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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Congolândia, de Thó Simões.


Realité, jamais, de João Ana + Elepê


Vídeo-instalação de Toy Boy.


Vídeo-instalação de Toy Boy.


instalação-performance Túmulo de uma zungueira desconhecida, de Kiluanji kia Henda e Orlando Sérgio.


instalação-performance Túmulo de uma zungueira desconhecida, de Kiluanji kia Henda e Orlando Sérgio.


instalação-performance Túmulo de uma zungueira desconhecida, de Kiluanji kia Henda e Orlando Sérgio.

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COLECTIVA

FUCKIN´GLOBO III




HOTEL GLOBO
R. Rainha Ginga 100
Luanda, Angola

26 JAN - 30 JAN 2017

UM GRUPO DE CRIADORES REVOLUCIONA A CENA ARTÍSTICA EM LUANDA

 

Com uma proposta irreverente, totalmente alternativa, ousada e independente, doze artistas e um colectivo participaram, de 26 a 30 de Janeiro último, na terceira edição da mostra multidisciplinar de arte “Fuckin´Globo III”, na cidade de Luanda (Angola), que contou com a curadoria de Kalaf Epalanga e João Ana.

Importa desde já perguntar: sobre o que é que os artistas e criadores da exposição “Fuckin´Globo III” reflexionam? Quais são as suas estratégias? Que recursos estéticos e criativos utilizam?

Instalados em dez quartos, os artistas (Kiluanji kia Henda, Orlando Sérgio, Gretel Marin, Edson Chagas, Keyezua, João Ana + Elepê, Alekssandre Fortunato, Thó Simões, Ery Claver, Daniela Vieitas + Muamby Wassaby, Toy Boy e o Colectivo Verkon), usando à vontade caixas de objectos, pinturas murais, instalações sonoras e não só, cheiros, vídeo projecções, performances e ambientes situacionistas, propõem uma nova ordem perceptiva, outra maneira de fruição estética e assumidas formas de questionamento da arte, dos valores sociais e políticos imperantes.

As obras expostas têm diferentes registos temáticos e imagéticos, apelam a uma série diversa de temas, mas, no geral, é evidente o altíssimo de soluções estéticas e criativas: com “Congolândia (o universo em desencanto)”, Thó Simões, no quarto 117 reinventa o exotismo e o passado mítico dos reis do Congo convertendo-os em elementos de um palimpsesto cultural indecifrável, um texto mudo e nunca o suficientemente conhecido, alegoria do olvido e da castração, exemplo da deculturação.

Com a performance “Em pratos limpos”, no quarto 107, Daniela Vieitas + Muamby Wassaby recriam, simultaneamente, os constrangimentos que a falta de água provoca, como convivemos com a putrefacção de alimentos e das coisas, quão injusto é o mundo da arte e até que ponto lavar pratos relaxa, distrai e ajuda mesmo a pensar.

No quarto 111, Keyezua apresentou a obra “Nothing to declare” onde reutiliza tambores de gasolina, dando-lhes outra roupagem com pinturas do tipo naif que retratam objectos ou corpos, sem necessidade de dizer nada mais que não seja a própria recriação de uma certa noção de natureza morta ou, simplesmente, de figurativismo.

João Ana + Elepê com a instalação sonora “Realité, jamais” criaram, no quarto 112, uma atmosfera cor de rosa, inquietante, com ruídos que tiravam o espectador da realidade para sumi-lo numa irrealidade cheia de fumos e vapores.

No quarto 115, reconstruindo um cenário com intenções situacionistas, Edson Chagas, com a sua obra “Keep calm. Aprecia a vida”, projecta imagens sobre um contexto revestido de cartão, numa obra que, apesar de ser menos caótica, faz recordar as construções de Carlos Bunga.

Nas antípodas da encenação da obra de Edson Chagas, se situa a vídeo-instalação sem título que Toy Boy coloca no quarto 116: chinelos, sapatinhos e botinhas de crianças perdidas na estrada, abandonadas em qualquer lugar pelo desleixo ou fruto da fuga intempestiva dos lugares de fome, guerra e caos aparecem espalhadas num mesmo contexto, o da obra de arte, para incitar a refletir sobre a ausência e a perda.

No quarto 105, Kiluanji kia Henda e Orlando Sérgio apresentam, num ambiente avermelhado, a instalação performance “Túmulo de uma zungueira desconhecida”. Em primeiro lugar, em alusão à zungueira morta pela polícia muito recentemente numa das ruas de Luanda, mas, em segundo lugar, a récita de poesia angolana dos anos 50 e 60 do século XX obriga-nos a evocar a história do lugar e da importância da quitandeira para, depois, em terceiro, unir a história dela, por via do título, ao “túmulo do soldado desconhecido” tão presente no período revolucionário de herança comunista.

Zungueira e soldado, eles, todos desconhecidos, são vítimas de sociedades aparentemente diferentes, mas que, quando nos confrontamos com a crua realidade, funcionam com idealismos tão vazios e mecanismos totalitários parecidos. É face a essa encruzilhada em que a pós-verdade floresce que os artistas colocam os espectadores para fazê-los refletir sobre quão distantes (ou não) estamos do tempo do partido único e, também, da necessidade de maior justiça social.

Além dos artistas e obras já comentadas, Gretel Marin expôs também a vídeo-instalação “Mukúa divagaciones”, Alekssandre Fortunato a pintura mural “Coisas”, Ery Claver apresentou o vídeo “Há um zumbido, há um mosquito, são dois”, o Colectivo Verkon e Kiluanji kia Henda colaboraram na instalação “Monochromatic rebel town”, um misto de fotografia, graffitis e vídeo.

Mas, o que é que realmente significa a exposição “Fuckin´Globo III”? O que é que este grupo de artistas pretende? O que é que consegue realmente?

Seriamos muito inocentes se pensássemos que o Globo a que o título da mostra se refere é, nesse caso, somente o nome do hotel que a alberga. Unido à expressão inglesa “fuck in” as alusões deixam de ser obscenas e passam a sublinhar uma mensagem que tem a sua origem naquele ponto exacto da cidade para dirigir-se ao mundo e à global Art.

“From the people to the people... Fuck institution”! é o lema que inspira os artistas e, pela ausência de algumas das instâncias de mediação e legitimação artística, fascina o público luandense porque, entre outras razões, muitas das instituições vocacionadas em cuidar das criações não evoluíram o suficiente como para absorver as práticas artísticas emergentes.

Orfãos de uma crítica de arte séria e rigorosa, com “Fuckin` Globo” os artistas decidem arriscar-se preferindo o juízo, como diria Ranciére, de um “espectador emancipado” que, mesmo não sendo maioritário, está atento ao que vem acontecendo nos meios artísticos e gravita à volta dos seus principais pontos de atracção oficiais e/ou oficiosos.

Quando a 22 de Dezembro de 2015 se inaugurou a primeira edição da “Fuckin´Globo I”, já a artista Mónica de Miranda tinha realizado, de 4 de Julho a 27 de Setembro, a exposição “Hotel Globo” no Museu Nacional de Arte Contemporâneo do Chiado, cujas imagens podemos ver online em www.youtube.com/watch?v=YAStyoVQjCE.

Na instalação de Mónica há uma apropriação e questionamento do espaço tanto do ponto de vista simbólico como funcional, mas, os objectivos dos artistas de “Fuckin Globo” vão mais além da dicotomia entre colonial e pós-colonial e entre autóctone e turista para marcar novas clivagens, por exemplo, entre oficial e oficioso, entre conservador e revolucionário, entre decorativo e reflexivo, entre dependente e independente.

Decididos e preocupados, os artistas de “Fuckin Globo III” fazem tudo por esfarelar outros esquemas de dependência, intoxicação e condicionamento como os que podem existir, também, entre o artista e as instituições de arte e, sobretudo, entre a arte e o patrocínio político pouco esclarecido.

O resultado desta exposição é revelador: deixa bem claro que a arte angolana mais interessante e comprometida é aquela que está a acontecer e a desenvolver-se à margem tanto das iniciativas da União Nacional de Artistas Plásticos (UNAP) como as da Fundação Sindika Dokolo, instituições essas que, neste momento, independentemente da necessária função social que desempenham como chamariz de um público porventura mais conservador, tendem a converter-se, no geral e sem querer ser categórico, ao localismo mais retrógrado, mercantilista, reaccionário e oficialista.

No entanto, desde a sua primeira edição “Fuckin Globo I” com a participação de seis artistas (Kiluanji kia Henda, Edson Chagas, Marcos Kabenda, Orlando Sérgio e a dupla Globo 112), os artistas brandiram um credo criativo e uma estratégia expositiva sem limites: “Num ambiente claustrofóbico” a exposição pretende funcionar como “uma metáfora sobre a inconformidade” face a um “planeta em pleno caos” e “em acelerada mutação”, noticiava o Rede Angola citando as declarações de Kiluanji kia Henda na sua página de Facebook.

Depois veio o “Fuckin Globo II” e Orlando Sérgio, o conhecido actor de teatro que participa na primeira edição, desta vez, não o faz. Irina Vasconcelos, a estrela emergente de música Rock angolana e oito artistas mais (João Ana, Ery Claver, Keyezua, Thó Simões, Angel Ilhosvany, Kiluanji kia Henda, Elepê e Mwamby Wassaby) contribuem para a consolidação do evento.

Mas, em “FuckinGlobo III” os artistas vão muito mais longe: rejeitam toda a relação de subordinação imposta pelo mainstream artístico de Angola (e não só), em que o artista obedece as teias condicionadoras do mercado da arte e as conveniências do “politicamente correcto”, situando-se numa zona de conforto que lhe permita sobreviver sem ruídos nem estridências. Os artistas desta exposição querem estar longe dos lugares comuns, assumem compromissos claros com a realidade social e política em que desenvolvem os seus trabalhos e, consequentemente, as suas obras fazem parte de uma estratégia artística e são, também, actos que revelam uma cidadania engagée e comprometida.

Para quem terá visto a exposição ou, simplesmente, consultado a documentação sobre a mesma que aparece online, na página do facebook de Kiluanji Kia Henda, ter-se-á dado conta que a terceira edição de “Fuckin Globo III” não é, nos meios artísticos angolanos, uma exposição ao uso: situada à margem das instituições, privilegiando o papel criador e produtor dos artistas, revalorizando um espaço que foi nobre no tempo colonial mas passou a ser decadente no pós-independência e, sobretudo, visando um público sensível e conhecedor, marca uma reviravolta ainda maior no universo das profundas transformações criativas, artísticas e culturais que se vêm verificando, em Angola, durante toda a última década.

 

 

Adriano Mixinge
Historiador e Crítico de Arte



ADRIANO MIXINGE