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FILIPE MARQUES

FEEL IT, NO FEAR. THE FLESH YIELDS AND IS NUMB/TOCA, SEM MEDO. A CARNE É MACIA E NÃO SENTE DOR




GALERIA FERNANDO SANTOS (PORTO)
Rua Miguel Bombarda, 526/536
4050-379 Porto

14 JAN - 04 MAR 2017


 

 


Palavras e imagens, físico e fotográfico, visual, auditivo e sensorial, realidade e ilusão unem-se numa harmonia invulgar que cativa, ao mesmo tempo que inquieta, movendo o espetador que se permite a tal experiência. A assinatura é de Filipe Marques (Vila do Conde, 1976), um dos mais singulares artistas visuais portugueses, que apresenta, agora, a sua obra num prestigiado espaço expositivo do Porto, a Galeria Fernando Santos. Esta, situada na Rua Miguel Bombarda, em zona privilegiada do centro da cidade, submete-se a uma completa invasão e transformação por parte do mais recente trabalho do artista.

A galeria, habitada por uma luz natural que faz o seu caminho através das grandes montras e se projeta ao longo das paredes brancas, encontra-se desta vez perante uma proposta invulgarmente mais escura. O espaço passa a ser iluminado pela eletricidade da galeria e a que sai de cada obra de Filipe Marques, a partir de tubos de luzes néon. Este material, particularmente apreciado pelo artista, constrói e molda formas, figuras e letras em grande escala, por cima de imagens visualmente e tematicamente intrigantes.

Consolidando a qualidade do trabalho, acrescenta-se a colaboração de João Sousa Cardoso. Também ele criador nacional, junta-se a esta produção e, numa das obras mais marcantes da exposição, é a sua voz que ouvimos ler um poema escrito por Filipe Marques. Com um tom e ritmo marcantes e cativantes, expandindo-se pelo espaço numa determinação que lhe é própria, é-nos dito que "não toldemos mais os olhos com sucessivas braçadas, para que as nostálgicas víceras deles se cubram em memória".

O título Fell it, no fear. The flesh yields and is numb, apela ao contacto, ao físico, ao corpóreo. Pede o sentir, o expressar, e afasta-se do medo e da morte. Assim se anuncia uma exposição com intensa força de caráter e expressão.

Mais palavras nos são ditas, em cada obra, através das luzes néon, umas brancas e outras vermelhas, de um impacto visual enorme que compõem, certamente, um dos maiores e mais complexos trabalhos de Filipe Marques. Esta forma de construção artística relembra, para alguns, inevitavelmente, a utilização do mesmo material por vários dos maiores autores do nosso tempo, como o minimalista Dan Flavin ou Joseph Kosuth, de cuja forma de expressão e dinâmica conceptual, sobretudo deste último, se aproxima particularmente o trabalho sobre o qual, hoje, nos debruçamos. Através da compreensão desse grande artista esclarece-se o sentido empregue pela patente utilização de palavras. Com Kosuth, a arte devolve à palavra um poder linguístico que não é literal, sendo, aqui também, proposto observar e receber as inscrições do texto de um outro modo que não o mais evidente.

Filipe Marques aborda a questão da palavra e do seu sentido, defendendo que, para si, "não há arte nenhuma, nem mesmo as literárias, que sejam uma linguagem". Sabemos que a arte foi linguagem enquanto a segunda estava inscrita na primeira, como nas legendas descritivas de obras de arte, e, nessa medida, era a significação da representação. Possibilitando-se uma distinta situação e dinâmica, libertamo-nos de qualquer obrigatoriedade de sentido pois, tal como Kosuth explicou, "texto sobre obras de arte é experienciado de forma distinta do que texto que é, ele mesmo, uma obra de arte". No caso do trabalho de Filipe Marques, é-nos proposto o segundo entendimento, para que, através da utilização arrojada e contemporânea da palavra, a arte se processe como arte ela mesma, arte pela arte. Assim, no trabalho deste artista contemporâneo não há um uso da palavra como motor de comunicação, mas sim de expressão, criando e adquirindo a sua própria linguagem.

Por sua vez, Wittgenstein defendia que o sentido das palavras dependem do contexto em que ocorrem, sendo isso importante para compreender o que nos é apresentado neste trabalho artístico. É preciso, então, considerar os desenhos que se anunciam atrás das letras néon e o próprio contexto expositivo que reclama por uma experiência estética do espetador. Assim, as palavras saem de si mesmas e expandem-se pelo espaço, para serem livremente interpretadas e compreendidas por cada um, em relação à sua experiência vivencial e à experiência estética, visual e sensorial na exposição. É-nos feito o convite a entrar num universo de jogos de linguagem, de cruzamento de plásticas e práticas artísticas onde o limite não se esgota no imediatamente recebido mas prolonga-se, mentalmente, em cada um de nós.

Surgem também palavras em inglês que não estão iluminadas, tanto na direção correta como invertidas. Dificultam-nos a sua compreensão e desafiam-nos sugerindo um quase infinito de interpretações. Os desenhos a grafite e carvão e o vídeo que se revelam são peculiares, pertencentes a um universo sombrio, cinzento, dramático, de cenários quase cinematográficos que representam não-lugares carregados de histórias humanas. Tal como a voz de João Sousa Cardoso se faz ouvir pela galeria, são espaços vazios, "onde não estava, como um eco entre ecos".

Pedro Marques Pinto sugere no texto que produziu para a exposição que o trabalho apresentado seja entendido como um tríptico, na medida em que é a continuação de pesquisas passadas e criações do artista, uma fase exposta no Espaço Mira, A Carne que os Guindastes Suspendem (2015), e uma anterior em Londres, no âmbito do Bermondsey Art Project, intitulada de Art Stabs Power Qué se Vayan Todos (2014). Este foi, por sua vez, o seguimento de uma exposição coletiva no mesmo ano, na Plataforma Revolver, em Lisboa, sendo este apenas um caso entre os numerosos realizados em Portugal. Ainda se acrescentam as exposições em várias cidades estrangeiras, como Macau, Pequim e Florença, solidificando-se a diversidade e o progresso do curriculum do artista.

A relevância desta mais recente exposição vem também do propósito que Filipe Marques lhe atribuiu, de provocar e produzir sensações no espetador. O artista esclarece que, para si, a sensação estética não é percepção nem emoção em sentido corrente, mas sim um afecto, apresentando sempre uma ligação com algo real. É deste modo afetivo, profundo e genuíno, que a obra se aproxima de nós. Representativa mas abstrata, reside algures num imaginário que prolonga o real para um quase infinito de leituras, interpretações, linguagens e significados. A pluralidade das vozes que ecoam do trabalho é imensa, densa, ampliando a obra, o artista e nós próprios.

Além da sua expressão arrojada e marcante, a exposição contribui para o propósito do galerista Fernando Santos em traçar uma "linha de exposições capaz de continuar a atender à produção de alguns dos mais significativos artistas portugueses surgidos nas ultimas quatro décadas". Deste modo, impõe-se aproveitar os últimos dias, até 4 de março, para visitar este singular universo de Filipe Marques.



CONSTANÇA BABO