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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da instalação Paisagem com a queda de Ícaro de Wilfredo Prieto na Praça da Alegria


Vista da instalação Paisagem com a queda de Ícaro de Wilfredo Prieto na Praça da Alegria


Vista da exposição Paisagem com a queda de Ícaro de Wilfredo Prieto na Kunsthalle Lissabon.


Vista da exposição Paisagem com a queda de Ícaro de Wilfredo Prieto na Kunsthalle Lissabon.


Vista da instalação Paisagem com a queda de Ícaro de Wilfredo Prieto na Praça da Alegria


Vista da instalação Paisagem com a queda de Ícaro de Wilfredo Prieto na Praça da Alegria

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WILFREDO PRIETO

Paisagem com a queda de Ícaro




KUNSTHALLE LISSABON
Rua José Sobral Cid 9E
1900-289 Lisboa

10 FEV - 19 MAR 2011


All art is quite useless. Oscar Wilde

I don’t care to belong to a club that accepts people like me as member. Groucho Marx


Inicialmente atribuída a Pieter Bruegel, De val van icarus (Paisagem com a queda de Ícaro) é uma pintura que se crê ter sido feita a partir de um original do artista (que entretanto se perdeu), que a teria pintado a têmpera e não a óleo como indica uma das duas versões actualmente existentes.

Este é o ponto de partida de Wilfredo Prieto para a sua primeira exposição em Portugal. Nascido em Sancti-Spíritus, Cuba, e actualmente a residir em Barcelona, é um dos mais relevantes artistas cubanos da sua geração (nasceu em 1978), tendo já recebido prémios como o Cartier Award atribuído pela Frieze Foundation.

Com um percurso expositivo cada vez mais dedicado a artistas estrangeiros a expor pela primeira vez em Portugal, o Kunsthalle Lissabon pediu a Wilfredo Prieto que concebesse um projecto específico para uma intervenção, que também se materializa no espaço público.

O trabalho de Wilfredo Prieto tem como eixos habituais, referências à história de arte, um pendor apolítico (que lhe dá obrigatoriamente um carácter contrário) e o uso do humor como forma de comunicação. O projecto que agora apresenta segue estes mesmos eixos, mas este é só o ponto de partida de um trabalho cujas implicações fogem à habitual problemática sócio-histórica.

No espaço da Kunsthalle Lissabon pode observar-se um vasto conjunto de fotografias, tipo postal de família, encadeadas sob uma linha, como se tratasse da linha do horizonte. São fotos de ruas, cruzamentos e passeios da cidade de Lisboa, documentação para um propósito ainda desconhecido.

Ao percorrer a linha de imagens que também contém fotografias das proximidades da Praça da Alegria, acaba-se por observar a imagem do lago, onde no seu interior está um piano branco de cauda invertido apenas com os pés salientes fora de água. Faz-se imediatamente a ligação à pintura de Bruegel e à história nela retratada: Ícaro, equipado de asas concebidas por seu pai Dédalo, mas ignorando o seu conselho, voa demasiado perto do Sol derretendo a cera que suportava as suas penas, precipitando-se para uma queda no mar onde acaba por se afogar.

Os processos são reconhecíveis dentro das práticas num campo alargado do que informalmente designamos por Research Based Art, mas há algo de fortuito ou de pouco claro e obviamente simplista nesta “cartografia” das ruas da cidade. É uma espécie de boicote ao reconhecimento que podemos fazer do género. Os elementos habituais estão presentes: a citação histórica, a pesquisa que culmina no gesto simbólico em pleno coração da cidade, mas os elementos não se enquadram de forma óbvia. O artista parte de uma ideia de paisagem muito específica para o contrapor com a ideia de paisagem urbana, mundana e com o pouco glamour que fotografias impressas de forma amadora tipo álbum de férias podem atingir, em especial tratando-se de uma pintura que parte de um tema mitológico. Será o espaço da cidade palco possível para uma «queda de Ícaro»? As tragédias mitológicas têm um impacto particularmente instantâneo no momento actual no nosso contexto.


O piano toma o lugar de Ícaro e permite uma reconfiguração desconcertante da história e na qual as referências à história de arte podem servir de suporte.

As ligações entre a pintura «de» Bruegel e a peça são de um “carácter” poético rebuscado fugindo a interpretações simplistas, tal como uma equação com demasiadas variáveis, porque o “jogo”, dentro dos códigos de Research Based Art, adensa-se no confronto com as imagens na sua apresentação sob a forma de linha do horizonte, formando um enigma que culmina na descoberta da imagem da peça “instalada” na Praça da Alegria. Uma peça de carácter onírico impressionante que facilmente faz o visitante divagar entre o sorriso perante o absurdo e o sonho que transmite a “imagem” bem conseguida, de um piano de cauda branco caído, qual Ícaro, de pernas para o ar no interior de um límpido lago numa suja praça ornamentada por plantas tropicais no centro da cidade, junto á artéria mais poluída da Europa.

Tocando extremos, a produção de Wilfredo Prieto vive frequentemente do humor e do absurdo que emana de intervenções ora minimalistas ora irrealizáveis pela sua complexidade tanto em meios como conceptualmente. A exemplo da extrema simplicidade pode pensar-se na peça Grease, soap and banana que é de facto gordura, um sabão e uma casca de banana no meio de uma sala de museu vazia. O visitante é desconfortavelmente colocado numa situação em que o espaço poético entre título e a obra não existe. Tamanha literalidade leva à desconfiança e faz com que o visitante fique atento às mais insignificantes e mínimas subtilezas de cada peça.

No caso de Paisagem com a queda de Ícaro e da relação entre os três elementos − o espaço público, a pintura «de» Bruegel e o piano de cauda dentro do lago − o espaço poético que os liga é demasiado alargado para chegar a uma conclusão definitiva sobre um só sentido do trabalho. É um trabalho que se boicota na sua recepção e é isso que permite pôr em causa e fazer um balanço sobre uma forma específica de produção artística actual. Dir-se-ia que estamos perante um debate que visa pôr em causa lugares comuns de um certo modo de fazer arte actualmente.


Bruno Leitão