro sempre dar o maior número de possibilidades de utilização desse espaço. Há um grande estudo formal e de composição, não quero simplesmente dar o espaço completamente livre ao cliente. Não funciona. Quero apenas deixar pistas, indícios ou coisas inesperadas, para que os espaços e as pessoas possam estabelecer relações. É então que esta liberdade de utilização acontece. Liberdade não significa dar um espaço neutro mas fornecer uma paisagem ideal, ou terreno que possa inspirar as pessoas nas suas vidas diárias, a possibilidade de encontrar o seu próprio estilo de vida. Um espaço totalmente livre tem uma limitação incrível, não pretendo criar dificuldades na utilização do espaço. Acho que o que estamos a criar é um espaço com uma instância intermédia, não totalmente livre.


P: O seu trabalho de pesquisa estrutura-se num profundo conhecimento da história da arquitectura, da qual retira pistas para a sua prática projectual. O Sou criou um esquema impressionante, a mandala (5) que faz a síntese entre a sua interpretação de obras referência da história da arquitectura e das suas próprias ideias. Pode explicar um pouco a sua mandala?

R: Sim, na verdade, fi-lo por prazer. Estou muito interessado na história da arquitectura mas não como historiador. Acho a história da arquitectura fascinante, desde a antiguidade ao tempo presente. É um terreno fértil de inspiração para o meu trabalho. Permite-me fazer um re-entendimento, uma reinterpretação dos seus vários significados. Estive no Egipto a semana passada onde visitei as pirâmides e o templo de Karnak. São de facto impressionantes. Mas um arquitecto tem que encontrar o seu próprio entendimento das pirâmides ou das grandes colunas, do coliseu de Roma ou das casas de Le Corbusier. Neste esquema, a mandala, coloquei em paralelo com os meus projectos a minha reinterpretação de edifícios chave que visitei. É uma atitude um pouco audaz, mas permite-me ver as diversas instâncias, esquemas e possibilidades que cada um encerra sem uma carga temporal. Gosto de ver em paralelo estes contrastes entre coisas novas e mais antigas, japonesas e mais ocidentais, para finalmente encontrar nelas algo de muito simples e básico, uma ordem comum, porque a arquitectura, toda ela é feita para o homem. Neste esquema, é possível sintetizar todos esses princípios básicos, numa forma primitiva de expressar e representar o mundo. Este tipo de tradução da arquitectura real para a descrição abstracta pode fornecer pistas para a elaboração de novos projectos.


P: Um dos aspectos fascinantes que tenho oportunidade de acompanhar no Japão é a aptidão da construção a que corresponde uma detalhada preparação da obra e calendarização dos trabalhos. De que forma é que estas circunstâncias aliadas a sistemas construtivos inovadores e períodos de obra relativamente curtos beneficiam o desenvolvimento de ideias e a passagem à prática da sua pesquisa teórica?

R: No Japão, a discussão de ideias entre empreiteiro, arquitecto e engenheiro de estruturas é possível durante o período de construção. Claro que o desenho está já bastante avançado quando começamos a obra, mas mesmo assim é possível uma discussão e revisão de certas coisas a meio do processo de construção. Depois de iniciada a obra, podemos discutir diagramas ou alterações de materiais, aperfeiçoar detalhes, percebendo gradualmente o que vai acontecendo. Penso que este controlo do processo construtivo, podendo integrar ou adicionar esse tipo de detalhes, é uma excelente tradição da arquitectura japonesa. O desenho de projecto e a construção não são fases separadas. De facto, muitos detalhes práticos do programa participam na parte criativa e conceptual. É importante aliar as duas para se conseguir uma boa arquitectura. E há, claro, uma grande minúcia e atenção ao detalhe durante a construção, algo fundamental.


P: No caso particular de Tóquio, o curto tempo de vida dos edifícios e tipos de regulamentação diferentes dos ocidentais permitem uma grande experimentação e liberdade criativa. De que forma encara esta circunstância?

R: Na verdade, no Japão temos regras de construção bastante fortes, embora não do ponto de vista formal ou de programa. Mas temos que cumprir regras apertadas, como limites de altura, ocupação, exposição solar e, claro, temos que ter sempre presente a forte actividade sísmica do território que se traduz numa série de parâmetros aos quais temos de obedecer. Quem visita o Japão pensa que podemos fazer de tudo. Mas aqui também nos queixamos de alguma rigidez de regras. O que se passa é que uma vez cumpridas estas imposições, há bastante liberdade para construir projectos inovadores na forma, nos materiais. Não temos que obedecer a uma envolvente específica. É uma tradição positiva, mas negativa também. A cidade japonesa é realmente feia; constroem-se coisas terríveis aqui. Tóquio, por exemplo, é composta de muitas casas privadas ou edifícios de habitação de pequena escala. Este tipo de construção tem uma existência limitada, tem um curto ciclo de vida que origina um processo de construção e destruição constantes. Esta situação produz contrastes impressionantes, ou seja, não existe a vontade (nem a possibilidade) de preservar um certo ambiente na cidade. Por fim, a única circunstância que se preserva é o caos; um caos positivo.


P: Está agora envolvido em projectos de escalas diferentes, com maior complexidade de programa e imposições concretas. Como transporta as ideias seminais de uma arquitectura primitiva ao trabalhar em projectos como ORDOS (6), por exemplo, que tem uma escala vastíssima ou da Biblioteca da Universidade de Arte de Musashino. Consegue manter a consistência de pensamento?

R: De facto é um dos novos desafios que estamos a enfrentar. Por exemplo, no caso da “Wooden House”, a escala pequena cria uma relação muito humana – é impossível passar isso para um edifício público, de escala maior. Por outro lado, o projecto “House N” vai desde uma escala pequena, o oku, crescendo gradualmente, podendo encontrar uma escala maior – desta forma, penso ser possível criar uma situação urbana. Temos diversas formas de desenhar relações mútuas, ou situações “entre”, algumas dependem de uma escala pequena, mas outras podem ser elaboradas com uma escala maior. Neste caso, sou claramente influenciado por Tóquio. Tóquio é gigantesca mas, ao mesmo tempo, esta escala humana é muito presente, as relações mútuas permitem uma boa composição. Quero encontrar formas diferentes de tratar espaços pequenos mas, ao mesmo tempo, de grande escala. Gosto de combinar as duas escalas. Mas é um grande desafio neste momento. Ao desenhar uma casa pequena, é possível controlar facilmente o desenho, mas trabalhando em projectos de escala tão grande como o de ORDOS, temos que estender o nosso pensamento e explorar as fronteiras do campo da arquitectura. Quero encontrar em projectos de escalas maiores os pequenos centros (okus) novamente, relacionando-os através de uma gradação, de modo a que as pessoas experimentem a escala humana em sequência. Por exemplo, a forma guru-guru (espiral) utilizada no projecto ORDOS e na Biblioteca permite esta gradação e sequência de espaços através de um sistema muito simples. É uma pesquisa muito interessante para mim.


P: O Sou não aplica este entendimento do espaço apenas nos seus projectos arquitectónicos. Este ano participou no Salão de Milão a convite de um fabricante automóvel japonês, que lhe propôs desenhar mobiliário como instalação para representar o conceito do novo modelo “vento cristalizado” (7), abordando a dualidade entre o natural e o artificial. O que retirou desta experiência?

R: Este projecto da instalação foi, na verdade, um grande desafio para nós porque se tratava de uma instalação interior, num espaço fechado, onde não há verdadeira natureza. Na arquitectura real temos uma relação com o meio através de aberturas onde a natureza está mais presente. Neste caso, tivemos que tratar coisas naturais e artificiais dentro de um espaço interior limitado, ou seja, a um nível conceptual, apenas. Materializar num objecto o fluir do vento é um grande desafio. A Lexus pediu-me para visualizar o conceito ambíguo de vento cristalizado em vez de fazer apenas uma peça de mobiliário. Criei um banco em acrílico que pode ser separado em várias peças que articuladas entre si criam espaços diferentes, relações com as pessoas. Pretendi criar um campo de actuação as pessoas. Foi um bom exercício, já que posso retirar inspiração para a arquitectura do pensamento puro da instalação, assim como a experiência da arquitectura pode criar um ponto de vista diferente para uma instalação. É sempre uma dualidade.


P: Atravessamos um tempo em que “verde” e “sustentabilidade” estão na ordem do dia. Como entende a mediatização destes conceitos e qual é para si o significado de sustentabilidade? Na sua concepção de regresso ao primitivo, está implícito um pensamento sustentável?

R: Sim, é necessário fazer uma combinação inteligente entre natural e artificial. No século XX, houve o desejo de controlar todos os ambientes, fazer uma arquitectura controlada pela máquina. Por exemplo, com a utilização do ar condicionado estamos a criar barreiras com a natureza, limitando-nos a um espaço. É necessário perceber que este tipo de controlo total não é possível. Penso que não devemos tentar controlar o ambiente mas sim encontrar uma boa forma de viver com certas inconveniências e contingências, tirar proveito e apreciar estes factores naturais. Isto significa, voltando ao meu raciocínio, criar não o “espaço-ninho” mas o “espaço–caverna”. Para mim, o ninho é um espaço criado artificialmente pelo homem e controlado pela máquina, no entanto, podemos usufruir e encontrar o nosso espaço confortável na caverna primitiva – temos de a usar de forma positiva explorando ao máximo as potencialidades já contidas neste espaço, nunca destruindo esse terreno original apenas para desenhar a casa perfeita. É aqui que reside a “sustentabilidade”, neste pensamento básico. A recorrência ao “verde” por si mesmo não é eficaz. Os arquitectos têm de ser capazes de criar uma situação intermédia, parte natural parte artificial. Na minha arquitectura, permito sempre que a natureza faça parte de todos os projectos. Neste caso, o verde não é o objectivo final, mas sim estabelecer uma boa relação entre interior e exterior, entre arquitectura e natureza. É este o ponto essencial.


P: O Sou é também professor convidado em diversas universidades japonesas. No Japão, programas de estágio em ateliers como o open desk e outros mais extensos constituem uma aprendizagem valiosa. Considera a experiência de atelier importante na educação de um estudante de arquitectura?

R: Infelizmente, não tive esse tipo de experiência. Considero extremamente importante a experiência e a formação que se adquire nos ateliers de arquitectura. Aqui no atelier tenho vários estudantes e estagiários de universidades japonesas e estrangeiras que ficam cerca de dois a seis meses. Este período longo de trabalho é muito importante. O open desk é um sistema praticado no Japão, de curta duração, cerca de duas semanas, o que é pouquíssimo tempo para seguir um projecto. É necessário um período mais longo de permanência de forma a acompanhar o desenrolar de um projecto, a sua evolução e poder participar da discussão. Mas este tipo de experiência é fundamental. Há uma distância enorme entre a escola e a prática, o dia-a-dia. A experiência adquirida nas universidades não tem utilidade no meu atelier. É uma grande surpresa, mas de facto não tem qualquer utilidade. Não acredito que se possa ensinar arquitectura nas universidades. Eu ensino arquitectura no meu escritório. A universidade pode apenas fomentar parte do pensamento arquitectónico, nada mais.


P: Da minha experiência de trabalho no Japão, entendo que a produção massiva de maquetes é parte fundamental do processo projectual. É um método que deriva também da tradição japonesa? Qual é o seu processo de trabalho?

R: Sim, realmente sim. De facto os ateliers japoneses foram gradualmente produzindo cada vez mais maquetes. Por vezes, penso que fazemos demasiadas, muito além das necessárias. Contudo, o nosso pensamento arquitectónico é baseado neste sistema – o meu processo também. Há uma dimensão muito sensorial neste método. Claro que a utilização de desenhos 3D também é importante no meu processo de trabalho, já que não quero comprometer a potencialidade formal de um projecto pela eventual dificuldade de produção da maquete. A maior qualidade deste método é, para mim, o facto de poder fomentar discussão no espaço do atelier. O facto de todos poderem ver o que se está a passar, incluindo eu mesmo, fomenta novas discussões, trocas importantes de pontos de vista. Neste sentido, as maquetes actuam como mecanismos de pensamento e originam novas ideias. Combinamos este processo com modelos 3D mas só as maquetes têm a qualidade única de poderem ser rodeadas por pessoas. Já com modelos gráficos esta discussão é mais complicada. O grande problema é este ponto de vista único. Temos que fixar um ponto de vista nos gráficos de computador que não é exactamente real, onde não há qualquer dimensão sensorial. Mas é necessário combinar ambas as instâncias já que pode abrir portas a novas formas arquitectónicas. Gosto desta complementaridade e não quero parar de fazer maquetes. É possível pegar numa maquete, manuseá-la, senti-la com o nosso corpo. Estamos tão habituados que é impossível não fazê-lo. Faz parte do nosso corpo.


P: Estes últimos anos têm sido determinantes para o reconhecimento internacional do seu trabalho e exposição mediática. Em que sentido esta exposição tem afectado o seu trabalho?

R: É uma situação muito privilegiada, sem dúvida. Deram-me oportunidades de participar em projectos muito interessantes como o ORDOS ou de conhecer diferentes arquitectos, novas formas de pensar arquitectura. Deu-me também a oportunidade de viajar e conhecer lugares e diferentes culturas das quais retirar um novo entendimento. Por enquanto, tenho levado esta internacionalização do meu trabalho de forma muito positiva. Não me quero limitar ao meu estilo, quero sempre encontrar algo de novo. Assim, quando recebo um convite, procuro sempre participar e aceitá-lo. Novas experiências podem, espero, trazer nova inspiração e entendimento da arquitectura, da cidade, podem resultar em algo de novo. É de certa forma uma busca incessante, uma pesquisa permanente. Mas sim, ultimamente tem sido para além das minhas possibilidades.


P: O Sou esteve duas vezes em Portugal, este ano. A primeira vez, no Porto, a convite do Fantasporto 2009 (8) que teve uma forte componente de discussão arquitectónica e, mais tarde, em Lisboa, participando na exposição “O Processo Invisível” (9) que reuniu trabalhos de 13 arquitectos japoneses. O que é que retirou de mais importante desta viagem para a sua pesquisa?

R: A primeira visita foi muito curta, fiquei apenas duas noites no Porto. Assim, na minha segunda visita a Portugal, antes de Lisboa, voltei novamente ao Porto. Com mais tempo, visitei alguns edifícios do Siza, as piscinas, o Museu de Serralves, a igreja de Marco de Canavezes e, finalmente, tive oportunidade de usufruir a cidade do Porto. Caminhei imenso, atravessei a ponte. A vista é incrível e, claro, incríveis também aquelas ruelas estreitas na parte antiga da cidade. Foi uma experiência fantástica. Depois, voltei a Lisboa de comboio, andei pela cidade, visitei pequenas vilas nos arredores, Sintra, Óbidos e fui a Monsanto. Gostei verdadeiramente de caminhar, de explorar os lugares, a luz. Há um contraste incrível entre as duas cidades, têm atmosferas tão diferentes. Foi uma viagem muito inspiradora.


P: Referiu que visitou algumas obras do arquitecto Álvaro Siza. O trabalho de Álvaro Siza tem sido, nos últimos anos, frequentemente publicado aqui no Japão e a sua obra é referência conhecida para arquitectos japoneses como Sejima e Nishizawa. Também partilha este interesse?

R: Sim, de facto, ao longo da minha visita, tomei bastantes notas sobre a sua obra, estava muito interessado em alguns pontos da sua arquitectura. Fiquei muito impressionado com a pureza do branco do Siza, que é totalmente diferente do branco japonês. É um branco abstracto, mas ao mesmo tempo usa textura, madeira, pedra. Este branco e a forma de tratar os volumes é para mim muito estimulante e, claro, estava também muito interessado na sua forma de pensar a arquitectura e a relação com a paisagem. Para mim, esta visita teve um carácter de investigação de cada espaço, de cada atmosfera dos seus edifícios. Outro aspecto que me impressionou foi também a forma do Siza tratar o relevo do terreno, o uso das escadas, das rampas. Penso ser muito inspirado na própria cidade do Porto. Faz um tratamento verdadeiramente tridimensional do espaço. Este carácter tridimensional é um grande mistério para mim, foi sempre algo sobre o qual me questionava quando observava a sua obra em publicações. No entanto, quando visitei o Porto percebi que o seu relevo acentuado explica esta complexa percepção do espaço. Foi uma experiência surpreendente para mim.



Sou Fujimoto
Arquitecto pelo Departamento de Arquitectura da Faculdade de Engenharia da Universidade de Tóquio (1994). Fundou o seu próprio atelier Sou Fujimoto Architects em 2000, em Tóquio. É professor convidado nas universidades japonesas Tokyo University (desde 2004,) Kyoto University (desde 2007) e Showa University (desde 2007).

Marta Pedro
Arquitecta pelo Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra (2005). Vive e trabalha em Tóquio desde 2005 onde colaborou com os ateliers Toyo Ito & Associates e Maki and Associates. Desenvolve agora actividade profissional independente. É professora convidada na Universidade Meiji onde é responsável pelo Seminário Anual de Arquitectura. É membro da direcção do Urban Land Institute Japan, em Tóquio.


NOTAS

(1) Sou Fujimoto in “Primitive Future”, 2008, Contemporary Architects Concept Series, INAXPublishing.

(2) Hokkaido é a ilha mais a norte do território japonês, famosa pela sua paisagem natural de montanha e floresta.

(3) Oku, conceito da cultura espacial japonesa. Significa “centro”, o mais escondido, ou pequeno universo.

(4) “House before House”, faz parte do projecto SUMIKA (habitat) para a cidade de Utsunomiya, nos arredores de Tóquio, lançado pela Tokyo Gas e dirigido por Toyo Ito. Este projecto reúne as propostas de quatro arquitectos japoneses para a casa do futuro, com pressupostos assentes na ideia de “casa primitiva”.

(5) Mandala (círculo, em sânscrito) consiste numa representação geométrica da relação dinâmica entre o homem e o cosmos.

(6) “1000m2 House”, Ordos, China. Integrada no programa Ordos100, projecto que pretende desenvolver 100 projectos de habitação, com autoria de 100 arquitectos, no interior da Mongólia, em Ordos, China. Foi lançado pela Jiang Yuan Water Engineering Ltd [www.ordos100.com].

(7) Instalação “Crystallised Wind”, Salone Internazionale de Milano 2009 em [www.tinyurl.com/yhzz5x7].

(8) Sou Fujimoto apresentou conferência no ciclo “Nas Ruínas do Futuro”, enquadrada no Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto, realizada em Fevereiro de 2009 no Grande Auditório do Rivoli.

(9) Sou Fujimoto apresentou conferência a 2 de Junho de 2009 na Ordem dos Arquitectos em Lisboa. “Processo Invisível” em [www.anywheredoorarchi.com].