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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte


Vista da exposição. Fotografia: Joana Duarte

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HUGO CANTEGREL

ONE DAY IT WILL ALL MAKE SENSE




FOCO
Rua da Alegria, 34 R/C
1250-007

02 NOV - 28 NOV 2017

Um dia torna-se um dia, e assim sucessivamente

A narrativa autobiográfica, é-nos dito no texto que introduz a própria exposição, é a base do trabalho de Hugo Cantegrel. Mas se a base é a vida de onde o próprio artista existe (e existiu, numa referência a uma infância), essa lembrança e nostalgia (que o mesmo texto refere) parece diluir-se em duas outras narrativas; a narrativa histórica, referente à própria arte (quase sempre inevitável, por contágio e referência) e a narrativa colectiva, eventualmente geracional. Há ainda uma outra narrativa que emerge, a que a própria exposição encerra (e que ressoa esta possibilidade da narrativa colectiva evocada), apontando, de obra em obra, momentos congelados na sua própria evocação ou representação. Uma espécie de teatro sem voz em que os objectos assumem posição de cenário e de personagem e de que as frases, inscritas nas gravuras a seco às quais dão também o título (I've had a lot of experience with irony, if you hit anything call it the target e I was thinking and then nothing), parecem ser gatilho.

Daqui surgem todas as possibilidades enunciativas; se, batendo nalguma coisa teremos de lhes chamar o alvo, estes objectos cerâmicos intitulados Terrains Vagues e que são bolas, associadas a desportos onde normalmente esta ideia de alvo ou de objectivo está presente, correlacionam-se com o néon numa das paredes – uma linha curva chama de Trajectoire e que poderia, neste jogo de evocação de possíveis, ser o desenho anunciado da trajectória de uma qualquer bola em direcção a um alvo. Surgem também as crianças (representadas nas serigrafias Un mauvais souvenir I, II e III, com o seu potencial travesso e de desafio, que embora possam achar que um dia “it will all make sense” foram congeladas no seu potencial de acção.

Poderão estes personagens ter brincado com estas bolas, podem as marcas em Du soleil, que reste-t-il ser o congelamento de uma quebra, de um embate numa estrutura, talvez uma janela, e daí a referência ao sol, a uma qualquer brecha reflectida num qualquer interior?

Foi esta figura, a que desce os vulcões de Auvergne (em Sur les volcans d'Auvergne), que pensou este pensamento: estava a pensar e depois nada, e depois vazio, e depois branco?

Pode este pensamento ser ciclicamente materializado nas pequenas esculturas cerâmicas que rodam sobre si mesmas (Looking around the sky I e II), sendo os seus próprios movimentos o seu próprio eixo, a sua forma de nada?

Com certeza conscientes da sua potência retórica, todas estas obras param ligeiramente antes da própria paragem. É nesse pequeno diferencial, entre não serem movimento nem paragem expressa, que se tornam não só esta potência narrativa no seu conjunto, que individualmente evocam o seu próprio movimento. Em movimento perpendicular ao de Agamben quando este refere o próprio rosto humano como o único lugar onde há verdadeiramente silêncio, por este evocar a ideia de linguagem (e então de silêncio); as peças do Hugo, evocam o movimento (não o possuindo) pela sua impossibilidade: as bolas já não se jogam, a trajectória é já só um desenho fixo, as crianças pararam o seu brincar, e até o que resta do sol se mantém na mesma posição.

É curioso que o movimento concreto e real – e paradoxalmente menos potencial de mais movimento - em Looking around the sky I e II (as únicas peças que possuem o movimento por serem activadas por um motor), vem precisamente de objectos à partida estáticos: pequenas cerâmicas decorativas que povoam um imaginário colectivo são aqui activadas ,postas em movimento, e tudo o resto que era movimento se congelou estático.

Há também qualquer coisa de clínico que parece, ainda discursivamente, apontar uma distância afectiva - ou da imagem do que se espera ser um afecto e uma ligação íntima com os objecto - em relação ao próprio objecto. Nada falha, a execução perfeitamente redonda (sem falhas) dos objectos - das serigrafias, à soldadura, às cerâmicas. Também aqui, neste não-errar técnico, a biografia presente sente-se como uma biografia maior (uma imagem geral) - a que nos pode dizer a todos qualquer coisa, porque vivemos neste grande aqui que o tempo é: as bolas de tramas diferentes (quase que lhe sentimos as cores, mesmo sem as sabermos atrás do branco e tons pastel) lembrando os jogos nos jardins, os amigos, os vizinhos no campo mais próximo de casa - e talvez esta seja uma referência cuja vida está a perder imagem, dada a diminuição gradual da afluência das crianças à rua.

Quem, atire a primeira pedra, não teve já muitas experiências com a ironia?

Os elementos que nos remetem para esta grande narrativa que nos alberga parece ser completada com este título "one day it will all make sense" - uma projecção no futuro que espera alguma coisa.

E podemos dizer que talvez não - tivemos demasiadas experiências com a ironia - um dia tudo vai continuar a fazer não-sentido.



Catarina Real