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ARQUIVO:


PEDRO VALDEZ CARDOSO

HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA




GALERIA 111 (LISBOA)
Campo Grande, 113
1700-089 Lisboa

11 NOV - 30 DEZ 2017


 

De l’érotisme, il est le possible de dire qu’il est l’approbation de la vie jusque dans la morte.
(Bataille, 1957, p. 17)

 

 

Em História da Vida Privada, de Pedro Valdez Cardoso, percecionamos vários cenários fragmentados ou pequenos detalhes de vocábulos íntimos, cujas obras inéditas transmitem um repositório de memórias autobiográficas, que foram expostas presentemente na Galeria 111. Trata-se de «uma antologia, sem o ser», numa descontinuidade temporal que delineia códigos singulares sobre a “retórica de um corpo”. Entre metalinguagens e identidade, fruímos um corpo, enquanto erotismo, drama e duplo.

A obra plástica de Pedro Valdez Cardoso revela um corpo como “corpus social”, segundo o análogo conceito de Nelly Richard (1986): «body is at the boundary between biology and society, between drives and discourses, between the sexual and its categorization in terms of power, biography and history».

Esta exposição valoriza a experiência do ser, como performance em obra de arte, a perceção que o curador João Miguel Fernandes Jorge sublinha, no texto da folha de sala: «Abrindo e encerrando o objecto na temporalidade de uma encenada narração».

O erotismo passa a ser o mediador entre o eu e o outro, identidade e sociedade. Assim, o artista desfragmenta a linguagem de um “corpo existencialista” para dar lugar a um “corpo antropológico”, cujo drama rompe o discurso numa espécie de resistência ou manifesto conceptual. Tal como afirmam Tracey Warr e Amelia Jones: «Artists use their bodies to blur and cross boundaries of identity and to explore the implications of identity.» (Warr & Jones, 2000, p. 247).

Pedro Valdez Cardoso cria novos significados, cuja identidade nos remete para uma consciência multicultural, tal como intitulou anteriormente de «cross-cultural», na medida em que estabelece cruzamentos de leituras conceptuais e experiências na contemporaneidade, entre passado e presente, entre cultura ocidental e tribal, entre Portugal e África. Numa dimensão antropológica, surge uma série de graffitis que citam a sua obra anterior, e que, em certa medida, também, reivindicam um olhar crítico sociocultural, ou, simplesmente, palavras que despertam à atenção do espectador comum: «Les Dresseurs», «An unnatural history», «we could have been heroes», «dominion» e «guilt». Desta forma, o espectador é lançado no drama de uma «vida privada», onde o artista apresenta objetos, fotografias, registos, páginas de livros, desenhos e esculturas, que nos aludem a memórias, ironia, dor e angústia.

Morte.

Na sua obra, o artista metamorfoseia objetos em “ser-animal”, tal como podemos observar em Peacock, 2011. Cria, deste modo, outras identidades. Coloca-nos dentro da vivência de um outro corpo através do entendimento antropológico, transfigurando o ser e o outro, como fissuras de um inconsciente individual e coletivo.

Também, ecoa obras da História da Arte Ocidental, como em A Cabeça de S. João Baptista, 2008.

O erotismo emerge da sombra, enquanto experiência, cuja temporalidade irrompe do impulso interior para o exterior, na medida em que o corpo e a identidade se aniquilam, num jogo onde não existe vencedor, como em No winner, no looser, 2006. Recordamos, a propósito, Bataille (1988, p. 34) «[u]ma imensa revolução se produz quando se é capaz de ultrapassar a consciência objectiva que as paredes da crisália limitam.»

O corpo cede, assim, à morte. O erotismo culmina na transgressão. A máscara é, portanto, um arquétipo mítico do transgressor. Em Borneo´s buffet, 2011, ou em Mascarade en gris, 2011, transforma a dimensão antropológica, ao romper os limites entre ocidente e indígena, entre psíquico e social. Desconstrói-a conceptualmente, para edificar numa outra leitura contemporânea, a do poder.

O artista abandona o drama e o ser, para despertar o duplo, a título de exemplo na obra Sem título (Duplo), 2005. O duplo afigura a informidade de um corpo, numa espécie de “roupa-sem-corpos”, como se fossem um «corpo-sem-órgãos» (Deleuze, 2004), como na obra Duplo, 2003, ou numa desagregação psíquica, como em Sem título (Duplo), 2005.

Lembramos Antonin Artaud (1996, p.2):

«É preciso insistir na idéia da cultura em ação e que se torna em nós como que um novo órgão, uma espécie de segundo espírito: e a civilização é cultura que se aplica e que rege até nossas ações mais sutis, o espírito presente nas coisas; e é artificial a separação entre a civilização e a cultura, com o emprego de duas palavras para significar uma mesma e idêntica ação.».

 



JOANA CONSIGLIERI