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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Galeria Municipal do Porto


Vista da exposição. Fotografia: Galeria Municipal do Porto


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COLECTIVA

QUATRO ELEMENTOS




GALERIA MUNICIPAL DO PORTO
Palácio de Cristal Rua D. Manuel II
4050-346 Porto

01 SET - 12 NOV 2017

A Galeria Municipal do Porto é ocupada pelos Quatro Elementos

 


A água, a terra, o fogo e o ar são os quatro elementos fundacionais, com significados e expressões distintos consoante as culturas e os povos. Objeto de estudo de grandes pensadores, desde logo dos filósofos da antiga Grécia, suscitam possibilidades ilimitadas de reflexão nos domínios da filosofia, da religião, da ciência e da arte. Neste último campo, os elementos naturais, ao longo do tempo e dos mais variados contextos, foram tratados e manifestados de modos bem diversos. Hoje, nesta conturbada e agitada contemporaneidade, vale a pena, convocar a matéria e refletir sobre o início, sobre a natureza e a formação de tudo.

Os quatro elementos são frequentes pontos de partida ou referências formais e visuais para a criação artística. Tal ocorre, por um lado, de forma evidente, como em The end was coming, so there were some quiet goodbyes (2006), de Nuno Ramalho, em grande escala e proporcional impacto visual, característica própria ao elemento natural que figura, o fogo. Por outro lado, as relações que se criam nas criações artísticas podem ser subtis ou mesmo concretizadas a um nível metafórico, apelando a um sentido mais profundo, como na obra da incontornável escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner. Ora, nesta exposição, encontramos espaço para celebrar os vários casos e, acima de tudo, a produção artística contemporânea na sua pluralidade.

Como os quatro elementos se distinguem, entre si, dotados cada um de especificidades singulares, são representados ou incorporados de modos, também eles, muito próprios. É neste sentido que a proposta que é lançada na Galeria Municipal do Porto é atribuir a cada elemento um curador.

Para começar com grande impacto, inicia-se a visita numa área onde predomina o contraste. A representação do elemento mais leve é concebida através de um espaço denso, profundo e negro. O elemento evocado, o ar, sendo invisível, é materializado por imagens, desenhos, objetos e palavras que lhe dão forma, cor e estrutura visível. Como Nuno Faria explica, a procura de representar o que não se vê constitui, precisamente, uma das mais antigas aspirações dos artistas. Considerando que o ar será um dos elementos mais desafiantes, é com distinta inteligência que este se encontra evocado. Poderá destacar-se a obra de Nicolau da Costa, Sentinela (2014), em que se vê um objeto, a partir de uma estrutura de colmeia desmantelada e em parte queimada, ao mesmo tempo que se ouve o som de abelhas, naturalmente invisíveis mas totalmente representadas pelo seu contexto e pela força do áudio. A intervenção do curador ocorre, assim, assente numa ideia utópica da união de sentidos, matérias, arte e energias que compõem o nosso mundo.

Como que alimentando-se do ar, de um modo que lhe é habitual, surge o elemento fogo, pela mão de Pedro Faro. Esta é, de toda a exposição, a área mais frontal e visual. Em espaço aberto, distribui-se uma profusão de obras que nos incendeia a visão através de múltiplas formas e conceitos que suscitam variadas análises e interpretações. De todos os objetos expostos, alguns destacam-se por um acrescido interesse conceptual, entre os quais FOGO! (1976), do Teatro de Pesquisa Comuna, onde o fogo é a ação e a manifestação do povo.

Após tal multiplicidade imagética e formal, a proposta de Eduarda Neves avança num outro sentido do plural: o da cultura, da filosofia e de toda a existência. Surge, então, uma área da galeria mais perceptiva e incitadora de uma maior experiência visual, em relação com o elemento terra. E, se tal como Wittgenstein explicou, o significado das palavras se altera consoante o contexto em que são empregues, a proposta apresentada suscita uma abertura do pensamento à reflexão. Afastando-se da imediata acepção da terra enquanto matéria, a curadora propõe, em primeiro lugar, o entendimento do planeta Terra como integrando o cosmos e, numa dimensão cosmogónica, enquanto Gaia separada do céu, Urano, ocorrência a partir da qual teria nascido a dinâmica do espaço e do tempo. Nesta lógica, a Terra passa a integrar, em si, os múltiplos elementos. Com base somente no trabalho de dois artistas, Aki Nagasaka e Sérgio Leitão, Eduarda Neves propõe representar o sentido de pluralidade e as inúmeras possibilidades da palavra terra, desde o elemento que esta traduz até à sua forma enquanto expressão artística. No caso da obra de Sérgio Leitão, Beyond Parallel Park II (2017), concebida para esta exposição, somos verdadeiramente absorvidos pela informação visual que nos atinge com a força da matéria que, negra, se afirma no espaço de forma avassaladora.

Aqui, somos incitados a pensar a heterogeneidade das práticas artísticas contemporâneas como proporcional à que compõe o mundo e o homem, sendo este último encarado tanto como ser social como parte integrante da natureza. E, assim, o campo artístico e a força do elemento abre-se e expande-se numa energia que se propaga à restante exposição.

E, se toda a expressão da arte também integra este nosso cosmos, para Sophia de Mello Breyner é na poesia que se encontra a explicação com o universo, a convicção com as coisas e a participação no real. A grande escritora e poetisa sempre confessou uma preocupação com o sentido da natureza, do homem, da relação entre ambos e do lugar que ocupam no universo. Como tal, a poesia é, sem dúvida, uma outra expressão artística que deve ser trazida a cena nesta ocasião. Ora, sendo precisamente a Sophia de Mello Breyner homenageada nesta exposição, em conjunto com a atual Feira do Livro do Porto, Ana Luísa Amaral faz das palavras desta sublime escritora, a sua atuação curatorial. Sendo também poetisa, é com precisão e requinte que utiliza excertos de textos ou poemas na íntegra para nos acompanhar e conduzir ao longo do percurso de toda a exposição, demonstrando como as conceituadas construções literárias são dotadas de fluidez, harmonia e movimento que se adequam à representação do elemento água. Relacionando-se e interagindo com as obras mais visuais, a poesia é incorporada de um modo que aproxima, une, acompanha e completa toda a exposição.

Quatro Elementos, com obras assinadas por um total de 39 artistas, é, acima de tudo, um exemplo da curadoria como ação artística. Nomeadamente pelas mãos de Nuno Faria e Eduarda Neves, torna-se claro como a conceção da exposição em benefício da receção da arte por parte do espetador constitui uma dimensão acrescida não só ao todo expositivo como às obras que individualmente se apresentam.

Para dar continuidade às reflexões aqui sugeridas, será lançado um livro no qual se encontrarão presentes os quatro elementos em forma de ensaios assinados por cada um dos seus respetivos curadores. Nele também irão participar outras personalidades relevantes da nossa esfera cultural.

Entretanto, desde o dia 1 de setembro que a exposição se encontra aberta a visita, constituindo mais um exemplo da qualidade da Galeria Municipal do Porto e do seu constante empenho em desempenhar um papel decisivo na programação cultural da cidade.



CONSTANÇA BABO