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ARQUITETURA E DESIGN




“VENDE-SE” composição de anuncios, ftb 2006


Bloco das Águas Livres, 1956, NTP e BCC


Minimalismo banalizado


Liceu de Macau 1963, Raul Chorão Ramalho


Plano de implantação Picadeiro Palácio Nacional de Queluz, Manuel Vicente 1991


Picadeiro –estudos de maquete


Picadeiro –maquete interior


Picadeiro –maquete apresentação


POBAP - Posto Operacional de Bombeiros da Areia Preta, Macau, Manuel Vicente, 1992-96


Piscina na Outurela, Manuel Vicente, 1999-2003

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O BANAL E A ARQUITECTURA

FRANCISCO TEIXEIRA BASTOS


Presentemente, observa-se em Portugal uma crescente banalização da arquitectura corrente, dita minimalista. Esta, aparece veiculada por imagens estereotipadas, que suportam (e se suportam n)a ideia de ser a única alternativa ao que não é moderno e actual, ou seja: ao popular, ao vernáculo ou, em termos mais equivocados, ao não erudito ou não informado; criando assim uma falsa ideia de corrente estética.

Com este facto retira-se o significado – contextual, tipológico, social ou construtivo – quer de cada escolha de projecto, quer do discurso arquitectónico proposto, quer ainda do resultado edificado alcançado, acabando por substitui-los pela criação de um receituário de situações tipo a serem usadas, como garantia de um sucesso pré-adquirido. Só que esta tendência emergente não se afigura como uma novidade recente ou um desvio de uma normalidade. Ao longo do século passado assistiu-se a uma série de adulterações de conceitos e de criações arquitectónicas, que os desligaram das suas intenções originais, tornando-os reprodutíveis, enquanto tipos de imagem ou de construção.

A liberdade criativa resultante da descoberta das qualidades estruturais e plásticas do betão armado, reclamada e explorada pelos arquitectos do movimento moderno e consolidada pelo documento da Carta de Atenas, cedo se viu substituida, no pós 2ª Guerra Mundial, pela tipificação de soluções, as quais utilizaram apenas a repetibilidade estrutural dos modelos de origem. Essas edificações redundaram em blocos de grandes dimensões estratificados e maximizados para albergar o maior número de habitantes e de funções com o menor dispêndio de meios financeiros.

Contrariando essa tendência, Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral, entre outros, demonstraram em 1956, no edifício do Bloco das Águas Livres em Lisboa, que a partir de um determinado modelo de arquitectura moderna, era possivel criar um tipo de bloco misto, de habitações e escritórios, totalmente inventado e recriado a partir do seu entendimento conceptual do proposto original. Não copiou, inovou. Experimentou criar, do geral ao detalhe, uma arquitectura que transmitisse uma ideia de modernidade. Esta, enquadrava-se plenamente na sua contemporaneidade.
Posteriormente, a produção arquitectónica do periodo mais recente da pós-modernidade gerou, preversamente, a possibilidade facilitista de se dispor de um vocabulário base para a elaboração da imagem dos edifícios, subtraíndo-lhes por completo o cariz social e as pesquisas espaciais, que o criaram. O uso das formas geométricas puras pareceu asseverar a alguns arquitectos - imediatamente seguidos pelos promotores – o caminho seguro para edificar extensamente os espaços, urbano e proto-urbano, com exemplos menores que, de algum modo, revisitavam grosseiramente o universo imagético inventado pelo estilo “português suave”.

A presença nefasta destas edificações foi desqualificadora da imagem, tanto da reabilitação, como da expansão das vilas e cidades do território nacional, sobretudo nas regiões centro e sul. Este facto potenciou, por parte dos novos projectistas, uma aversão de príncipio ao desenho e à composição arquitectónicas até aos dias de hoje. O vazio criado, quanto a outro modo de actuar na cidade e com o património construido, gerou uma elevada expectativa em relação a propostas de carácter mais abstrato que propusessem abordagens de contraste com as realidades existentes.

A viragem do milénio, se por um lado viu aparecer propostas inovadoras, igualmente preconizadas por arquitectos estabelecidos e em início de carreira, por outro lado, expôs uma nova vaga de edificações anódinas (isoladas ou em conjuntos), auto-legitimadas como arquitectura, apenas pelo facto de se socorrerem de elementos de composição constituintes de uma aparência assumidamente moderna.

Tomando em conta alguns casos mais flagrantes da falta de descernimento crítico na aplicação de soluções tipo, com o objectivo de alcançar uma imagem minimalista, podemos enunciar os seguintes:
- O uso de extensos panos cegos ou de volumes em consola sem qualquer estratégia conceptual de concertação com as restantes partes da edificação;
- O uso indescriminado da cobertura plana sem nenhum sentido da realidade do sítio, nem o conhecimento dos seus constrangimentos construtivos;
- O uso de grandes vãos sem o domínio da compartimentação dos repectivos envidraçados e da qualidade ambiental do interior;
- O despojamento dos elementos constituintes do todo edificado, cujo resultado, na maioria dos casos, è somente o seu empobrecimento.

Porque, à semelhança de um texto literário, comunicar (intensamente) uma ideia ou um conceito com o recurso a poucas palavras, requer um extraordinário domínio da lingua e dos significados da linguagem utilizada e acima de tudo, exige uma apurada capacidade de síntese do discurso, não havendo lugar a exercícios de estilo sem fundamento.
Importa então referir, que tem permanecido nos arquitectos, a ideia errada de que se pode (ou deve) utilizar uma situação tipo (ou simplesmente um tipo) para resolver um determinado problema, fim ou objectivo, em vez de encarar esse tipo como o princípio de uma reflexão ou investigação.

Aldo Rossi analisou esta problemática, quando afirmou que: “Penso pois no conceito de tipo como qualquer coisa de permanente e de complexo, um enunciado lógico que está antes da forma e que a constitui”, seguindo a ideia de Quatremère de Quincy “... a palavra tipo não representa tanto a imagem de uma coisa a copiar ou a imitar, quanto a ideia de um elemento que deve ele próprio servir de regra ou modelo (...) Tudo é exacto e dado no modelo; tudo é mais ou menos vago no tipo.”
Toda esta situação não seria digna de referência se os arquitectos, mesmo que consolidados na sua prática profissional, não fossem permeáveis à pressão que esses fenómenos criam, ou, como refere Alain de Botton, não oscilassem entre a vontade de pertença e a coragem da aceitação da impopularidade ou da inadaptação a um sistema, que se apresenta, tanto atractivo, como recompensador.

Por um lado, a profusão de imagens fotográficas e escritos acríticos sobre os edifícios mais diversos, construidos em Portugal, patentes em publicações não especializadas de grande divulgação pública, alimentam um sistema de competitividade pelo acesso à exposição pública e consequentemente à notoriedade, acompanhando uma tendência generalizada na sociedade contemporânea. Por outro lado, avolumando o fenómeno da vontade de reconhecimento e sucesso, o aumento significativo do número de livros e revistas especializadas veio possibilitar o aparecimento a público de obras e projectos de menor relevo no seu carácter inovador ou transformador mas que, sendo bem defendidos e explorados fotograficamente com qualidade, consolidam a imagem duma arquitectura actual pura e esclarecida. Uma parte deste fenómeno pode ser atribuida ao valor que a imagem fotográfica de obras de arquitectura assume enquanto obra de arte ou “peça”, que pode ser observada e interpretada independentemente do objecto que reproduz, criando lógicas de leitura próprias da sua disciplina e afastando o observador da essência da arquitectura, aí subalternizada ao enaltecimento da sua “fotogenia” -, como referiu João Palla e Carmo no artigo “Modos de ver o espaço”. A imagem liberta-se da sua condição de reveladora da situação real inventada, para se promover a si própria enquanto produto, elevando também com esse facto, o objecto representado, criando sinergias de sucesso para ambos. Outra parte do fenómeno pode ter origem na falta de capacidade que a sociedade em geral tem de ser tolerante à arquitectura enquanto arte, isto é, aos limites que impõe aos arquitectos para a experimentação na procura de soluções, quer sejam de ordem construtiva, quer sejam de ordem funcional, quer sejam da ordem da imagem. Subverte-se assim o sentido “do que as coisas devem ser” para se tornarem naquilo que devem parecer, cabendo finalmente aos arquitectos a opção, individual ou em grupo, de como actuar.

Como Manuel Vicente me transmitiu através da sua prática, nas experiências conjuntas (profissionais e académicas) que partilhámos desde 1989, importa ter, acima de tudo, uma abordagem conceptual para o que se quer propor e a total abertura para as descobertas decorrentes do próprio processo de projectar.

Assim, partindo-se duma ampla leitura da realidade que funda a existência do empreendimento – a avaliação das circunstâncias: cultural, política, financeira, programática, local – elaborar-se-á então um conceito (de lugar) que se vai expressar pela materialidade da construção, tornada arquitectura e que lidará interactivamente com essa mesma realidade, adaptando-a, transformando-a, tornando-se o projectista num agente de cultura a operar no território.

Exemplifico: em 1991, a pretexto da execução de um Picadeiro, num terreno anexo ao jardim do Palácio Nacional de Queluz, Manuel Vicente, entendeu ser o momento de se equacionar quais as leituras que éram possiveis de se ter de um equipamento cultural, quando observado em movimento, desde uma via de circulação rápida.
Com essa finalidade elegeu as coberturas em cascas metálicas de produção corrente - que se começavam a vulgarizar ao longo da Estrada nacional nº1 - como o negociador entre a agressividade do contexto territorial das vias circundantes e a realidade cultural que os jardins e o equipamento albergavam. Propunha-se re-significar um elemento banal, pelo resultado das pesquisas sobre as potêncialidades espaciais dos diferentes modos de o assemblar.

A Construção das coberturas do Picadeiro com esse material de um modo diverso do que estava funcionalmente previsto, assegurava, por um lado, o seu reconhecimento por parte de quem as observava, mas por outro, abria o campo à curiosidade que suscitava no transeunte, em perceber do que se tratava afinal.

Se para a encomenda não era ainda o tempo para este tipo de experimentação – pois apesar de veicular uma imagem forte para o edifício, implicava que seu fruidor teria de lidar com uma realidade construtiva de natureza industrial “dura”, pouco compatível com o tipo de utilizador – para Manuel Vicente tinha-se iniciado uma pesquisa arquitectónica que se materializava no edifício dos Bombeiros da Areia Preta em Macau (1992/96), seguindo-se-lhe o Pavilhão da realidade Virtual, na Expo 98 em Lisboa (1997/98) e que se consolidava na Piscina da Outurela, concelho de Oeiras (1999/2003), estravazando o limite do próprio material para o betão.

A realidade tem vindo a demonstrar, que a sociedade portuguesa actual não tem estado receptiva a entender este tipo de percursos porque não lhes consegue vislumbrar nem lucro nem proveito. Por isso, ao contrário do equipamento de Macau, o Picadeiro de Queluz nunca se executará. Também a Piscina da Outorela encontrou muitas dificuldades de processo para ser construida conforme o projecto. Finalmente, o Pavilhão da realidade Virtual espera pacientemente a sua demolição para dar lugar a mais um paralelipípedo de escritórios.

Se a arquitectura de excelência cria valor cultural, sobre o qual se pode estruturar a cidade e a sociedade em geral, então a boa ou competente arquitectura consolida-o dando-lhe corpo. Ao contrário, a má prática profissional impõe um pesado “legado” edificado que só serve as circunstâncias que lhe dão origem.

Perante este cenário, coloca-se pertinentemente uma questão final sobre qual a orientação dar ao ensino da arquitectura em geral e em particular a da prática do projecto.
Não entendo a escola de tendência que ensina os alunos a aperfeiçoar exaustivamente um tipo de solução, através do exercício de projectar, obviamente a partir dum original praticado pelo professor/projectista. Dessa forma, treina-se apenas uma prática de um modo de fazer.

Acredito antes num ensino baseado no modelo pedagógico da dúvida metodológica, não só sobre o status quo, mas também, sobre o próprio conteúdo e evolução das propostas para a problemática que se esteja a considerar, promovendo amplamente a invenção, a experimentação e a descoberta. A pluralidade dos resultados abrirá inevitavelmente o campo a uma discussão alargada de conceitos e à criação de atitudes individuais nos alunos, críticas e transformadoras, para lidar com o mundo em que vão actuar.





Francisco Teixeira Bastos, arquitecto
Prova de Aptidão Pedagógica e Científica pelo IST-UTL, 2005
Assistente no Curso de Arquitectura do Instituto Superior Técnico, da Universidade Técnica de Lisboa
Grupo de Investigação do ICIST




Fontes:
TOSTÕES, Ana, catálogo da exposição: “Arquitectura e cidadania –Atelier Nuno Teotónio Pereira”, Edicões Quimera, Lisboa 2004
ROSSI, Aldo, “A Arquitectura da Cidade”, Edições Cosmos, Lisboa, 2001.
de BOTTON, Alain , “ O Consolo da Filosofia”, Dom Quixote, Lisboa, 2001.
PALLA, João, “MODOS DE “VER” O ESPAÇO - A PROPÓSITO DE MONTAGENS FOTOGRÁFICAS”, artigo de 27/04 da revista Arte Capital 2006
KAHN, Louis, “Conversas com Estudantes”, Edições gustavo Gili, Barcelona, 2000