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EXPOSIÇÕES ATUAIS


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Vista da exposição. Fotografia: Carlos Azevedo


Still do filme I gave my love a cherry that had no stone (2016).

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EMILY WARDILL

MATT BLACK AND RAT




FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna, 45 A
1067-001 Lisboa

02 JUN - 28 AGO 2017


 

 

Matt Black and Rat, de Emily Wardill, coloca-nos numa posição difícil, enquanto espectadores. A tragédia, o horror e o desespero materializam as condições para a construção de uma instalação de obras plásticas, que, por sua vez, nos remete para outras duas novas obras cinematográficas – Trace of Accelerator (2017) e I gave my love a cherry that had no stone (2016).

Em Trace of Accelerator (2017), obra realizada para esta exposição, numa parceria entre a Bergen Kunsthall, Noruega, e o Museu Calouste Gulbenkian, Portugal, ecoa um «misterioso incidente» ocorrido numa pequena cidade francesa, Moirans-en-Montagne, nos meados dos anos 1990. Uma série de incêndios espontâneos, cuja proveniência permaneceu inexplicável durante algum tempo.

Em torno da tragédia, o trauma da comunidade deflagrou em superstições, o que levou à curiosidade científica e consequente um “estudo de caso” por parte de Marc Poumadère e Claire Mays, no Institut Symlog, em França.

O trauma psicológico modela a improvisação das «entidades» na obra artística, que desconstrói o enredo dos actores e dos objectos. As personagens tornam-se arquétipos físicos e psíquicos do mundo real e imaginário, do terror e da tragédia.

Entre a palavra e a imagem, a ficção e a veracidade, a artista Emily Wardill encena um ambiente paranóico, caótico e imprevisível, de modo a lançar o observador para o trauma, para a tragédia, para o desespero e para o medo. A percepção sensorial instiga as emoções ao limiar da condição humana. O comportamento, o gesto e a palavra produzem ecos energéticos como se fossem peças desconcertantes: máquina e homem, mulher e homem. Os três actores/corpos desfragmentam-se e deslizam como impressões trágicas, que se dissipam no fumo.

A morte.

Em Wardill, o fogo é catalisador. As personagens descentram o “texto-narração”, abolindo-o. O corpo e a mente fundem-se e desmembram-se. As personagens passam a ser o terror. Do terror para o terror, desmembram-se no espaço, desvanece a matéria. Passando para o espectador. Vivencia o processo, numa espécie de transformação. Relembra-nos, em certo modo, o que Erika Fischer-Lichte (2004: 332) constatou em Samuel Beckett:

«His modus of time is a time of end, his modus vivendi, increasing fragmentation, reduction and dismemberment with no possibility of an end – the pre-condition of rebirth. The modus of his perception and reception, however, is neither prescribed nor fixed; it is handed over to the spectators themselves.»

Soa a palavra em imagem e a imagem em palavra. Projecta-as para dentro do espectador, deixando de existir apenas no seu interior. O drama e o terror.

Em Matt Black and Rat, revela semelhante desconforto de incomunicabilidade entre imagens e objectos numa estética de terror e de mal-estar, que se transmuta no fogo. As obras escultóricas, «camisas a sair das paredes», e «fotogramas feitos de luz» aparecem-nos como se fossem peças de «origami e semifantasmas», tal como diz a própria artista na entrevista para a Gulbenkian. Em contraponto, temos as palavras. Criando, assim, um movimento e um fluxo entre elas, a imagem e a palavra. O gesto e o som. Num todo.

Na obra I gave my love a cherry that had no stone (2016), filmada no interior do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, revela uma dicotomia cinematográfica, entre o “movimento-imagem” e a performance, que desconstrói o corpo. Desta forma, Emily Wardill cria uma «eventstructure». Assim, relembramos a artista: «O filme debruça-se sobre a relação entre uma câmara e uma pessoa que se assemelham – a câmara tem um carácter humano e a pessoa tem a tecnologia da máquina».

O movimento corporal criado pelo bailarino David Marques assume, então, uma outra relação com a camisa branca de homem, concebida por uma experiência da impossibilidade de se materializar. A obra corporaliza-se no espaço. Numa “anticorporalidade”, o corpo passa a ser outro, irreal. Um anticorpo. Salientamos as suas palavras: «na ideia de uma coisa querer ser outra coisa (…), é sobre um homem que não quer ser real.»

 




JOANA CONSIGLIERI