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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Azul do céu a 0 m, 20.000 m, 30.000 m e 38.000 metros acima do nível do mar (2015), Márcio Vilela. Fotografia do artista.


Fotografia da inauguração onde aparece a obra Azul do Céu a 0m, 10.000m, 20.000m, 30.000m e 38.000m acima do nível do mar. Fotografia: João Serra de Almeida


Estratosfera a 38.000m de altitude, Impressão jacto de tinta sobre papel de algodão, 136x175cm


fotografia da inauguração onde aparece a obra Estratosfera a 38.000m de altitude. Fotografia: João Serra de Almeida


Destroços do balão a 38.000m de altitude, Impressão jacto de tinta sobre papel de algodão, 104x84cm


Destroços do balão em terra, Impressão jacto de tinta sobre papel de algodão, 109x96cm

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OCUPART CHIADO
Calçada do Sacramento, 11
1200 Lisboa

14 SET - 13 OUT 2017

CINQUENTA TONS DE AZUL

 
É um trabalho bastante estranho aquele que o artista Márcio Vilela, brasileiro a viver em Portugal, apresenta (até 13 de outubro) sob a égide da Ocupart, num apartamento do 4º andar do Consulado (e é muito mais interessante que a exposição de fotografias photoshopadas lá apresentadas). Estranho porque poderia simplesmente ser, não uma exposição artística, mas a apresentação de uma investigação científica: qual é a cor do céu? Os eruditos dirão que o céu é azul porque essa é a frequência luminosa na qual as moléculas da atmosfera difundem mais a luz do sol (se bem compreendi). E durante séculos, os pintores tentaram produzir esses tons de azul; os holandeses do século de ouro, banhados na sua luz húmida, foram os primeiros mestres nisso. Mas pintores e fotógrafos sempre foram muito mais fascinados pelos céus nebulosos, tormentosos, cinzentos e brancos: assim os famosos “Equivalents” de Stieglitz ou as composições temporais de Jacqueline Salmon. Para agradar ao artista, a pureza cerúlea é demasiado vazia, demasiado uniforme, e deve ser povoada de nuvens ou de estrelas.

 

Ele, Vilela, quer apenas um céu puro, mas quer isso em toda a sua diversidade, toda a sua profundidade, todas as suas nuances de azul: o seu projeto consistiu em prender aparelhos fotográficos e câmaras a um balão sonda que é elevado a 38 000 metros antes de explodir. Os milhares de fotografias do céu foram assim realizadas, a rarefação da atmosfera traduziu-se num escurecimento da imagem: é um Pantone de azuis que temos ali, mais rico do que qualquer catálogo de cores. O artista selecionou algumas imagens, da mais azul ao nível do solo à mais sombria no ponto mais alto da trajetória; no topo, sem atmosfera, é um negro de ausência que reina. Chegado a 38 km, o balão explode e a foto desse instante mostra o invólucro em farrapos em redor do núcleo. Os aparelhos descendem no final de paraquedas, e Vilela recupera-os.

 

Ponto de ruptura do balão a 38.000m de altitude, Impressão jacto de tinta sobre papel de algodão, 52x77cm

 

É um trabalho obsessivo de investigação, um processo que move o autor, porque (um pouco como Müller-Pohle) a máquina tira as fotos automaticamente e o artista seleciona de seguida, uma inversão da regra clássica: escolher o enquadramento do ponto de vista para fotografar. O artista não é mais um fotógrafo, no sentido de fazer fotografias, ele é o criador e organizador de um processo quase científico que leva a resultados visuais áridos e refinados. Este projeto é um pouco um beco sem saída: abandono de toda a pretensão estética para privilegiar o único programa. Os trabalhos anteriores de Vilela tinham a ver com a paisagem, que ele via um pouco como um espelho de si mesmo, e já tinha sido fascinado por outras imagens incertas, as névoas dos Açores, encobrindo quase toda a paisagem no cinza nebuloso das nuvens, o oceano visto de cima ou o "white out": uma maneira, já, de privilegiar o olhar sobre o visto.



MARC LENOT