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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Cafe Lehmitz


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Cafe Lehmitz


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ARQUIVO:


ANDERS PETERSEN

CAFÉ LEHMITZ




CENTROCENTRO
Plaza Cibeles, 1
28014 Madrid

31 MAI - 17 SET 2017


 

“Aqui estamos sozinhos outra vez. É tudo tão lento, tão pensado, tão triste... Em breve serei velho. E por fim terá terminado. Veio tanta gente ao meu quarto. Falaram, Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Tornaram-se velhos, miseráveis e lentos, cada qual num canto do mundo.”

Assim iniciava Ferdinand Céline a sua obra “Mort á crédit” (1936), e o meu querido João César Monteiro na génesis do seu autorretrato e heterónimo João de Deus no filme “Recordações da casa amarela” (1989). Essa atmosfera de desastre do indivíduo, ou o adeus da alma humana ante o crepúsculo, é a que nos oferece a obra de Anders Petersen, que pudemos disfrutar na PhotoEspaña na sala de exposições CentroCentro de Madrid. “Café Lehmitz” é a sua primeira obra, o começo de uma carreira que aprofundou principalmente os excluídos. O trabalho de 1967, quando ainda Anders Petersen estudava na escola de fotografia de Estocolmo, foi o detonador não só de uma série fotográfica pessoal e directa na hora de abordar o final dos que procuram um lugar na noite, mas serviria como guia de estilo para posteriores imagens profundas, o primeiro encontro do fotógrafo com o seu olhar, instantes repletos de sinceridade que Petersen não abandonaria mais. Desde esse primeiro contacto com a vida, o fotógrafo sueco mergulhou na alma humana com honestidade e sem julgar. Mais do que o trabalho de um fotógrafo, este é o trabalho de um antropólogo e um naturalista.

 

Cafe Lehmitz

É o princípio do caminho. O jovem Petersen de 23 anos chegou ao local com um amigo depois de lhe fecharem o “último” bar. A primeira noite desta aventura em Hamburgo que marcaria toda uma vida. Lehmitz era um clássico que estava toda a noite aberto até ao dia seguinte. Era outra coisa, um canto que servia de lar para todos os que por ali apareciam, ou melhor, se recluíam da humilhação de viver. Mas o Café Lehmitz, em vez de ser um espaço escuro, era uma festa da vida, o lugar com mais humanidade por metro quadrado que tinha sobrevivido a uma brutal pós-guerra alemã. Muitos dos que por ali pululavam eram sobreviventes da devastação nazi. Eram verdadeiros sobreviventes do desastre moral do nazismo. Petersen encontrou um diamante em bruto da vida, um manancial de instantes. Olhou e agarrou a sua Nikon F, começou a fazer fotos, sentado, com uma cerveja, observando o enorme baile da vida que ali se precipitava entre tragos... Num momento de despiste, deixou a máquina sobre a mesa até que alguém começou a brincar com ela. Esse foi o começo de uma viagem fotográfica de três anos.

Entrar nesse espaço de imagens saturadas a preto e branco, na sala do quinto andar do CentroCentro de Madrid (o espaço de exposições da actual Câmara Municipal de Madrid) foi entrar num mundo onde o humano se exprimia a golpes de momentos sem pudor. Um cúmulo de olhares assombroso onde o carnal e o espiritual se unem de forma sublime. Talvez não haja uma exposição fotográfica onde se possa sentir de forma tão directa, tão táctil, essa sensação de estar a contemplar a humanidade inteira, em toda a sua expressão, num reduzido espaço de mundo. É o conjunto de excluídos, e a força dos sentidos e emoções tão evidente, que esse grupo de bêbedos, agarrados, delinquentes, proxenetas, putas e paneleiros que encontrou Petersen no Café Lehmitz, expressa todos os estados do humano a partir de uma descarnada honestidade.

Esses instantâneos brilhantemente captados por um jovem fotógrafo – era um estudante -, ao contrário do cinismo de um Céline no livro “Viagem ao final da noite – Voyage au bout de la nuit” (1932) – são sinceras porque vividas, sentidas e queridas. Tudo nessa torrente de imagens resulta comovedor. Esse bar, a máquina de discos e música... os vícios, toques, beijos, mãos que buscam peitos e vaginas... carne. Mas para lá de todo esse jogo de corpos, esse canto era um espaço onde a humanidade procurava ternura, calor e compreensão. No Lehmitz nasce aquilo que posteriormente aprofundará nos seus trabalhos, essa decadência do peso humano. Sim, isso que Céline mostrava por descrédito cínico a toda a ordem humana, e que contudo aquilo que Charles Bukowski vivia como uma inevitabilidade e prazerosa leveza. O sexo é divertido, beber é necessário... humilho-me constantemente todos os dias ao levantar-me... se fosse mulher seria prostituta.

A forma de tratar essa imagem sempre a preto e branco será a técnica de trabalho das suas futuras fotografias, muito saturada e com uma trama suja, de grão amplo, dotando o seu olhar de um expressionismo que enfatiza o instante humano captado. A vinheta da imagem também potencia a profundidade do centro da imagem e portanto o momento captado. Esse momento em Lehmitz estava sublinhado, como com um marcador preto, esse instante imponente de humanidade, até provocar as lágrimas.


A profunda necessidade humana

A obra completa de Anders Petersen é de uma humanidade sublime. Sob a exclusão encontramos umas imagens que não são pessimistas, são clementes com a dor e sobretudo com a leveza humana. Nessas imagens não há humilhação, há uma enorme bondade. E são reais, não há hipocrisia. São olhares cúmplices, há realmente amor pelo humano porque têm alma.

As fotografias de Petersen mancham-nos com a vida, empapam-te porque te misturas com ela (Ramona, uma das personagens retratadas de Lehmitz, seduz-te e; Gretel pede... em golfadas, amor, sexo... carícias). E assim é o seu olhar que se tinge de claro-escuros quando se estampa no papel positivado. Os corpos retratados estão todos eles suplicantes de amor – na maioria das ocasiões é o abraço o que os sacia – outras o peito de uma mulher ou a sua entreperna. A série de fotografias de “Saint Etienne” (2005) ou “Paris” (2006), onde literalmente capta as silhuetas confundidas do amor no leito, nos entregam umas estampas repletas de abandono, de trégua naqueles corpos que suplicam procurar-se.

Em todas as suas séries fotográficas mostra-se o olhar que surgiu no Café Lehmitz... “Dumich auch” 1967-1970, “Gröna Lund” 1973, “Mental Hospital” 1995, “Okinawa” 2000, “Close Distance” 2002, “Paris” 2006... A figura humana é omnipresente, os retratados expressam uma profunda exaltação do ser sob qualquer manifestação (bondade, dignidade, entrega...), e é a forma de tratar a negritude dessa fotografia uma assinatura pessoal inconfundível que nos assalta o olhar. Os cães abandonados também são uma figura que Petersen aborda nas suas imagens, solitários ou acompanhados, tranquilos ou em acção, são uma outra forma de expressar a alma, de alguma maneira, de todas as criaturas que como as humanas sofrem e sentem. Essa ideia de cães vagabundos sobrevoa a imagem da humanidade inteira, é uma metáfora do passeio, na maioria do tempo duro, pela vida. Esse símbolo soube-o captar Tom Waits no seu álbum “Rain Dogs” (1985), um disco marcado pela imagem de Anders Petersen e o Café Lehmitz. A humanidade inteira como um cão magoado e solitário, empapado pela chuva, procurando amor num bar no meio da noite. E é aí no regaço de uma mulher, a cabeça sobre o seu peito, o único momento de trégua no mundo.

Inside a broken clock
Splashing the wine
With all the rain dogs
Taxi, we'd rather walk
Huddle a doorway with the Rain Dogs
For I am a Rain Dog, too

Porque também sou um cão à chuva

“Rain Dogs”, Tom Waits



ALBERTO MORENO

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