Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Lugares do Delírio, Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil.


Vista da exposição Lugares do Delírio, Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil.


Vista da exposição Lugares do Delírio, Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil.


Vista da exposição Lugares do Delírio, Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil.


Vista da exposição Lugares do Delírio, Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil.


Vista da exposição Lugares do Delírio, Sesc Pompeia, São Paulo, Brasil.

Outras exposições actuais:

FERNÃO CRUZ

Long Story Short


Balcony, Lisboa
CATARINA REAL

JOÃO MARÇAL

INNER 8000er


Museu da Cidade - Pavilhão Branco, Lisboa
CATARINA REAL

MICHAEL BIBERSTEIN

MICHAEL BIBERSTEIN: X, UMA RETROSPETIVA


Culturgest, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

PEDRO TUDELA E MIGUEL CARVALHAIS

ANOTAÇÕES SONORAS: ESPAÇO, PAUSA, REPETIÇÃO


FBAUP - Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Porto
LUÍS RIBEIRO

THIAGO MARTINS DE MELO

BÁRBARA BALACLAVA


Maus Hábitos - Espaço de Intervenção Cultural, Porto
CONSTANÇA BABO

ÂNGELA FERREIRA E FERNANDO JOSÉ PEREIRA

CONTRATO (A TEMPO INDETERMINADO)


Museu Internacional de Escultura Contemporânea, Santo Tirso
LUÍS RIBEIRO

DAVID HOCKNEY

SOMETHING NEW IN PAINTING (AND PHOTOGRAPHY) [AND EVEN PRINTING]


Pace Gallery - 25th Street NY, Nova Iorque
SÉRGIO PARREIRA

YONAMINE

N’GOLA CINE


JAHMEK CONTEMPORARY ART, Luanda
ADRIANO MIXINGE

SARA BICHÃO

ENCONTRA-ME, MATO-TE


Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
MARC LENOT

VASCO ARAÚJO

LA MORTE DEL DESIDERIO


Galeria Francisco Fino, Lisboa
WILSON LEDO

ARQUIVO:


COLECTIVA

LUGARES DO DELÍRIO




SESC POMPEIA
Rua Clélia, 93 - Pompeia
São Paulo - SP, 05042-000, Brasil

10 ABR - 01 JUL 2018

A REALIDADE NÃO BASTA

 

Arthur Bispo do Rosário não era conhecido pelo grande público até a 30a Bienal de São Paulo, em 2012. Ali, sua vida, mais do que sua obra, foi aclamada e destacada: nascido no Sergipe, no nordeste do Brasil, na primeira década do século XX, ele era um marinheiro negro e pobre que ganhava seus trocados fazendo bicos como lavador de ônibus e guarda-costas. Após um delírio místico, ele foi internado num hospital psiquiátrico, com diagnóstico de paranoico-esquizofrênico – e lá viveu durante mais de 40 anos, produzindo obras de arte com qualquer objeto do hospital, desfiando lençóis e seu próprio uniforme. “Se o Arthur Bispo do Rosário não fosse negro e pobre, ele provavelmente não teria ficado tanto tempo num hospital psiquiátrico. Mais do que uma patologia, a loucura é uma construção social”, afirma Tania Rivera. A psicanalista e curadora foi convidada pelo também curador Paulo Herkenhoff para construir a mostra “Lugares do Delírio”, sobre o tabu da arte e loucura no Brasil. Apresentada originalmente no Museu de Arte do Rio, está em cartaz até julho no Sesc Pompeia. “O Paulo queria dar o título da mostra de Lugares da Loucura, mas eu propus usar o termo Delírio. Esta palavra tem um tom positivo, já que se refere à uma construção de sentido numa lógica própria e não a uma etiquetagem preconceituosa”, completa Tania.

É assim que estandartes e objetos criados por Arthur Bispo do Rosário são apresentados lado a lado com obras do consagrado Cildo Meireles ou de Leonilson, também conhecido por seus bordados. A mostra reúne 53 artistas e coletivos que vêm do circuito tradicional da arte, de instituições psiquiátricas ou trabalham na intersecção entre arte e terapia. Se, durante a Bienal, surgiram discussões sobre o lugar de Bispo do Rosário na chamada “Arte Bruta”, aqui a mensagem é clara: arte é arte e classificar seu trabalho numa chave diferente de qualquer outro artista é uma categorização anacrônica para a arte contemporânea. Legitimar a criatividade artística de pessoas com experiências psicóticas – sem as transformar em gênias ou colocar culpa em epifanias – é a maior qualidade da exposição.

Na bela expografia da sala de convivência do Sesc Pompeia - onde passam todas as pessoas que frequentam o centro cultural, seja por conta de uma aula de dança ou uma atividade para crianças – a maioria das obras ficam suspensas no espaço por fios que pendem do teto. Entre os desenhos emoldurados em acrílico, monitores e placas de legendas que parecem flutuar, estão dezenas de barcos assinados por diversos artistas como Bispo do Rosário, Maurício Fiandeiro, Bernardo Damasceno e Arlindo Oliveira, do Atelier Gaia (formado por artistas que usam ou já usaram o serviço de um instituto psiquiátrico): “Muitos artistas que tiveram experiências psicóticas produzem obras que remetem à meios de locomoção. Alguns médicos acreditam que é a manifestação de um desejo de fugir do hospital”, explica a curadora. Os barcos também representam a deriva, o delírio e os fluxos do pensamento.

Integrada na edição paulistana da exposição, a coleção do Museu Osório Cesar traz a produção de artistas do Hospital Juquery, inaugurado em 1898 num conjunto de prédios assinado por Ramos de Azevedo. Foi fundado pelo Dr. Franco da Rocha com a intenção de ser uma colônia psiquiátrica no interior de São Paulo. O complexo foi protagonista da história da mentalidade do Brasil, com uma politica de higienização e disciplinadora que marcaram dramaticamente sua história. Na mostra, estão alguns trabalhos feitos em oficinas do local com artistas modernos como Flávio de Carvalho, Lasar Segall e Tarsila do Amaral. Não poderiam faltar obras do Museu do Inconsciente, fundado por Nise da Silveira em 1952, no Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro. A alagoana foi responsável por uma das maiores revoluções psiquiátricas do Brasil, lutando contra tratamentos de choque e lobotomia e impulsionando a demanda por serviços humanizados. Nise da Silveira implementou a terapia ocupacional no tratamento psiquiátrico e levou para suas sessões artistas como Almir Mavignier, Abraham Palatnik e Ivan Serpa.

De Lygia Clark, são apresentadas duas réplicas de um objeto relacional intitulada “Camisa de Força”, uma proposta de transformar o instrumento de contenção de pacientes numa obra para vestir. Estes objetos relacionais foram criados a partir da Estruturação do Self, método em que Lygia Clark propunha exercícios sensoriais em sessões de terapia. Na proposição da carioca Laura Lima, a obra “Novos Costumes”, também feita para vestir, convida visitantes para brincarem com roupas de plástico que quebram com os padrões estéticos vigentes.

Se a realidade não basta para ninguém, a construção de realidades - seja em forma de delírios, arte ou novas cosmovisões – é mais do que fundamental para a nossa existência. Para além desta constatação, a mostra me fez parar para pensar na situação das instituições psiquiátricas no Brasil atual, que - imagino - não sejam nada sadias visto a negligência com que é tratada a saúde pública do país. Me pergunto: quem são mesmo os reis do nonsense de hoje? A loucura é muito mais racional, maldosa e descarada do que se pode pensar; loucura é ser representante do povo e, no lugar de atentar pela sua saúde, roubar dinheiro público para benefício próprio.

 

 

Julia Flamingo 
Nascida em São Paulo, Brasil, é formada em Jornalismo e História. Comanda o site Bigorna – um olhar generoso sobre a arte atual. Colabora como repórter de artes visuais para veículos brasileiros e estrangeiros. Trabalhou como repórter e crítica de arte da revista Veja São Paulo entre os anos de 2015 e 2017 e foi assessora de eventos como SP-Arte e Bienal de São Paulo.



JULIA FLAMINGO