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ENTREVISTA


Esra Sarigedik


Avi Mograbi, "Solo Show", Van Abbemuseum, 2007


"Someone Else's Problem", Istanbul, 2003


Exposição: “Plug In #20 in the middle of…”. Douglas Gordon, ”Untitled (Text for someplace other than this)”, 1996. Fotografia de Peter Cox


Exposição: “Plug In #20 in the middle of…”. Vista da sala. Fotografia de Peter Cox


Exposição: “Um Atlas de Acontecimentos”. Sergio Vega, “Crocodilian Fantasies”. Cortesia: Palais de Tokyo


Exposição: “Um Atlas de Acontecimentos”. Paul Chan, "5th Light", 2007. Projecção video digital, 14'. Cortesia da Greene Naftali Gallery

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ESRA SARIGEDIK


Encontrámos a comissária Esra Sarigedik (n. 1976, Turquia) na inauguração da 10ª Bienal de Istambul, momento em que trocámos ideias sobre a sua experiência e prática na cidade e sobre a cena artística e o momento cultural que a mesma atravessa. Anteriormente, tínhamo-nos encontrado no Van Abbe Museum onde Esra era “research curator” e colaborava no processo de repensar a instituição, as suas colecções e a hospitalidade que um museu pode proporcionar. No seu percurso conta também com colaborações na 3ª Bienal de Berlim e no Rooseum Center for Contemporary Art, em Malmo. Esra Sarigedik está em Lisboa a preparar a exposição “Um Atlas de Acontecimentos” (com António Pinto Ribeiro e Debra Singer) que inaugura este fim-de-semana na Fundação Calouste Gulbenkian.

Por Inês Moreira


PARTE I – Sobre Organizações


P: Esra, tens desenvolvido nos últimos anos a tua prática curatorial com e em volta de alguns dos centros e eventos de arte contemporânea mais interessantes da Europa. Tens participado activamente na fresca cena de Istambul (onde todas as atenções se estão neste momento a concentrar) onde colaboraste com a Platform Garanti Contemporary Art e onde foste “assistant curator” na 9a Bienal de Istambul (comissariada por Vasif Kortun e Charles Esche). Posteriormente, como “research curator” do Van Abbe Museum, pudeste contribuir activamente no processo de reinvenção de uma velha instituição que se repensa a si própria. Assim, indo por fases, a minha primeira pergunta seria: como vês e descreves a efervescente cena de Istambul?

R: Posso responder a esta questão a partir de duas perspectivas. Por um lado, enquanto alguém que é “Istanbullu”, o mesmo tipo de expressão que “Berliner”, isto é, alguém que é daquela cidade específica e detêm conhecimento sobre a realidade que a envolve. Por outro, recorrendo à minha experiência em trabalhar com a 9ª Bienal de Istambul, em 2005.

Em 1995 estava a estudar na Mimar Sinan Fine Art Academy de Istambul e soubemos de uma grande exposição/organização que estava a acontecer e que teríamos a possibilidade de colaborar em part-time trabalhando na sua produção. Tratava-se da 4ª Bienal, comissariada por René Block. Foi uma experiência fascinante, não apenas como experiência de trabalho mas também pela experiência de nos apercebemos que aquilo que estávamos a estudar na academia era do século passado (tenho a certeza que compreendes o que quero dizer): estavam a dar-nos uma formação académica clássica e a bienal era tão contemporânea que abalou todas as nossas convicções sobre a escola de arte. Mas não afectou apenas os estudantes de arte, estremeceu também a cena artística conservadora, o monopólio das galerias locais, os agentes de arte, etc. Foi um ponto de ruptura que tinha tido já início na 3ª Bienal, comissariada por Vasif Kortun.

Muitos jovens estudantes conheceram a possibilidade de conseguir bolsas e residências fora da Turquia e puderam desenvolver as suas práticas para além do seu “metro quadrado”, sendo postos de lado pela cena artística local, o que, de resto, não era tão mau assim… Rapidamente, a Bienal de Istambul tornou-se muito importante na cena artística, foi outra “escola” onde nós “estudantes de arte” recebemos a nossa educação. Mas certamente que nem todas as bienais foram tão boas como as de René Block, Vasif Kortun ou Rosa Martinez e, ao testemunhar todas estas grandes exposições, comecei a ver o que é “não trabalhar aqui”. Quando fui convidada para trabalhar como “assitant curator” na 9ª Bienal, tinha já formulado as minhas questões sobre as Bienais de Istambul. Quando conhecemos os problemas torna-se fácil colocá-los na mesa e começar a trabalhar com eles, e foi exactamente o que nós fizemos.

P: Na nossa visita ficamos com a sensação que alguns dos aspectos mais interessantes da Bienal acontecem em Istambul entre as inaugurações…

R: Em volta da Bienal de Istambul, durante a exposição, há locais dispersos nos vários distritos da cidade que a revitalizam durante um mês inteiro como um segundo círculo de projectos e mostras independentes que suportam o evento central. Infelizmente esta animação não se estende ao longo do ano, parece apenas motivada por um desejo de atrair convidados estrangeiros que, por sua vez, agem segundo o antigo papel da mãe que inspecciona os seus vizinhos em busca de noiva digna para o seu adorado filho.


P: Quais foram então as novas propostas que vocês trouxeram com a 9ª edição da Bienal e de que modo contribuíram para transformar aquilo que estava a ser produzido?

R: Havia um conjunto de problemas principais que queríamos considerar: o envolvimento dos artistas na cidade de Istambul, a localização dos eventos, a participação do publico/audiência local e os aspectos editoriais.

Nasceu assim a ideia de convidar os artistas da Bienal para participar em residências na cidade. Algumas delas tinham a duração de 3 meses, outras de um e, nesse período, os artistas deram conferências, apresentaram os seus trabalhos e organizaram workshops. No final do período de residência estar finalizado e do trabalho em Istambul concluído, a inauguração das exposições foi apenas a “festa” na medida em que os outros eventos, as conversas, as conferências, as leituras, etc. aconteceram anteriormente.

Os edifícios previamente usados pela Bienal pertenciam ao período da história Otomana da cidade. Eram tão bonitos e tão mágicos que não se tornava necessário conterem qualquer obra de arte adicional. São monumentos históricos, em si fantásticos. Não queríamos voltar a usar estes edifícios e, se nos tivéssemos que reportar à história, preferíamos usar as construções que se referem ao “período pós-república” de Istambul. Optamos então por usar diferentes espaços, como um prédio de apartamentos dos anos 20, um armazém ou uma antiga sede de um banco.

Outro aspecto, a exposição não era ainda conhecida na cidade e, ainda que se tratasse da 9ª Bienal, funcionava como um evento estrangeiro. Nem as escolas, nem o público não relacionado profissionalmente com a arte tinham conhecimento sobre as bienais. Isto fez-nos pensar numa edição jornal, um suplemento que pudesse chegar a casa das pessoas através de locais que o fornecessem, caso de padarias ou quiosques que podiam cedê-lo. Tratava-se de um suplemento sobre a Bienal que era deliberadamente mais informativo, assemelhava-se de facto a um jornal normal.

A tradição do catálogo passava pela publicação de dois livros. Um deles publicado antes da exposição, com uma introdução dos comissários e um parágrafo de informação ou texto sobre cada artista (complementado com imagens de obras prévias). Um segundo livro saia posteriormente com novas imagens da exposição. No final, existiam dois grandes volumes que não seriam lidos na medida em que não havia muito para ler ou colher. Acabavam por ser usados apenas casualmente para verificar um ou outro nome de artista.

Assim, por fim, alterámos o catálogo e produzimos dois livros: um pequeno guia gratuito, cedido com o bilhete de entrada: barato, a preto e branco, com as fotografias da exposição (publicado na noite anterior à inauguração) e textos informativos e acessíveis. O segundo livro era um “reader” onde se encontravam bons ensaios sobre arte, cidade e política.


P: Enquanto “research curator” no Van Abbe Museum tens reflectido sobre o “museu enquanto instituição”. Como vês a prática das instituições e a performance dos museus?

R: Penso que as instituições são importantes para a cena artística, mas nem todas, e nem sempre. Depende muito das circunstâncias locais. Defendo também que funcionam como inspiração para as organizações independentes, sei que “inspiração” é uma palavra desmedida, mas penso que grande parte dos espaços independentes se iniciam porque não existe satisfação em torno das instituições e pretende-se que as coisas de processem de modo diferente do que o que existe na cena local.

Mas o museu enquanto instituição é diferente de outra construção, é o lugar da preservação das obras de arte, é o local de experimentação de novos usos para a linguagem da arte. Penso sempre que os museus são /devem ser o lugar onde os artistas podem receber a “cobertura do bolo”. Com isto quero dizer que é difícil para um artista apenas produzir e mostrar em organizações sem orçamento, e nos museus deveria ser diferente, para mostrar trabalho é necessário que existam honorários razoáveis. São também os locais indicados para se processarem compras. Definitivamente, são essenciais para o bem do artista.

Em segundo lugar, os museus deviam ser plataformas de educação, infelizmente as políticas governamentais não permitem às escolas uma educação de “perspectiva abrangente”, o que poderia acontecer através da arte - não apenas da arte -, pois acredito que a arte é uma ferramenta importante para questionar as políticas do nosso mundo.

P: Mas então o que pode ser feito com/nos museus? Podem ser tão activos como a cena independente?

Não acredito que possam ser tão activos como os espaços alternativos mas também a “actividade” não pode ser o seu objectivo primordial. Os espaços independentes são suficientemente pequenos para permitir mudanças espontâneas nos programas, eventos, encontros. Acredito que, sobretudo a construção hierárquica das grandes instituições, não lhes permite muita flexibilidade para serem tão vivas como os espaços mais pequenos. As aquisições, o apoio aos artistas e a aposta em conduzir um programa educativo forte, deviam ser as pricipais linhas orientadoras dos museus.



PARTE II – Acontecimentos


P: Tradicionalmente a palavra “Atlas” refere-se a cartografias, geográficas, geopolíticas, ou instrumentos de clarificação de territórios conhecidos. No “Atlas de Acontecimentos” oferecem-nos cartografias não-geográficas, através de práticas contemporâneas miscigenadas, não-dominantes e não-alinhadas. Quais são as preocupações e inquietações que nos trazem?

R: “Atlas” é uma palavra usada também para descrever grandes magazines que incluem informação de diferentes partes do mundo, mundo esse que poderá ser o das plantas ou dos animais, ou o de qualquer tipo de grande grupo que se possa descrever com um grande nome, mas a diversidade é demasiado vasta para se inscrever sob um mesmo nome… Nesta descrição não há territórios, tal como quando dizemos “política” podemos estar a imaginar os diferentes aspectos da política, ou podemos imaginar apenas um aspecto… (penso que fica dependente de quão utópica é a pessoa). Mas mesmo aqui já estamos a falar sobre as dificuldades da tradução. Tal como na exposição. A nossa intenção nunca foi fazer uma espécie de shopping internacional ou de reunião de exemplos de trabalhos de diferentes partes do mundo, tencionávamos antes trazer diferentes compreensões, leituras e traduções de circunstâncias diferentes.

Por exemplo, uma das coisas sobre as quais estamos a falar na exposição é a descrição de “inimigo” e “amigo”. Os suspeitos estão a mudar muito rapidamente, para recente benefício dos governos. Rapidamente (num ou dois anos) o provável “amigo” torna-se inimigo, não apenas um amigo decretado pois é uma grande “tarefa” conseguir que as pessoas acreditem nessa verdade, chamar a atenção e fazer circular rumores e mal-entendidos em volta dos quais se torna reconhecível a nova “realidade” deturpada.

Assim, uma das coisas que queríamos considerar é, como poderemos nós ler as “realidades” dos diferentes pontos de vista, não como nos foram apresentadas, mas procurando antes um ponto de vista inverso.


P: Estamos perante um “Atlas de acontecimentos” – não um “atlas de factos” – onde os artistas são apresentados como singularidades. As suas biografias, contextos e particularismos definem-nos como “acontecimentos”, para além da representação nacional. Como devemos consultar e usar este “atlas”?

R: Espero que este “atlas” nos provoque. A todos nós, e nos traga novas questões e nos ajude a seguir questionando. Gostava que conseguíssemos olhar o mundo à nossa volta como constituído de “acontecimentos” com o seu conhecimento, memória, história e intenções e não apenas como “factos”.


P: Que modalidades de “acontecimento” tens explorado na tua prática; podemos generalizar e pensar numa exposição como “acontecimento”?

R: Penso que expor é apenas o “início” do acontecimento. Acredito que o processo apenas começou. Fizemos compromissos com os artistas e o seu trabalho, apresentá-mo-nos uns aos outros, e à audiência, desejando que este seja o princípio de um acontecimento. Veremos então o que este acontecimento terá sido no final.



LINKS

9th Istanbul Biennale
www.iksv.org/bienal/bienal9/english/

Van Abbe Museum
www.vanabbemuseum.nl/engels/
www.vanabbemuseum.nl/engels/tentoonstellingen/plug-in_25_e.htm

O Estado do Mundo
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/
www.estadodomundo.gulbenkian.pt/index.htm?no=10301290