Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Onofre, Ghost, 2009/2012. HD Video, cor, som, 14’25’’. Cortesia: Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa


Vista da exposição. Cortesia: Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa


Vista da exposição. Créditos da imagem: Rui Luz. Cortesia: Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa

Outras exposições actuais:

GUSTAVO JESUS

EXALTAÇÃO DO INTERVALO


Associação 289, Faro
MIRIAN TAVARES

COLECTIVA

A GUERRA COMO MODO DE VER: OBRAS DA COLEÇÃO ANTÓNIO CACHOLA


MACE - Museu de Arte Contemporânea de Elvas, Elvas
LUÍS RIBEIRO

5ª EDIÇÃO

FUCKIN` GLOBO 2018


Hotel Globo, Luanda
ADRIANO MIXINGE

COLECTIVA

BIENAL DE SÃO PAULO


Bienal de São Paulo, São Paulo
JULIA FLAMINGO

A COLECÇÃO PINTO DA FONSECA

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
NATÁLIA VILARINHO

RUI CHAFES E ALBERTO GIACOMETTI

GRIS, VIDE, CRIS


Fundação Calouste Gulbenkian – Delegação em França, Paris
MARC LENOT

PATRÍCIA SERRÃO

WELTSCHMERZ


CECAL – Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé, Loulé
MIRIAN TAVARES

MARCELO BRODSKY

MARCELO BRODSKY. 1968: O FOGO DAS IDEIAS


Museu Coleção Berardo, Lisboa
MARC LENOT

ROBERT MAPPLETHORPE

ROBERT MAPPLETHORPE: PICTURES


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

CATARINA LOPES VICENTE

DESENHOS


Teatro da Politécnica - Artistas Unidos, Lisboa
CATARINA REAL

ARQUIVO:


JOÃO ONOFRE

Ghost




CRISTINA GUERRA CONTEMPORARY ART
Rua Santo António à Estrela, 33
1350-291 Lisboa

27 SET - 07 NOV 2012


Até ao dia 7 de novembro estará presente na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art a exposição Ghost, o mais recente trabalho de João Onofre. A exposição apresenta dois momentos que se complementam: um vídeo e um conjunto de 36 fotografias.

O vídeo de catorze minutos foca parte da travessia de uma pequena ilha no rio Tejo, elemento que corresponde formalmente ao princípio simbólico da ilha paradisíaca: pequena, de areia clara com uma palmeira (Howea Forsteriana) ao centro; uma criação cenográfica que flutua em direção ao oceano.

Sem informação que justifique a sua passagem, sem paragem por Lisboa, a ilha realiza um percurso no qual o princípio e o fim são absolutamente desconhecidos. Assim, o que é acessível ao espectador resume-se a um momento intermédio, com a duração aproximada de um dia. A referência temporal é sugerida através das alterações da luz, uma marcação que confere à obra extensão. Desta forma Onofre atribui objetivamente tempo e local à peça, estabelecendo uma relação próxima com a vida, concedendo-lhe maior credibilidade e permitindo o confronto da realidade com a estranheza do acontecimento.

Esta ilha apresenta-se como princípio subversivo do ideal de ilha paradisíaca: distante da vida quotidiana, por norma associada ao prazer e ócio. De forma contraditória, neste caso, a ilha move-se num rio flanqueado por uma das zonas mais populosas do país, Lisboa e a margem sul do Tejo. A capital nunca é diretamente visível, apesar de serem fornecidas ferramentas que possibilitam a sua rápida identificação: a ponte Vasco da Gama, a ponte 25 de Abril (central a partir da segunda metade do vídeo), a breve presença do Cristo Rei e o som dos carros que circulam na ponte. Desta forma é contextualizada a ação, através de níveis diferentes de entendimento: a construção, reconhecida internacionalmente, e o som, reconhecido por quem habita quotidianamente a cidade.

O som tem destaque central na peça. Vindo da ponte, o leve ruído percetível desde o início do vídeo, cresce com a aproximação da ilha à ponte 25 de Abril. No momento em que a ilha passa a ponte, o som é enfatizado através da sobreposição de uma música apoteótica, para depois ser diminuído até à sua inexistência na sequência do afastamento da ilha em direção ao mar.

Simbolicamente, a ilha também subverte princípios relativos à insularidade, conceito intimamente ligado às ilhas ou arquipélagos, enquanto elementos geográficos. A autonomia desta ilha artificial, que flutua no Tejo, entre a mobilidade própria e a inevitabilidade das correntes, combate o princípio da insularidade. Evocando as noções de isolamento ou afastamento de um local face a um outro com superioridade de ocupação, esta ilha desabitada tem a particularidade de se deslocar, como pedaço de terra que se desagrega e flutua, aproximando-se do urbano, do construído.

A problemática da ocupação é central, se por um lado é comum a valorização da desocupação, associada à ilha deserta, longe do mundano e relacionando-se com outra realidade, com o irreal; por outro lado as ilhas habitadas, são muitas vezes alvo de estudo sobre a dificuldade do processo de desenvolvimento social, cultural, económico, comparativamente com a vida no continente.

Neste caso, a ilha paradisíaca retratada no vídeo, como pequeno pedaço de terra, deserta, de difícil acessibilidade do/ao mundo exterior é uma ideia que cada vez mais se afasta da realidade, que avança no sentido da utopia. A referência transmitida pelo próprio título, Ghost, sugere a impossibilidade da ilha, enquanto objeto que flutua no rio Tejo, mas acima de tudo como ideal. Nos segundos finais do vídeo é concretizada a construção da imagem arquétipo da ilha paradisíaca, agora já sem qualquer referência à realidade citadina, sem margens industrializadas, apenas a linha do horizonte e o pôr do sol em tons de rosa.

As 36 fotografias tiradas por fotógrafos amadores, que em comum têm uma ligação afetiva ao artista, foram agrupadas de maneira a enfatizar os três momentos do dia: manhã, tarde e pôr do sol, e escolhidas para “documentar” a travessia da ilha. As fotografias foram realizadas sem coordenadas embora a seleção agora apresentada tenha sido feita pelo artista.

Em ambos os casos, quer no vídeo como nas fotografias, é visível um trabalhado que explora o limite entre a ficção e documental. Partindo do princípio generalista que coloca o ficcional no plano da influência, do subjetivo, do parcial, e o documental no plano da prova, do objetivo, do imparcial, Onofre consegue tocar os dois campos. Através do vídeo, Ghost propõe um retrato da travessia feita pela ilha, recorrendo para tal a diversas técnicas e planos cinematográficos: traveling, close up, de planos gerais até planos de pormenor, manipulando constantemente a ação. Jogando com escalas, da ilha relativamente à ponte 25 de Abril, da ilha ao horizonte ou da copa da palmeira face aos edifícios, a utilização do close up que elimina por vezes o elemento água, recontextualizando a palmeira, e variando nos ritmos e velocidades do percurso da ilha.

No caso das fotografias, a produção de documentos é externa a uma parte do processo mas interna a outra, isto porque quem fotografa está relacionado de alguma forma ao artista e contribui concretamente para obra, mas sem participação conceptual no processo criativo.

O problema da ficção e do documento (como documento ficcional) ultrapassa o registo do acontecimento. O registo é ele mesmo uma manipulação do olhar, sendo a ação retratada, uma encenação de um acontecimento impossível – uma ilha paradisíaca que flutua no Tejo em direção ao oceano – um acontecimento utópico, tão utópico quanto a idealização da própria ilha.


Flávia Violante