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ENTREVISTA


Fernando Alvim. Fotografia: Alan Maglio


Pavilhão Africano / Bienal de Veneza. © Fotografia: Haupt & Binder


Minnette Vári, "Alien", 1998, DVD. © Fotografia: Haupt & Binder


Yonamine, "The best of the best", 2007, Instalação. © Fotografia: Haupt & Binder


Yinka Shonibare, "How to blow up two heads at once", 2006, Instalação. © Fotografia: Haupt & Binder


Bili Bidjocka, "L'écriture infinie #3", 2007, Instalação. © Fotografia: Haupt & Binder


Kiluanji Kia Henda, "Ngola Bar", 2006, C-prints s/ alumínio, 200 x 140 cm. © Fotografia: Haupt & Binder


Olu Oguibe, "Keep it real memorial to a youth", 1997-2000, Instalação. © Fotografia: Haupt & Binder

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FERNANDO ALVIM


Fernando Alvim, nascido em Angola em 1963, é um dos principais dinamizadores da cena artística angolana, tanto a nível nacional como internacional. Trabalhando simultaneamente como artista e como comissário de exposições, Alvim levou para Bruxelas, em 1999, o Camouflage, um espaço expositivo cuja principal intenção é dar visibilidade à produção artística africana na Europa.

Nos últimos anos, Alvim idealizou e continua a dirigir a Trienal de Arte de Luanda, uma das principais plataformas para a arte contemporânea angolana. Durante este ano Alvim comissariou, juntamente com Simon Njami, o projecto “Check List - Luanda Pop” durante a Bienal de Veneza. “Check List”, realizado a partir da colecção da Fundação Sindika Dokolo, reúne o trabalho de cerca de 30 artistas africanos e pretende dar uma visão do panorama mais significativo da criação africana dos dias de hoje. Esta entrevista tomou como ponto de partida o projecto para a Bienal de Veneza para depois tentar conhecer um pouco mais sobre este importante representante da arte contemporânea africana.

Por Filipa Ramos


P: Gostaria que me falasse um pouco sobre si, sobre a sua actividade enquanto artista e comissário, entre Angola, Bruxelas e Joanesburgo, da sua relação com a arte africana e, sobretudo, do seu percurso pessoal.

R: Nasci em 1963 em Luanda. Qualquer ser humano que observa e participa numa mutação tão profunda como uma independência e a criação de uma nação contemporânea no fim do século XX, torna-se ao mesmo tempo parte integrante e consequência de uma metamorfose cultural e política. É a partir desta plataforma que desenvolvo a minha acção estética.

O meu posicionamento como artista é de um artista total que não separa a acção artística da acção política, quer dizer da estética estrutural, com responsabilidade e soluções para a criação de mecanismos de sustentação da criação artística em África.

Penso que uma das razões das inúmeras fragilidades do continente africano é o facto dos africanos não terem acesso à estética do seu passado pois estas obras foram subtraídas pelo mundo ao continente para nutrirem a civilização ocidental.

Penso que é da responsabilidade dos africanos e sobretudo dos artistas não permitirem que o mesmo aconteça na contemporaneidade, para que as futuras gerações tenham acesso à sua estética e cultura produzindo o conhecimento e o desenvolvimento suficientemente sustentado melhorando assim a existência dos africanos.

Na minha geração fomos profundamente influenciados pela postura humanista dos homens e mulheres africanos que pensaram e materializaram as independências deste continente.

Não há abertura cultural sem abertura política, como não poderá haver abertura política sem abertura cultural.



P: A sua actividade artística data do início dos anos 90, período em que era já activo, tanto como artista, tanto como dinamizador cultural. Que diferenças encontra no interesse, na recepção e na abertura da Europa face à produção contemporânea africana?

R: As minhas propostas conceptuais e estéticas são vistas pela primeira vez em França em 1985 e em Portugal em 1987. O meu primeiro projecto aconteceu em Luanda em 1979 seguindo-se mais 3 projectos em 1984, 1985 e 1987.

Não há um interesse suficientemente importante e consensual sobre a arte contemporânea africana na Europa. O interesse actual é uma consequência de acções individuais de artistas africanos que tiveram que se confrontar com os preconceitos e o sistema hermético da arte ocidental.

A especificidade dos artistas africanos que operam como criadores, produtores, curadores, editores, alteraram a estética mundial.

Para confirmar esta percepção do fenómeno seria necessário fazer um estudo profundo do número de exposições e eventos pensados e produzidos por esses artistas africanos.

O que me preocupa é que a Europa não pode pretender ser generosa e aberta culturalmente se ao mesmo tempo tiver uma postura política hermética, moralista e paternalista em relação ao continente africano.



P: O território africano, e as suas manifestações culturais contemporâneas têm conhecido um crescente interesse por parte do público europeu e o Pavilhão Africano, presente na 52ª Bienal de Veneza é, de algum modo, a consagração oficial deste interesse pela actual situação artística africana. Qual é o impacto que uma manifestação cultural deste tipo produz na realidade artística angolana? Qual a sua importância, presente e futura?

R: Penso que não se trata necessariamente de uma consagração, senão seria reconhecer que a arte africana só existe se for “oficialmente” reconhecida por instituições e civilizações que foram no passado e no presente responsáveis pela omissão da estética africana.

Estes projectos, nomeadamente o de Veneza, revelam que não só as instituições e o público em geral são profundamente ignorantes sobre a História e Estética africana contemporânea.
Os resultados alcançados na Bienal de Veneza são mais uma consequência do trabalho dos artistas africanos e da política cultural desenvolvida pelas nossas instituições nomeadamente o movimento cultural que criamos em Luanda para legitimar a criação da 1ª Trienal de Luanda e a criação da Colecção e da Fundação Sindika Dokolo.

A questão seria perceber qual o impacto da presença africana na Europa e na Bienal de Veneza?
Em Angola os artistas e os produtores culturais estão conscientes da importância da cultura no país e em qualquer sociedade do mundo.



P: Devido ao profundo desconhecimento do público em geral – e mesmo de grande parte do sistema artístico contemporâneo – relativamente à situação artística e cultural africana, observam-se muitas exposições colectivas, em que diversos artistas, oriundos de backgrounds e de pesquisas totalmente diferentes, são reunidos sob o denominador comum de “Arte Contemporânea Africana”. Será possível falar de uma “Arte Contemporânea Africana”? Considera pertinente realizar exposições colectivas de “Arte Africana”, no sentido em que nos referimos a artistas, a contextos, a modalidades e processos muito diversos e heterogéneos entre si?

R: Não só é possível falar de arte contemporânea africana como também reivindicar este direito. O direito de produzir um pensamento e uma estética específica aos africanos.

Se reconhecemos a existência de uma estética africana do passado que participou e alterou a cultura ocidental, porque não reconhecer a existência da arte africana no presente?

O denominadores comuns culturais entre as nações africanas que emergem na contemporaneidade, as lutas políticas e o network a partir dos anos 50 em África, produziram um pensamento e portanto uma estética com sintomas culturais e estéticos comuns.



P: Ainda falando do modo como uma grande parte do sistema cultural europeu se relaciona com as manifestações artísticas africanas, o Museé du Quai Branly, em Paris, suscitou uma enorme polémica, pela sua visão etnocêntrica das culturas não europeias.
Qual a sua opinião sobre este espaço e em que modo é que as mais diversas manifestações artísticas seja, das de menor escala, como as realizadas no Camouflage, em Bruxelas, seja as de maior alcance, como o próprio Pavilhão Africano da Bienal de Veneza, conseguem informar, problematizar e dar a conhecer uma visão da arte contemporânea africana, realizada em África, por africanos?


R: Penso que as manifestações realizadas no Camouflage são sem sombra de dúvida de maior alcance que a do Pavilhão Africano em Veneza.

No Camouflage sempre fizemos os projectos de uma forma autónoma e consciente e só a partir dessa estratégia cultural é que se pode concretizar a presença em Veneza, onde tivemos que digerir o insulto de termos sido avaliados por um júri atento, mas menos competente que as instituições e artistas africanos que produzem a realidade cultural em África.
Não se criou nenhum júri para o 1º Pavilhão Turco e Mexicano.

A cultura pode e deve participar no desmantelamento do preconceito global sobre o continente africano.

O Museé du Quai Branly deverá assumir a sua política cultural e as pessoas e instituições que não estão de acordo têm que propor outras alternativas. A polémica que não propõe soluções fica reduzida a um excesso de linguagem sem impacto construtivo real.

Os vectores de informação mundiais e nomeadamente os media são hoje detidos por Estados e grupos económicos ainda condicionados pelo passado e pela leitura exótica que fazem dos africanos.

As culturas africanas têm que criar os instrumentos necessários de divulgação dos seus projectos culturais, nomeadamente o registo em variadas formas e a legitimação dos fenómenos artísticos.

A cultura é o registo da existência humana. A cultura comum a todos nós é a cultura humanista, onde o comportamento humano é o epicentro do fenómeno, desenvolvendo sintomas mais específicos a cada espaço geográfico.

Eles podem ser vistos como alegorias necessárias, outras vezes como instrumentos fundamentais para a compreensão das diferenças e a pacificação dos espíritos.

É necessário fazer um diagnóstico cultural das sociedades contemporâneas para evitar a violência e erradicar a pobreza intelectual, social, económica e política.



P: Angola é um território com condições extremamente difíceis, com inúmeros problemas de ordem social, política e económica, para além da guerra, que devastou o país durante um período extremamente longo. Estas questões, que estão profundamente enraizadas na sua história e na sua realidade actual, afectam também a produção artística.
De que modo é que a arte contemporânea consegue, por um lado, estabelecer um terreno de acção e, por outro, existir enquanto forma expressiva pertinente numa realidade como a angolana?


R: As guerras não são só políticas e económicas, elas são sobretudo culturais, nutridas pelos preconceitos ainda hoje visíveis.

O último ensaio da Guerra Fria incidiu particularmente na África Austral alterando a cultura dos povos na região. Estou consciente dos mecanismos destabilizadores utilizados e temos que trabalhar para repor a harmonia cultural dos povos em presença.

Pertencer a uma nação como Angola que de uma forma consciente tornou intrínseca e vital a sua participação no desmantelamento de um sistema tão violento e desumano como o do Apartheid, permitiu à minha geração observar e analisar o fenómeno dos conflitos numa perspectiva cultural.

A minha abordagem artística ao fenómeno da Guerra, foi criada com a necessidade de exorcizar esta realidade violenta, e de reflectir e criar mecanismos pacíficos para poder transcender qualquer tipo de preconceito. Outras nações também utilizaram a arte e a cultura como plataformas de reflexão sobre as suas tragédias.

Sem cultura não há conhecimento e sem conhecimento não há desenvolvimento. Sem desenvolvimento não há harmonia para permitir a compreensão dos fenómenos.


P: Foi o Fernando que idealizou e coordenou a Trienal de Luanda.
Qual o papel que a Trienal pretende assumir, tanto no plano da realidade local como no contexto internacional?


R: O ser humano utilizou sistemas de comunicação e tecnologias de deslocação para sair da órbita terrestre. A sua presença na Lua em 1968 e a criação da Microsoft em 1975 confirmaram a entrada na era digital. É precisamente neste espaço de tempo que foram criadas as Nações Africanas. Tornou-se intrínseca a relação do local com o global. Temos que alterar os sistemas culturais expirados da era analógica para criarmos os novos sistemas na era digital.

As sociedades contemporâneas africanas podem abordar o futuro a partir de plataformas políticas e ecológicas para pensar a cultura com instrumentos de alta tecnologia.

A arte e a cultura são vectores indispensáveis e fundamentais para a pacificação das sociedades contemporâneas na era digital. É urgente um wireless cultural.

A Trienal de Luanda criou um sistema contextual que dialoga com o mundo onde o artista reivindica a origem do sistema da arte.

O artista como epicentro do mundo cultural.