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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Manuel Santos Maia, Alheava_filme, 2006/07. Vídeo realizado a partir de originais de filmes de 8mm, editados em Mini-DV Vídeo DVD Pal, Cor, Áudio PCM Stereo, 35’10’’.


Manuel Santos Maia, Alheava_filme, 2006/07. Vídeo realizado a partir de originais de filmes de 8mm, editados em Mini-DV Vídeo DVD Pal, Cor, Áudio PCM Stereo, 35’10’’.


Manuel Santos Maia, Alheava_filme, 2006/07. Vídeo realizado a partir de originais de filmes de 8mm, editados em Mini-DV Vídeo DVD Pal, Cor, Áudio PCM Stereo, 35’10’’.


Ângela Ferreira, Casa de colonos abandonada, 2007. Lambda print sobre alumínio, 120 x 150 cm.


Ângela Ferreira, Antigo Hotel D. Ana, Vilankulo, 2007. Lambda print sobre alumínio, 120 x 150 cm.

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ARQUIVO:


ÂNGELA FERREIRA E MANUEL SANTOS MAIA

Correspondência #3




ARTE CONTEMPO
Rua dos Navegantes, 46 A
1200-732 Lisboa

24 FEV - 26 MAR 2011

Um estado de amnésia, um não querer saber...

“[...] as sequelas do colonialismo subsistem no nosso país [...] assim como a mentalidade própria à dependência, ao fatalismo [...] ” Samora Machel, 1980 (1)

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A exposição “Correspondência #3”, comissariada por Filipa Valladares e Maria do Mar Fazenda, é o espaço construído onde temos a oportunidade de ficar perante dois olhares distintos sobre um mesmo lugar, um território que outrora fora considerado português – Moçambique. Estas visões correspondem aos trabalhos de dois artistas de gerações diferentes, Ângela Ferreira e Manuel Santos Maia, onde encontramos uma tentativa de (re)conhecimento, (re)consciencialização ou mesmo de (re)construção do lugar e o que ele poderá simbolizar quer no momento presente quer em tempos passados.

Numa tentativa de relacionamento ou aproximação para com o público, as obras em exibição acabam por suscitar um interesse ininterrupto, na medida em que fomentam uma necessidade de questionamento. Este “pôr em causa” tanto da própria obra, como do lugar, do território, do que sucedeu e/ou do que lhe advém, é no fundo, é uma tentativa de quebrar o estado de quase amnésia em que ainda hoje se vive em Portugal, relativamente às ex-colónias. Porém, não existe uma necessidade de reviver mas, sim uma possibilidade de trazer à superfície as complexas relações entre os diferentes lugares e o que eles poderão desafiar. Assim, poderemos afirmar que esta exposição ultrapassa contendas localizadas e pontuais, mas tece um conhecimento que se projecta numa área mais abrangente e global. O lugar comum que ambos os artistas patenteiam nas suas obras exibidas é apenas uma plataforma, uma base para que possam hastear discussões sobre as diversas inter-relações entre África e a Europa, e entre Moçambique e Portugal. Ângela Ferreira expõe a sua posição: “é muito importante que a história de Moçambique (...) não se diminua ao facto da memória dos portugueses (...) situo-me numa relação construtiva e progressista da relação entre Portugal e Moçambique” (2).

Falarmos de África é falarmos também de Portugal, pois parte da nossa identidade também lá foi forjada. Aqueles que para lá foram e voltaram, de lá trouxeram e por cá disseminaram o que os marcou. A identidade cultural de um território é cimentada com o passar dos tempos e é fortalecida com as marcas das relações com outras culturas, no entanto devemos estar cientes que no colectivo é crucial revelar a identidade própria de cada um de nós. As histórias que normalmente ouvimos os nossos familiares contar das colónias, são sempre de uma África paradisíaca, onde havia abundância e serenidade. É raro escutarmos as lembranças de abandono ou mesmo da guerra. Será por estas memórias ainda estarem recentes nas memórias dos que as viveram? Ou será porque os relembra do despertar de um sonho vivido? Estamos cientes que ficara um enorme trauma, tanto nos que viveram nos tempos da luta pela independência das colónias, como nos que abandonaram o território de forma preventiva, escapando ao ambiente de guerra, lutas, sangue, sigilos, vinganças, que se viveu. Eventualmente, mesmo aqueles que tentaram permanecer perderam a esperança. A fuga deste lugar, que se desfocava a cada dia que passava, para um outro país que nada recordavam, causara frustrações e consequentemente ausências ou mesmo o desviar de pensamento para um tempo onde o lugar ainda permanecia “imaculado”. Estes tempos foram tão marcantes, que quando ouvimos alguém falar de Angola ou Moçambique, recordam os bons tempos, os tempos de felicidade, e deixam no fundo do baú as memórias da partida. Mesmo quando perguntamos o que lá aconteceu, respondem-nos que não interessa, e que não vale a pena falar do que já lá vai! Talvez essas lembranças tenham sido simultaneamente abdicadas tal com os pertences lá deixados!

O lugar, a amnésia e a memória são alguns dos pontos correspondentes e imediatos que poderemos facilmente correlacionar entre os autores e as diferentes obras em questão. Este tríptico conceitual, funde-se quer nas obras exibidas, quer no modo como os artistas compreendem e interrogam a realidade que observam, sendo importante ressalvar também a forma como estes artistas posicionam o seu trabalho, que parte de uma visão local que se expande para uma visão global. No entanto, a questão de qual será a correspondência entre as obras/artistas ainda nos está latente. Terá sido um pensamento do pós-colonial? A dupla consciência entre lugares e tempos? Ou a mera relação com África?

Manuel Santos Maia, partindo sempre da sua esfera pessoal e individual, procura progressivamente alcançar o estatuto do mundo global, transcorrendo a uma referência de elementos próximos e familiares a si, que remetem-nos sempre a um Portugal. A obra Alheava_filme (3) que apresenta nesta exposição, pertence a um projecto (4) mais dilatado, onde aborda o alheamento de Portugal face ao passado colonial e pós-colonial. Assim, este filme construído através da memória individual e familiar, reflecte uma identidade colectiva luso-africana que presenciou ‘na pele’ os processos de separação e independência de um mesmo território. Estas memórias, histórias, percursos de vida, movimentações forçadas e constrangedoras são trazidas à luz, numa tentativa de sacudir e consciencializar o outro, de modo a que abandone o tal estado agnóstico. Este projecto, tal como o filme, resultam de uma necessidade de não esquecer, de não querer esquecer e de nem permitir que tais memórias se esvaneçam nos tempos, pois de algum modo, elas também constituem a identidade do próprio artista. Este recusa que aconteça o mesmo que aconteceu ao narrador do seu filme, quando este se refere às suas memórias “que passam com o tempo, e a gente já não se recorda ...”. As narrativas que encontramos na obra de Maia vão além de si, enquanto ‘eu’, simbolizando algo maior, dado a sua necessidade de pensar o ‘eu’ enquanto ‘nós’.

Num outro olhar sobre territórios, movimentações e transfigurações, existe a obra de Ângela Ferreira, que é marcada por uma “dualidade territorial, indissociável de um certo percurso biográfico, das deslocações constantes entre África - Moçambique e a África do Sul - e a Europa” (5). Ampliando a este multi-olhar sobre o território cultural, social ou político, a artista utiliza como ferramenta de entendimento e crítica sobre os lugares, a arquitectura modernista atribuindo-lhe o “símbolo de poder nacional, e como tal político” (6). As arquitecturas, que encontramos na obra de Ângela Ferreira, são nos apresentadas como objectos escultóricos deslocados da sua função, e fazem alusão às diversas sedimentações simbólicas aos quais estiveram envolvidas, de modo a desvendar os conflitos dos processos urbanísticos, o uso e a carga ideológica que elas acarretam em si mesmas. Em Correspondência#3, a artista expõe as obras, Antigo Hotel D. Ana, Vilankulo e a Casa de colonos abandonada. Ambas representam edifícios do tempo colonial, localizados sensivelmente na zona sul de Moçambique e cujo proprietário foi o mesmo. Na primeira, surge-nos uma imagem de um hotel luxuoso que foi abandonado e tal como todo o seu enquadramento, transmite-nos uma sensação de suspensão, um momento de pausa, em que tudo entra em repercussão sobre si mesmo. A segunda, um edifício de carácter doméstico, é uma vivenda deixada ao abandono na ilha de Benguerra, “uma casa que nunca foi acabada, que aparenta ter sido estranhamente abandonada no momento em que toda a sua estrutura de betão estava completa (...) Uma espécie de carcaça oca, estrutura simbólica com ar de pertencer a subúrbios citadinos mas instalada numa ilha quase deserta. (..) com algumas adaptações africanas, como a necessária versão alargada da varanda e ainda alguns detalhes escultóricos quase surreais ou tropicais que se sobrepõem à fachada do edifício” (7), materializando-se num tríptico de três fotografias independentes com pontos de vista distintos. As imagens que Ângela Ferreira apresenta são mais do que meros retratos de edifícios abandonados, são o vestígio da utopia e de uma ruína do passado, “são descrições em silêncio da memória de um país, de uma ex-colónia portuguesa que foi marcada por uma série de momentos conturbados” (8), um lugar que só por si apresenta um sentimento de abandono ou esquecimento, um lugar que se torna um não-lugar, perdido num tempo que só a determinação da memória o poderá recordar.

Poderíamos conceber um possível paralelismo entre as fotografias de Ângela Ferreira e o filme de Manuel Santos Maia, estabelecendo uma relação entre os edifícios abandonados e o testemunho pessoal do narrador, quando este afirma: em Moçambique já ninguém tinha poder sobre os seus imóveis, pois agora eram propriedade do Estado (de Moçambique). Desta forma, poderemos pressupor que os edifícios que Ângela Ferreira apresenta, “pertenceriam” aos que tanto foram obrigados a rescindir das suas propriedades como aos que tiveram de fugir e (re)tornar a um Portugal que nada lhes era familiar.

Nos tempos que correm pode-se observar que em Portugal se vive num estado amnésico, perante assuntos ainda recentes, que recordam duplos e controversos sentimentos que tanto ferem como causam saudade. O relacionamento e a proximidade que existe com o continente africano é portanto muito forte. Não é por acaso que nas nossas famílias encontramos sempre alguém que viveu ou lutou em África. O próprio Maia apesar de só ter vivido em Moçambique até uma idade precoce, sente esta nostalgia, através de tudo o que o rodeia, quer sejam objectos, as histórias ou a família. Mas, inexplicavelmente e apesar da existência desta ligação que todos nós sentimos, “ninguém fala” (9). Só agora, em 2010/11 (a marcar o cinquentenário do início da colonial portuguesa em África?) é que se começa a observar uma maior abertura para este marco da história. Tal facto, constata-se não só pelos media como também pelos expositores de livros das grandes superfícies comerciais, ocupando lugar de destaque. África está em voga! É pena constatar que é necessário passar meio século para que se inicie uma reflexão colectiva de todo o processo de descolonização. E é ainda mais de lamentar que a maioria das pessoas que ultrapassaram esta época em idade adulta já não possam fazer parte deste debate colectivo.

Como Manuel Maia o fez, será crucial que estas as segundas e terceiras gerações procurem esmiuçar e trazer à tona todas estas problemáticas constrangedoras, nomeadamente através de testemunhos pessoais, de forma a ultrapassar este alheamento enraizado na nossa própria identidade.

Será mais verosímil recordar uma história contada, a uma história vivida?




NOTAS

(1) MARCEL, Samora. in KGAREBE, Aloysius. SADCC 2-Maputo: the proceedings of the Second Southern African Development Coordination Conference held in Maputo, People’s Republic of Mozambique on 17/18 November 1980, SADCC Liaison Committee, pág. 13, 1980 / General History of Africa, VII: Africa under colonial domination, 1880-1935. Paris: UNESCO; Berkley, CA: University of California Press, pág. 889, 2010.
(2) FERREIRA, Ângela. Folha de sala da exposição Correspondência #3, Arte Contempo, 2011.
(3) Este filme foi exibido pela primeira vez em Iowa (E.U.A.) em 2008, sendo premiado no FIAV.08 na Argélia com o Prix Ibn Batuta. Posteriormente fora já apresentado em diversos países como Inglaterra, França e Macau.
(4) O projecto alheava, iniciou-se em 1999 e é constituído por duas fases. A primeira contempla diversas práticas artísticas, como por exemplo, a performance, o vídeo, a fotografias, o teatro ou o som; a segunda fase será a realização de uma viagem a Moçambique, país representado neste projecto.
“‘Alheava’ é a conjunção no pretérito perfeito do verbo alhear, remete-nos para o passado; sinónimo de um outro verbo alienar (...) denuncia um conjunto de significados de dimensão psicológica, tais como, viver num mundo abstracto; pôr-se de fora de um assunto; deslocado; distraído; esquecido; (...) ‘Alhear’ sugere um estado de alienação, de amnésia, um efeito de desvio, uma ausência de raízes, uma sensação de perda, um sentimento de deslocação” - Alves, Cristina – introdução, texto de sala da exposição ‘to Play (and teh monkey busniss)’ – Atmosferas, Porto, 2002.
(5) SCHEFE, Raquel. Espécies de espaços. Lugares, não-lugares e espaços identitários na obra videográfica de Ângela Ferreira, 2010 (www.buala.org).
(6) REIS, Paulo. “A lógica da diferença cultural em Ângela Ferreira”, Revista Dardo, n. 5, 2007.
(7) FERREIRA, Ângela. Exposição Um Atlas de Acontecimentos, 2007; http://o-estado-do-mundo.blogspot.com/2007/10/estrutura-simblica.html.
(8) Exposição Continents à la derive, “Ses images nous décrivent en silence la mémoire d'un pays, ici le Mozambique, ancienne colonie portugaise déchirée par des cycles de conflits endémiques”.
(9) Transcrição da narrativa da obra Alheava_filme de Manuel Santos Maia.


Inês Valle