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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia: Constança Babo


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PEDRO VAZ

CAMINHO DO OURO - TRILHO DO FACÃO




KUBIKGALLERY
Rua da Restauração, 2
4050-499 Porto

18 FEV - 01 ABR 2017


Quando a criação artística nasce de uma intensa pesquisa ao nível da experiência e de um envolvimento profundo do artista com o seu objeto de estudo, o resultado é, também ele, denso e ganha a capacidade de realmente atingir, afetar e mover quem se permite ser seu espetador. A Kubikgallery, ao deixar-se cobrir pelas telas e fotografias de Pedro Vaz na representação do Caminho do Ouro - Trilho do Facão, torna-se o palco de uma nova existência e assume outra identidade.

Pedro Vaz (Maputo, 1977) convida-nos a participar na sua viagem e a descobrir, com ele, um universo de história e passado mas também de futuro. Vamos para o Brasil, para a mais verde e selvagem flora tropical. Viajamos através do olhar do artista, composto por múltiplas imagens da sua passagem por tal ambiente. A experiência que o próprio sentiu, que lhe é pessoal, autêntica e que compõe a base de toda a criação e sucessiva produção, é-nos transmitida com uma força cativante, absorvente e, sobretudo, envolvente.

Para o artista, a natureza e a paisagem são um refúgio e um abrigo ao quotidiano, ao dia-a-dia, e a um possível, e frequentemente desejoso, escape à sociedade. O lugar do natural e da terra é, pois, um domínio sem regras ou, antes, com as suas próprias, distintas das nossas. Ao mesmo tempo, a pintura destes elementos é, também ela, mais livre do que outros tipos de representação pictórica que se impõem o requisito de corresponder a algo para não o descaracterizar. Este desejo da liberdade da criação artística é o princípio que move Pedro Vaz e o seu ponto de partida para o que conceptualmente se amplia, densifica e constrói.

É de um modo quase magnético que as telas se expõem perante nós, sendo nelas que nos prendemos e perdemos. Uma após outra, pela galeria, transitando entre as maiores e as mais pequenas, assemelham-se a portas e janelas para essa vivência do artista, convidando-nos a imergir nelas. Como Pedro Vaz propõe, as primeiras telas e maiores lidam com o nosso corpo e transformam o espaço, as paredes que ocupam. As segundas funcionam principalmente a um nível visual, tendo sido inseridas numa sala mais pequena para que conseguissem, em conjunto, proporcionar uma experiência sólida. Todo este trabalho, quando entendido globalmente, funciona com uma força que move o espetador. Em separado, por sua vez, cada obra respira por si, emanando uma energia proporcional à experiência causada.

Esteticamente, as várias obras que o artista apresenta são compostas por cores que se aproximam da natureza, mas que a reinventam com um particular encanto. O artista confessa que começa precisamente aí, na escolha cromática, à procura de causar sensações no espetador. Tal ímpeto é realizado e alcançado com uma capacidade plástica fora do vulgar. A pintura de Pedro Vaz ergue-se através de uma notória e particular perícia com o pincel e o gesto, seguida de, em algumas telas, uma técnica de interrupção da secagem por meio de uma breve lavagem com água. Este processo funciona principalmente nas zonas em que maior quantidade de tinta se tinha acumulado, retirando, depois, os excessos de cor e de traço, como que diluindo o pormenor e conduzindo a um resultado e, consequentemente, a uma impressão mais difusos. A obra torna-se, assim, propícia à recepção e interpretação criativas e imaginativas por parte do espetador. Ao mesmo tempo, este exercício aproxima as pinturas do efeito que ocorre com a fotografia no momento de revelação, sendo esta uma prática que o próprio também utiliza e convoca para esta exposição.

Pedro Vaz explica que, quando caminha, fotografa, para que esses documentos, associados às suas recordações, lhe sirvam de posteriores auxiliares na criação. As fotografias, dispostas na última sala da exposição, apresentam-se como o registo do caminho percorrido pelo artista, e, em simultâneo, funcionam também como fragmentos da sua experiência. É através delas que é possibilitada a continuidade da vivência do autor, para que esta não se esgote naquele momento, num tempo efémero, mas seja prolongada, relembrada e novamente sentida pelo próprio e pelo público.

Com um quase poético tom de preto e branco rodeado por uma moldura branca, o caminho anuncia-se e estabelece-se ao nosso olhar, num enfoque e desfoque calculados que aproximam o trabalho de um nível mais físico e mais real. Esta escolha de cor contribui também para fortalecer a ponte com a ideia de memória. Como Pedro Vaz procura relacionar-se com o passado desse espaço, a fotografia é certamente a melhor forma de o atingir, pois, como Roland Barthes compreendeu, ela não fala daquilo que não é mais, mas sim, daquilo que foi. A fotografia proporciona um encontro com o real através de uma conexão física mas, também, simbólica. Em relação a esta última, desenha-se a relação com aquilo que o artista questiona sociológica, política, e, portanto, conceptualmente.

Miguel von Hafe, no texto que produziu para esta exposição, fala de um "exercício sobre o território e a pertença" que nos é comum quando, também nós, fazemos um determinado caminho com a atenção e o olhar aguçados. Ora, a pesquisa em campo que Pedro Vaz fez, não se tratou de um passeio meramente contemplativo ou, sequer, de um acaso. A experiência referida anteriormente surge desse modo tão denso pois advém de um conhecimento do passado do local e de tudo o que o define e determina. Assim, o foco essencial é a história deste trilho do Facão, em serra com o mesmo nome, pertencente ao Parque Nacional da Serra da Bocaina, próximo da pequena cidade de Paraty. Percorrido por indígenas, também o foi pelos que portugueses que, na época dos descobrimentos, chegaram ao Brasil e, a partir do séc. XVIII, procuraram adquirir e transportar pelo mato pedras preciosas, ouro, madeira e, no início do século seguinte, café, entre outras raras mercadorias. Este percurso é, como o artista explica, também sangrento, pois contam-se inúmeras vidas sacrificadas de escravos que o pisaram, alguns deles habitantes locais, cativos para estas incursões. Tal carácter encontra-se inscrito no espaço e é invocado pelo artista como objeto de crítica subjacente ao seu projeto.

Hoje, o caminho já se encontra desativado e cada vez mais indistinto, tendo começado com uma largura de 50m que hoje já se encontra impercetível. Esta alteração condicionada pelo tempo faz com que este vislumbre, ou descoberta do que ali resta, se torne mais especial e valiosa. O trabalho pode, nesta medida, ser considerado um forte arquivo e testemunho da paisagem, das suas formas e ambiente, um artefacto deste local carregado de história e significado. A obra mostra-se, também, como um vestígio da relação que Pedro Vaz desenvolve com a natureza e, numa compreensão alargada, de todo o homem com o espaço alterado pela sua ação. Esta zona que seria exótica, selvagem, crua, viva, é agora totalmente determinada pelo rasto dos que por lá passaram. O caminho que vemos surge de uma procura, de um propósito, de uma viagem, agora abertos visualmente para que nós também o possamos descobrir.

O artista, tendo realizado, o ano passado, a exposição individual Terra Firme, em São Paulo na Galeria Barló, e uma residência na LABVERDE - 2016 Imersão Artística na Amazónia, através do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazónia (INPA) e o coletivo Manifesta Arte e Cultura, em Manaus, tem vindo a desenvolver uma proximidade com a sociedade, cultura e história brasileiras. Hoje, retorna à galeria que o representa no Porto, a Kubikgallery, após uma coletiva aqui realizada, em 2015, com o título Em Colectivo. Desta vez, instala-se sozinho no espaço e traz consigo o ar e a cor tropicais do Brasil. Até 1 de abril, apresenta-se, pela primeira vez, este magnífico espólio de Pedro Vaz que surge do seu mais recente, singular, complexo e sublime trabalho.
 



CONSTANÇA BABO