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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição
. Fotografia: A. Nicoli.


Vista da exposição
. Fotografia: A. Nicoli.


Angelo de Sousa, sans titre, 1974/75. Musée Calouste Gulbenkian, Collection moderne. Fotografia: Mário de Oliveira


Angelo de Sousa, Sans titre, 1987, Collection privée. Fotografia: Pedro Tropa.


Vista da exposição
. Fotografia: A. Nicoli.


Vista da exposição, série Les Umanistes
. Fotografia: Marc Lenot.


Vista da exposição
. Fotografia: A. Nicoli.


Angelo de Sousa, Slides de cavalete [Diapositives de chevalet], 1978/79 Collection privée.


Angelo de Sousa, Sem titulo (Mão) [Sans titre (Main)], 1975 Collection privée.


Angelo de Sousa, sans titre, 1985 Collection privée.


Angelo de Sousa, Pequenas esculturas (Orelhas), 1975 Collection Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto. Acquisition en 2003. Fotografia: Filipe Braga

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ARQUIVO:

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ÂNGELO DE SOUSA

ÂNGELO DE SOUSA, UN EXPLORATEUR DÉROUTANT




FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN – DELEGAÇÃO EM FRANÇA
39 bd de la Tour-Maubourg
75007 Paris

25 JAN - 16 ABR 2017


 
O artista português Ângelo de Sousa (1938-2011) é pouco conhecido fora do seu país. Se, enquanto jovem, estudou dois anos em Londres, depois disso pouco deixará Portugal, mantendo-se muito bem informado sobre os desenvolvimentos da arte europeia e americana, tendo sempre curiosidades artísticas muito ecléticas (arte bruta, arte vernacular, desenhos infantis,…). A sua prática cobriu uma ampla variedade de «mediums», pintura, escultura, desenho, fotografia, instalação, filmes experimentais. Depois de varias exposições retrospectivas da sua obra em Portugal, a Delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em França dá a oportunidade aos parisienses de descobrir uma parte do seu trabalho com a sua primeira exposição monográfica em França (até hoje só tínhamos visto o seu trabalho numa exposição colectiva no MAMVP em 1976) intitulada «La couleur et le grain noir des choses». O seu comissário, o professor de estética português residente em França Jacinto Lageira, limitou a escolha às pinturas e fotografias do artista, o que dá uma visão importante mas incompleta da diversidade do seu trabalho.

 

De qualquer forma a exposição abre num género híbrido, nem pintura, nem fotografia ou filme: trata-se de uma projecção de uma centena de diapositivos, ditos Diapositives de chevalet (1977-79), que encadeiam um após outro, metodicamente, composições de formas geométricas elementares, triângulos, rectângulos e círculos, com variações graduais das cores primárias: são potenciais telas, que poderiam ser um dia pintadas, mas que não são senão instantes, virtualidades, impressões luminosas e coloridas, que olhamos, entre fascinação e hipnose, sem chegar ao fim da centena. As construções cuidadas dos diapositivos «pré era informática» de Angelo de Sousa são hoje visíveis graças à sua passagem para DVD, já não têm muito de modernidade mas testemunham a inventividade exploratória incessante do artista.

 

Nas salas seguintes vêm-se algumas das telas do artista: é antes de mais a cor que surpreende nestes quase monocromáticos de ínfimas variações. Mas reconhecemos imediatamente formas, aqui também muito simples, alguns traços que constroem um espaço, talvez uma parede, ou um soalho, ou uma porta, ou um tecto: de modo algum uma descrição, expressão da realidade, mas um simples esboço, uma alusão do que poderia ser; não são verdadeiramente telas abstractas, puras composições mentais, há aqui um chamamento do material, do concreto, do físico. De modo algum uma materialidade da pintura, lisa e fina, sem que nada obstrua a relação com imagem, também não é um vasto jogo de variações coloridas e luminosas como nos diapositivos, mas uma discreta ligação ao real, como um eco dessas tábuas sobre as quais andamos ou a abertura nessa parede por detrás de nós.

 

Enquanto que as suas telas, supostamente abstractas, contêm estes elementos bem reais, as suas fotografias, que deveriam elas representar o mundo, encontram-se, pelo contrário, conduzidas pelo lado abstracto. Por certo a abstracção na fotografia é rara, visto que (em qualquer caso quando se utiliza um aparelho), a imagem não pode representar senão aquilo que está diante da objectiva, mas muitas das suas fotografias são, antes de mais, difíceis de decifrar. É preciso identificar alguns pêlos na sua pele e compreender aqui que, aquela forma serpentina quase viva, que passa do desfocado ao nítido é uma corda de roupa presa a uma parede. Muitos dos seus temas são assim coisas muito simples, muito banais, prosaicas, poeira, cabelos, teias de aranha, um lenço de papel. Uma peça vai ainda mais longe na abstracção, não é senão uma película raspada e aumentada, um testemunho da própria materialidade da fotografia e do gesto da mão do artista intervindo directamente nesta matéria.

 

A mão, justamente, é um dos seus temas prediletos, e toda uma sala é consagrada a este «utensílio» essencial a todo o artista, com desenhos a pastel, uma pintura e sobretudo um conjunto de fotografias da pele da sua mão como uma amostra ou atlas em grande escala. Se os pasteis compõem mãos irreais, mutantes e estilizadas, a série de fotografias é mais perto do real: cores cruas, pregas, linhas da palma da mão, toda uma geografia de montes e vales. Isto pode parecer banal hoje em dia, mas em 1975, a partir deste tema vulgar resulta nesta obra inovadora.

 

Acrescentamos a este conjunto pequenas esculturas, maquetas de projectos maiores, numa vitrina, para atenuar a ausência desta fase do seu trabalho, um conjunto divertido de pacotes de iogurte deformados para parecerem orelhas, belo exemplo da sua perpétua pesquisa de formas a fazer emergir, e alguns filmes curtos muito entrecortados (porque filmados em Super 8 a 5 imagens por segundo) onde se reconhece, nas imagens um tanto abstractas, o chão perante as seus passos, à medida dos seus passeios pela cidade, onde a suave luz da vegetação rasteira o campo, e então podemos dizer que quase compreendemos o artista: um explorador contínuo, um adepto das formas no limite da abstração, um descobridor da perfeita equivalência entre  «medium» e expressão, um navegador entre os «mediums», um multiplicador em série.

 

Mas depois não. Esta qualificação é demasiado rápida, demasiado reduzida, porque faltam duas séries de fotografias a ver, e que estas duas séries abrem uma perspectiva bem diferente, uma outra relação com o mundo, o que faz com que realizemos então que as ideias que pudémos construir até agora são demasiado limitadas para avaliarmos as investigações artísticas de Ângelo de Sousa. Se o trecho aqui apresentado da sua série intitulada Epiphanies desconcerta um pouco, um conjunto de cadáveres de animais, alguns num estado de decomposição avançado, descobertos no solo durante as suas peregrinações quotidianas, outra série, estranhamente intitulada Les Umanistes (sem H) ocupa uma pequena parede com uma vintena de pequenas tiragens reunidas de esguelha. Acontece que Ângelo de Sousa, que sempre teve um dedo no gatilho, realizou milhares de fotografias do mundo à sua volta, pessoas vistas da sua janela, árvores, paisagens, solos, ramos; mais que um catalogar deliberado do mundo, era uma pulsão obsessiva, um sonho inteligível. Portanto aqui não há mais do que uma pequena amostra da sua produção fotográfica, a qual se liga ao resto do seu trabalho (mais outros diapositivos, as quase abstracções e as mãos mencionadas anteriormente) de forma mais alargada, não apenas pela sua aproximação serial (que intervém aqui bastante à posteriori), mas sobretudo pela sua preocupação de explorar, de experimentar, de não se deixar constranger por nenhuma regra, de estar sempre aberto à descoberta, à surpresa. É um outro lado do seu trabalho, não tanto um subproduto dos seus trabalhos plásticos, mas um verdadeiro corpo autónomo, um alargamento que se inscreve num momento histórico, toda uma reflexão sobre o «medium» fotográfico para lá do documental, que teve lugar a partir dos finais de 1960, em particular com o trabalho fotográfico dos artistas conceptuais. Não tanto que Ângelo de Sousa pertença a esta corrente, mas estudar melhor a sua obra fotográfica permite melhor compreender a liberdade da sua procura experimental, que é a sua própria essência.

 

Este trabalho fotográfico acaba de ser objecto de uma bela publicação, Carnets d’Images, em francês e inglês, editado e apresentado por Sérgio Mah, pelas Editions Loco. Dois outros livros a consultar: o catálogo da exposição em francês com textos de Jacinto Lageira e Bernardo Pinto de Almeida, Nuno Faria, Rui Sanches, Jorge Molder, Sérgio Mah, João Pinharanda, Emilia Pinto de Almeida, e Leonor Nazaré; e o livro de Bernardo Pinto de Almeida, Ângelo de Sousa, Lógica da percepção, editado pelos laboratórios BIAL, em português e inglês.


[tradução do original francês por Inêz Teixeira]

 

Marc Lenot

Autor do blog sobre arte Lunettes Rouge.



MARC LENOT