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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.


Vista da exposição. Fotografia: cortesia Tiago Madaleno e José Costa.

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ARQUIVO:

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TIAGO MADALENO

NOVO BANCO REVELAÇÃO 2017




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

17 OUT - 07 JAN 2018

Cabeça, torso, pernas, passos, sobre a exposição Clepsidra de Tiago Madaleno

 

Contaram-nos que não podíamos morrer – que não seríamos capazes de morrer - que havia qualquer coisa em nós que permanecia. Especiais. Mas o mundo desfez-se, e desfaz-se depois de se ter desfeito; revolveu-se. Maturámos na mesma medida em que morremos. Talvez tenha sido nesta compreensão que assimilámos o potencial das narrativas. Contaram-nos que não podíamos morrer e nós contámos que para morrer era preciso abandonar a nostalgia. Os nostálgicos nunca morrem.

Mas as grandes narrativas faliram e, morrendo ou não, o rumo já não tinha um modelo. A universalidade desfaleceu e na sua queda, vislumbrou-se a possibilidade de volver a narrativa para dentro, e construir mundo por narrativas pequenas. Pequenas mesmo que épicas.

“Não é o conhecimento que supera a ignorância, é o movimento.” [1], então para onde continuar a andar?

Tiago Madaleno, com Clepsidra, uma exposição-conjunto que é um pensamento lúcido, alienante e contínuo que reflecte sobre a condição da Imagem no Tempo (uma imagem e um tempo sem origem), cruzando métodos, meios e abordagens dando lugar a um todo de pensamento (neste caso, a exposição) dá-nos uma resposta à pergunta que talvez nunca tenha formulado.

Para onde continuar a andar? O melhor é andar em círculos.

E se lhe perguntarmos se o pensamento está acorrentado às pernas, a peripatética personagem dos slides (em Pernas) – que é o Tiago, ele mesmo -, carregando uma enorme máquina que constrói e destrói imagens e faz brilhar o caminho até ao mar, responde-nos que sim. Às pernas e às máquinas.

E caminhar pode ser construir a luz? O melhor é estar atento ao mar.

Talvez alguém lhe tenha também contado que a pintura também já tinha morrido, e ele sentiu a morte da pintura como a sua própria morte e perguntou-se “Como morrer agora que estou pronto a saltar de um abismo?” e então saltou. Foi o começo. No começo, o salto para um mundo paralelo, que é vontade de vontade de encontrar um solo em que morrer seja um possível compactuante com o renascer a cada gesto (a Imagem que se destrói, a Imagem que se constrói) e então o gesto abraçou simbolismos e ligações narrativas para que morte e salto e abismo e queda e vida-inteira pudessem coexistir e auto gerarem-se.

Eu dou um passo. O melhor é dizer que um passo gigante foi dado por aí.

A Viagem (estudo de movimentos), conjunto de desenhos que, dentro do estudo de movimento, do movimento do corpo engrenado com a máquina e, juntos, movimentos de uma máquina de produzir mundo (com)possível e não alternativo. Ficcionar dentro da própria realidade. Num dos desenhos lê-se: “ Após o passeio, no final de cada sopro teria que visitar um paralelo da rua e substituí-lo por uma réplica em sabão com uma imagem. Com as chuvas o paralelo seria levado até ao rio, perdendo-se assim a imagem anterior (fim do constrangimento anterior), mas perdendo-se também uma pedra que compõe a cidade. “ Perde-se e ganha-se ao traduzir a própria vida, o próprio mundo.

E se, com Walter Benjamin, pensamos a tradução como um processo de manutenção de intenções, ou seja, considerando a tradução como um movimento que guarda as potências do próprio texto original numa nova língua e que não deveria ser considerada pelo seu grau de verosimilhança; podemos também ver esta exposição como um exercício de tradução. Aliás, uma tradução de traduções.

Aqui já não a vida e o mundo representado mas o próprio mundo traduzido noutro mundo (mantendo a capacidade de expansão de um mundo dito original, ou real), documentado e depois de documentado, voltado a montar num mundo (ou Imagem de mundo) de imagens. Imagens que constroem outros planisférios e criam outros planos de imanência que já não o primeiro do mundo criado, nem o do anterior mundo original: dentro deste mundo-outro uma potência associativa (traduzida) que cruza, descruza e rompe as próprias narrativas criadas inicialmente em prol desta possibilidade de outras se auto-gerarem na leitura. E assim, novamente, o movimento inevitável de criação e desaparição, em paradoxal harmonia. E a presença da morte, para que nos lembremos que até morrer pode ser falso. Ou documento. Ou potência. Ou tudo.

Também esta exposição, em relação ao Acontecimento – do qual toda a exposição é projecção, antecipação e documentação -, é uma perda e um ganho. “The line between the Happening and daily life should be kept as fluid and perhaps indistinct as possible” disse Kaprow, e Madaleno cumpriu-o, alimentando o mito com palavras e textos e imagens já depois do acontecimento-mito em si.

“Doze pessoas confirmam ter visto aquele rastilho luminoso descendo até ao mar.
Sete pessoas falaram de crianças, grupos de crianças que seguiam correndo atrás de um caminhante, dançando perante o teatro de sombras que acontecia nas suas costas.
Três pessoas afirmaram, de forma convicta, que aquele homem caiu no chão com alguma violência, que levou com o peso todo da estrutura, ferro e alumínio e vidro, que ficou totalmente encharcado, sem se conseguir levantar.
Três pessoas pediram desejos.
Uma pessoa seguira-o, sozinho: não, não havia crianças nenhumas, era tarde, 4 da madrugada, não é muito costume ver um indivíduo naqueles preparos, numa procissão particular, segui-o até ao fim, até tirar a mochila, desapertar o mecanismo, limpar o rosto, eu vi tudo, apesar do escuro, até desaparecer com a onda. Assustei-me, pensei chamar a polícia. Pensei em bruxaria. E vi-o olhar para mim. Levantando aqueles olhos, dirigindo-me aquela caixa, cheia com água salgada.
Duas pessoas viram um assaltante roubar um homem, levou-lhe tudo, a mochila, a água, os sapatos, e depois prosseguiu, até ao mar, enquanto olhava para trás.
Cinco pessoas falaram de uma mulher que caminhava, com uma lanterna e um livro, lendo em voz alta, sempre a descer, até ao mar, bem cedo, deveriam ser seis da manhã.
Uma pessoa disse que não acreditava." [2]

É impossível falar do corpo de trabalho (e corpo, assim como trabalho, são sem dúvidas palavras importantes nesta obra e nesta exposição) de Tiago Madaleno sem estar absolutamente disponível a aceitar novas regras de mundo: esta ilusão de verdade, de realidade, de humor... são ficção ou criação de novas existências? E haverá alguém tão louco capaz de acreditar nestas histórias fantásticas e ainda assim possíveis? Ou com_possíveis?

A loucura é mesmo já estarmos em vida. O melhor é continuar a andar.

É nos dado a ver um mundo com regras paralelas e com tantos pontos em comum que já não sabemos se podemos também pertencer a este sistema de códigos e de simbolismos – que nos são em grande parte pertença cultural colectiva - e que Madaleno recupera, recorta e rouba, como grande-pequeno narrador e artista.

Se a potência se perde quando se entra no museu? Se o museu congela o que a própria pesquisa dinamiza? Acho que serão perguntas que podem estar presentes quando somos confrontados com uma entrevista do autor desta exposição no mesmo espaço em que a exposição se apresenta e a sua postura é tão lúcida que é nervosa, é tão nervosa que é louca. Só podemos acreditar que a própria vida é a própria obra. E que existir no mundo com um chapéu e andar até à foz para libertar a Imagem, é aí. Existe aí nesse limbo vida-obra: nesse gesto que não procura aplausos, mas apenas se constrói. Construções com o tempo necessário para que o épico-fim-trágico chegue (e não chegue nunca mais), porque até lá um corpo nostálgico fica e alimenta outras potências, conta outras narrativas a partir do desconhecimento (do não-movimento, portanto): dos objectos, das obras.

Os objectos a contaminar as imagens a contaminar a vida a contaminar a representação da vida a contaminar as leituras a contaminar os objectos a contaminar as narrativas a contaminar como um vírus a contaminar como uma semente a semear uma imagem a semear uma narrativa a semear em vida representações de sementes de vida a contaminar os objectos

O rumor já se fez.

 

Catarina Real

 

:::

Notas

[1] José Maria Vieira Mendes. Arroios. Diário de Um Diário

[2] Tiago Madaleno. Clepsidra – Imagem, Documento e Acção

 

 



CATARINA REAL