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O ESTADO DA ARTE


Art Basel Miami Beach. Fotografia: Sérgio Parreira


Art Basel Miami Beach. Fotografia: Sérgio Parreira


Art Basel Miami Beach: secção Meridians. Fotografia: Sérgio Parreira


Art Basel Miami Beach: secção Meridians. Fotografia: Sérgio Parreira


Untitled, Art. Fotografia: Sérgio Parreira


Untitled, Art. Fotografia: Sérgio Parreira


ICA Institute of Contemporary Art of Miami. Fotografia: Sérgio Parreira


ICA Institute of Contemporary Art of Miami. Fotografia: Sérgio Parreira


The Bass. Fotografia: Sérgio Parreira


The Bass. Fotografia: Sérgio Parreira


Satellite Art Show. Fotografia: Sérgio Parreira


Instalação de Leandro Erlich. Fotografia: Sérgio Parreira


Faena Festival. Fotografia: Sérgio Parreira


NADA Miami – New Art Dealers Alliance. Fotografia: Sérgio Parreira


NADA Miami – New Art Dealers Alliance. Fotografia: Sérgio Parreira


Pérez Art Museum: exposição de Teresita Fernández. Fotografia: Sérgio Parreira


Pérez Art Museum: exposição de Teresita Fernández. Fotografia: Sérgio Parreira


Rubell Museum. Fotografia: Sérgio Parreira


Rubell Museum. Fotografia: Sérgio Parreira


El Espacio 23. Fotografia: Sérgio Parreira


El Espacio 23. Fotografia: Sérgio Parreira


El Espacio 23. Fotografia: Sérgio Parreira

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SEMANA DE ARTE DE MIAMI VIA ART BASEL MIAMI BEACH: UMA EXPERIÊNCIA MAIS OU MENOS ESTÉTICA

SÉRGIO PARREIRA

2020-01-07




 


Mesmo antes de se chegar já se vai com a sensação de que algo nos irá escapar e não há pré-produção possível que nos proteja desta potencial angústia! Nos meses que antecedem a semana de arte de Miami, qualquer profissional das artes, dos galeristas aos colecionadores, passando impreterivelmente pelos órgãos de divulgação, começam a receber infindas notificações para eventos, exposições, inaugurações, festas, uns mais artísticos que outros, mas todos estes na busca de público. Hoje, talvez seja este o maior problema que esta semana de arte de Miami começa a gerar: muita oferta. A qualidade de muitos destes eventos denominados de arte contemporânea é bastante questionável e acaba por gerar um “ruído” ensurdecedor capaz de nos distanciar do que é realmente importante. É imprescindível que com alguma antecedência e analisando a equação do tempo disponível subtraído ao dissipado em engarrafamentos automóveis e ainda indexado aos aglomerados de público, que a resolução desta fórmula seja mais ou menos neutra ou negativa por um erro mínimo, ou a frustração antevista à chegada resolve-se ao quadrado ou ainda ao cubo.

Mesmo quando trazemos o calendário particularmente bem organizado, o primeiro dia pauta sempre pela ansiedade e o que muitas vezes alivia este desconforto é o embate com a ausência de critério ou qualidade que soluciona este potencial supra agendamento, fazendo-nos reequacionar a estratégia, e redefinir prioridades! A capacidade de improvisação e adaptação do visitante face à relembrança desta agressiva realidade pode resgatar-nos da completa desilusão para uma satisfatória experiência estética

A minha jornada este ano em Miami iniciou-se com a SCOPE Art Show, uma feira com cerca de 15 anos e edições em Nova Iorque e Basel. A SCOPE é seguramente uma feira a riscar da lista de visitas durante esta semana, simplesmente pela incoerência um pouco generalizada de tudo o que é apresentado. Fica-se com uma sensação ao visitar esta feira, que há algumas galerias que estão deslocadas e que eventualmente acabaram ali por engano na ansiedade de estarem presentes em Miami, o que deixa o visitante um pouco ressentido por eles. O ambiente da SCOPE respira em excesso a congruência cultural norte americana, que se deixa muitas vezes ludibriar pela lógica do “fogo-de-vistas”, em que se acredita no mito de que proferir repetidamente uma frase, um conceito, uma ideia, estes se podem tornar realidade. A SCOPE espelha tudo isto, publicita-se de forma particularmente eficaz, tem uma localização física em South Beach bastante colorida em todos os sentidos e acaba por ser um espaço lúdico de comercialização de objetos em que o percentual de arte é particularmente reduzido. A SCOPE abre portas em Miami no mesmo dia que a CONTEXT e a Art Miami e é certamente uma parente destas, numa escala mais modesta, mas igualmente ofensiva.

A Art Miami que festejou este ano o seu trigésimo aniversário apresenta-se em simultâneo com a CONTEXT que tem uma localização contigua e fazem parte do mesmo grupo comercial. São feiras e projetos distintos, em que a distinção é quase que inexistente, não fosse a comunicação/ marketing e o facto de estarem em tendas diferenciadas embora conectadas por uma passagem comum. Também parte deste grupo comercial é a AQUA Miami que ocupa anualmente um edifício Art Deco extraordinário em Miami Beach e que vale a pena visitar uma vez na vida para conhecer o local. Tanto a Art Miami como a CONTEXT são feiras de arte “desenhadas” à medida de Miami, em que a grandiosidade e o non-sense dos objetos expostos não encontra igual durante estes dias. A resposta do público local a estas feiras é absolutamente massiva, eu diria desconcertante, mas muito lógica, pois se nos abstrairmos de tudo aquilo que acreditamos ser a base para a criação de objetos artísticos e contemplação estética, consegue-se visualizar quase todos os objetos em exposição perfeitamente acomodados em iates estacionados nos canais e lagos de Miami ou nas mansões arquitetonicamente inflacionadas das Venetian Islands que nos catapultam para as memórias necessariamente agradáveis de infância aquando involuntariamente, por falta de maior oferta, assistíamos à série televisiva Miami Vice. Sim, tudo isto faz sentido, o gosto local continua a seguir a lógica das últimas décadas, o mito de Miami não desaponta nem a capacidade económica daqueles capazes de continuar a alimentar o crescimento, de uma eventual indesejada oferta “artística”. À semelhança da SCOPE, há galerias que tem indiscutivelmente qualidade e um programa com uma identidade mais exclusiva, mas uma vez mais, surgem aqui deslocadas. Quem diz galerias, diz artistas e obras especificas, mas por vezes é manifestamente complicado senão quase impossível reduzir o volume de ruído que os demais emanam e projetos que contingentemente carecem de justiça e destaque, “morrem na praia”!

Em geral, nestes dias em Miami, assim como noutras cidades e semanas de arte que acontecem pelo globo, o mote que estas galerias transpiram é o de tentar apresentar nos seus espaços as “obras” que ressaltem mais ao olho de quem vai a passar, sem grande razoabilidade, em que o juízo de seleção não faz menor ideia do que será o “gosto”.

Também localizada em South Beach, à semelhança da SCOPE, a Untitled, Art é seguramente uma exposição de arte contemporânea com curadoria. A Untitled é absolutamente uma paragem obrigatória. Adicionalmente aos tradicionais espaços das galerias, este ano a feira também se aventurou na apresentação de alguns projetos especiais resultantes de comissões especificas com alguns artistas.

À semelhança dos anos anteriores, visitei também no primeiro dia o ICA Miami que estabelece parcerias com muitas das feiras de arte da cidade e através destas convida todos os profissionais para uma festa de inauguração da denominada Miami Art Week. O ICA apresentou durante esta semana exposições de elevadíssima qualidade das quais se destacou a retrospetiva de Sterling Ruby com cerca de 100 obras de diversas técnicas desde a cerâmica, pintura, instalação e desenhos que demonstram a genialidade do artista. Este momento de celebração que o ICA transporta de ano para ano, nunca desapontou até à data, e apesar da festa ser bastante cobiçada por motivos mais lúdicos, é certamente um dos momentos altos da semana pois adicionalmente ao ambiente festivo nos jardins do Museu há a possibilidade de visitar todas as exposições. 

A Art Basel Miami Beach inaugura sempre a meio da semana e dispensa grandes descrições ou apresentações. Eu diria que este ano para além das habituais secções das galerias, havia a destacar a excecional secção do Meridians.

A expectativa era grande e o trabalho curatorial de Magalí Arriola não desiludiu. Cada projeto era absolutamente extraordinário e único havendo naturalmente obras que ressaltaram mais à atenção devido a sua instalação, técnica e “produção”. Isaac Julien apresentou um incrível trabalho que pessoalmente me fez sentir um pouco nostálgico em relação à videoarte e filmes de artista que tende a desaparecer por completo destes eventos mais efémeros em que a tentativa, compreensível por parte dos galeristas, se orienta na direção de objetos mais tradicionais. O que há uns anos nos poderia parecer como um território conquistado, o da institucionalização da videoarte como objeto comercial, hoje tende a ser raro elevando-se à categoria de especial quando nos é presenteado. Nesta curadoria de Arriola pode-se disfrutar de cinco propostas videográficas de um total de trinta e quatro obras. O espaço que a secção Meridians ocupou é colossal e mesmo apesar da dimensão avassaladora deste, as obras escolhidas foram capazes de conquistar individualmente o seu momento espacial, não só pelas caraterísticas técnicas, mas principalmente através da eximia instalação em que algumas incluíram performances ao vivo agendadas no decorrer dos vários dias. Uma aposta e desafio muito aguardado e indiscutivelmente conquistado.

Em termos de museus há ainda a destacar o The Bass que à semelhança de muitos outros museus locais, ascende aos momentos “altos” no calendário de eventos disperso pela cidade e tendem a estabelecer um contraponto de equilíbrio. De destacar a exposição de Mickalene Thomas “Better Nights” e ainda as salas com o trabalho de Lara Favaretto. A artista Haegue Yang, que atualmente tem uma instalação interativa imensa no MoMA em Nova Iorque, também ocupa duas salas no segundo andar do Museu, onde ambos os espaços seguem uma lógica semelhante à do MoMA, de entretenimento da audiência, que poderia funcionar se os trabalhos plasticamente não fossem por vezes simplesmente desinteressantes. Estas exposições que referi, durante esta semana, são cenário para eventos privados dos vários parceiros e outras entidades locais e internacionais, o que posto em perspetiva é extremamente fácil de vislumbrar dadas as propostas estéticas dos trabalhos em exposição. Fica-se por momentos com a sensação que ambas estas funcionalidades, arte e playground, pesaram na programação das mesmas, o que não é necessariamente pejorativo, mas seguramente que revela uma tendência.

O Pérez Art Museum (PAM) localizado na baixa de Miami é uma instituição com 35 anos e mais um exemplo do excelente trabalho dos museus locais. Durante estes dias apresentou uma exposição da artista Teresita Fernández composta maioritariamente por obras e instalações de grande escala. O PAM surpreende habitualmente com exposições retrospetivas ou temáticas, com um caráter histórico, com uma individualidade e novidade ímpar. Isto denota-se na escolha dos artistas assim como nos desafios temáticos a que se propõem as curadorias. As exposições que normalmente debutam no PAM em Miami durante estes meses do final do ano, acabam por circular mais tarde para outros espaços e museus de renome local e internacional. Paralelamente às exposições temporárias o museu tem sempre parte da coleção exposta e que é igualmente muito interessante.

Ainda este ano de 2019, inaugurou o denominado Rubell Museum. A família Rubell tem uma extensiva coleção de arte que tem sido ao longo dos últimos anos apresentada parcialmente num espaço com caraterísticas mais industriais e que até hoje era temporariamente aberto ao público e apresentado como a Rubell Family Collection. Durante os últimos anos estes colecionadores aventuraram-se na edificação daquele que é agora o recém-inaugurado Rubell Museum. O novo espaço foi desenhado pelo proeminente gabinete de arquitetura de Annabele Selldorf. Criou-se uma grande expetativa à volta deste novo espaço, por inúmeras razões, quase todas óbvias, mas principalmente pela generosidade da família Rubell em “oferecer” a cidade mais uma novíssima infraestrutura cultural. Pessoalmente achei o museu uma desilusão e a atribuição desta denominação parece-me, após a visita, um pouco presunçosa pois escapa a este espaço quase tudo o que faz de um museu um museu, que é principalmente a narrativa, os conceitos, e particularmente a vertente educacional. Não basta a uma excelente coleção apresentar-se num novo espaço para se tornar num museu. Por momentos esta coleção e local, pelas suas características, relembrou-me a do Museu Berardo, se bem que o Museu Coleção Berardo, teve a modéstia de colocar a palavra “coleção” na sua denominação e desenvolveu a parte educativa e de narrativa com bastante mais sucesso. Há que esclarecer que as obras são fantásticas, mas ao serem dispostas neste espaço da forma que foram um pouco sem “estudo” ou razão, parecem uma coleção de troféus ou conquistas dos proprietários, assim como o próprio “Museu”. Para além dos “troféus” há talvez duas dezenas de obras que aparentam ser resultado de aconselhamento especializado e eu diria que talvez as mais interessantes apresentadas neste espaço, das quais se destacam um grupo de obras de artistas asiáticos.

Também resultante de uma vasta coleção inaugurou-se o El Espacio 23 nas imediações do Rubell Museum no bairro de Allapattah. O El Espacio 23 pertence a um outro colecionador da zona de Miami mas neste caso a proposta é mais cuidada embora menos ambiciosa. Começamos pela denominação, que não ascende a Museu pois não se pretende que o seja nem tem na sua designação o apelido do proprietário das obras. O El Espacio é arquitetonicamente muito interessante, funcional e acolhedor. As obras são maioritariamente de artistas sul americanos, de origem latina, de elevadíssimo interesse e qualidade, e abrangem as mais variadas técnicas artísticas. O que há de extraordinário nesta coleção é que muitos dos artistas não são emergentes e muitos deles são pouco conhecidos. Ao contrário do Rubell Museum, neste espaço as obras guiam-nos por uma história cultural, política e temática com um mote nesta exposição inaugural: “Tempos de Mudança: Arte e Inquietude Social na Coleção de Jorge M. Perez”. Uma coleção privada de inquestionável interesse e qualidade, de certa forma discreta, que se enuncia num espaço com identidade, onde se transmite uma mensagem que expressa uma ansiedade na ação.

Respeitante a feiras de arte há ainda que destacar a NADA que ocupa os Ice Palace Studios em Miami, um espaço recuperado tipo industrial, extraordinário, que se predispõe em perfeição a proposta. A NADA tem como conceito a promoção de novos artistas, novas propostas, e ainda artistas emergentes, respondendo categoricamente ao pressuposto. Em Miami a NADA cultiva um ambiente muito descontraído, com um espaço exterior bastante convidativo com esplanadas, restaurantes, e redes suspensas nos coqueiros dispersos num luxuriante jardim tropical. Na décima-sétima edição, a NADA 2019 teve um total de 135 expositores internacionais com estreantes como e o caso da Gasworks (Londres) ou a Galería Alegría (Madrid).

Uma feira que me surpreendeu imensamente o ano passado foi a PINTA Miami, por ser bastante sóbria, focando-se nas origens culturais e similitudes dos artistas maioritariamente hispânicos. Tinha inclusive um espaço colossal com projetos de grande formato todos eles de elevada qualidade. A PINTA apresenta galerias da América latina, incluindo o Brasil, embora inclua também outras representações europeias como é o caso de Espanha. Este ano a feira mudou de espaço dentro do complexo da MANA Wynwood onde acontecem pelo menos mais duas feiras (a evitar: Red-Dot e Spectrum), e perdeu bastante qualidade e interesse comparativamente a 2018.

Por fim, e das feiras de arte com já alguns anos em Miami, temos ainda a Pulse pertencente ao grupo de feiras de arte Ramsay que recentemente adquiriu a VOLTA com edições em Nova Iorque e Basel. Inicialmente, pode dizer-se que esta aquisição foi um pouco inesperada e não de muito agrado, mas as feiras de arte, como qualquer outro negócio, se estão a passar por momentos económicos complicados, têm uma de duas opções, ou terminam ou passam de mãos. Foi o que aconteceu com a VOLTA e agora há que esperar pelas edições de 2020 para ver se o conceito também “transitou” ou mantem-se fiel a proposta inicial. A PULSE tem uma localização fantástica em Mid-Beach (Entre South e North Beach) no Indian Beach Park. Entre coqueiros e extensos areais, a PULSE ergue a sua gigantesca estrutura temporária e oferece uma das mais simpáticas e animadas inaugurações da semana com um bastante razoável brunch das 10 da manhã as 14 horas. A feira este ano estava consideravelmente mais interessante. Sente-se que houve uma preocupação curatorial diferente à dos anos anteriores em que estive presente. Para além da zona das galerias, no exterior da feira uma colorida obra de Ralph Ziman recebia os visitantes (obra que foi apresentada em 2018 em Nova Iorque na 1:54 African Art Fair em Brooklyn) e no interior havia este ano duas salas distintas com projetos de videoarte e novos media denominado PULSE + Play com curadoria de Tatyana Orkshteyn. A PULSE celebrou este ano a décima-quinta edição.

Visitei mais alguns projetos de manifesto interesse, como foi o caso da instalação temporária do artista argentino Leandro Erlich, uma encomenda da cidade de Miami Beach que se juntou aos demais, na promoção de projetos artísticos pontuais distribuídos pela cidade. Erlich desenvolveu uma instalação na praia de South Beach em que utilizou simplesmente areia da praia como técnica para simular um monumental engarrafamento de carros numa qualquer artéria congestionada de uma metrópole. Tratou-se da maior instalação pública em termos de dimensão que o artista alguma vez realizou. O projeto é de facto muito interessante e realça a problemática tão pertinente do aquecimento global gerado pela ação do homem. A monumentalidade acabou por ser bastante relativa pois o areal no local escolhido é de perder de vista e a paisagem natural bastante mais imponente.

No segundo ano consecutivo o Faena Festival é capaz de ser um dos projetos mais interessantes a acontecer atualmente em Miami durante esta semana. Este festival, cuja longevidade ainda não pode ditar grandes vereditos, pauta até ao momento por uma enorme coerência, elevadíssima qualidade, e pela capacidade de instalar e produzir obras de artistas convidados exclusivamente para este evento, sem nunca descurar algo extremamente importante, a localização em que o espaço “cenográfico” expositivo é o areal da praia de Mid-Beach. O projeto tem simultaneamente o apoio físico e logístico da cadeia hoteleira de luxo Faena, com instalações no local e que facilitam o projeto com espaços para colocação de obras assim como auditórios para conferências, projeção de vídeos e filmes. Os projetos realizados na zona pública da praia foram até hoje muito bem “calculados” e habitualmente envolvem para além do objeto final, ações ou performances do mesmo artista. Certamente um festival a seguir nas próximas edições.

 


MANA Contemporary Miami. Fotografia: Sérgio Parreira

 

Ouve outros projetos que visitei e que são de registo como é o caso da Satellite Art Show e as diversas exposições apoiadas pela MANA Contemporary Miami das quais saliento o projeto do coletivo Good To Know. A Satellite é uma exposição que tem como pressuposto apresentar projetos interativos de artistas oriundos de espaços sem fins lucrativos ou geridos unicamente por artistas independentes e também propostas de jovens galeristas. A exposição é bastante alternativa e despretensiosa. Num ambiente muito descontraído o projeto ocupa um armazém abandonado em Wynwood em que cada artista explora o que aparentemente seriam salas ou de escritórios ou lojas dentro de um antigo espaço comercial. Não sei até que ponto as obras são interativas, mas há uma intenção de que a mostra dos objetos fuja o mais possível ao convencional formato do “white cube”. A proposta tem mérito, não me parece que consiga vingar em Miami durante esta semana em que a oferta de eventos está particularmente inflacionada. O Satellite Art Show acontece anualmente ainda em Nova Iorque e Austin no Texas.

A Good To Know é um coletivo curatorial que se caracteriza pela apresentação de projetos artísticos site-responsive, e durante esta semana implementaram o seu terceiro e último projeto anual.

A semana de arte de Miami é indiscutivelmente uma paragem cultural obrigatória da arte contemporanea mundial que conquistou o seu espaço nas últimas duas décadas impulsionada grandemente pela Art Basel. Hoje, aquela que é também conhecida por Art Basel Week é muito mais que apenas isso. As cidades de South Beach e Miami foram capazes de responder de forma bastante perspicaz a um crescimento e procura inesperada que esta grandiosa movimentação “cultural” proporcionou. A Art Basel Week transitou a sua exclusividade para um acontecimento que hoje transcende as elites da arte e abrange na sua totalidade a comunidade local, no estado de Miami e no país. Os agentes culturais, produtos (num sentido lato), e marcas de luxo internacionais compreenderam e processaram cuidadosamente a oferta e a oportunidade que hoje é capaz de movimentar centenas de milhões de dólares em poucos dias, sejam estes na categoria de objetos de arte ou bens de luxo num espectro tão amplo que vai do imobiliário à moda. Tudo isto, no entanto, apresenta um denominador comum que é a arte, seja ou não o conceito absorvido, assimilado, e processado de uma forma inteligente, correta ou justa. Há uma exploração do conceito artístico que talvez só Miami e os Estados Unidos pudesse acolher e isto não tem necessariamente uma conotação negativa. As largas centenas de milhares de visitantes que Miami acolhe nestes dias desloca-se para um evento global de hashtag universal #artbaselweek, embora o significado, entendimento e tradução da visita de cada um destes visitantes, tenha um caráter e leitura individual assim como um objetivo pessoal e único.

Há alguns anos, talvez fizesse sentido questionar as intenções e direção a seguir daquela que é hoje, inquestionavelmente, a semana de arte mais visitada mundialmente… No entanto, neste momento, cada agente conquistou o seu espaço, o mercado da arte abriu portas ao mercado criativo de bens, em que uns são mais ou menos artísticos que outros, e apenas resta ao visitante a escolha e destreza para entender o que deseja experienciar. Não é surpresa. Talvez nunca tenha sido para alguns uma surpresa, e o choque é momentâneo para aqueles que unicamente procuram uma experiência estética. Em suma, verdade proferida, Miami mantêm-se fiel a Miami, disponibilizando hoje também na brochura uma Semana de Arte via Art Basel Miami Beach com tudo o que isto pode, e tem necessariamente de significar…

 

 

 

 

Sérgio Parreira 
@artloverdiscourse