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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Patti Smith, 1975 © Robert Mapllethorpe Foundation


Self Portrait, 1980 © Robert Mapllethorpe Foundation


Self Portrait, 1980 © Robert Mapllethorpe Foundation


Self Portrait, 1983 © Robert Mapllethorpe Foundation


Self Portrait, 1988 © Robert Mapllethorpe Foundation


Vista da exposição. Cortesia Museu de Serralves.


Vista da exposição. Cortesia Museu de Serralves.

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ROBERT MAPPLETHORPE

ROBERT MAPPLETHORPE: PICTURES




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

20 SET - 06 JAN 2019


 

A esfera artística é livre, é um espaço de desenvolvimento formal, material, visual, expressivo, plástico e conceptual. O artista, principalmente o contemporâneo, não deve mover-se entre barreiras e limites mas, pelo contrário, estender-se e navegar ao ritmo da criatividade e da capacidade produtiva que detém. Um dos desafios reside na apresentação de um trabalho tão plural quanto coeso, tão diversificado quanto autêntico e pessoal, que seja díspar e, ao mesmo tempo, detentor de um valor estético, artístico, comummente reconhecido.

 

Um dos artistas mais capazes de tal raro equilíbrio, absolutamente icónico e marcante na sua geração e nas que o seguiram, é Robert Mapplethorpe (Nova Iorque, 1946-1989, Boston). A principal prática de que se serviu foi a fotografia, cujas provas e impressões exibem um impressionante contraste de escala de cinzas, uma notável qualidade estética e composições igualmente sublimes. A qualidade fotográfica revela um olhar rigoroso, aprimorado e tão sensível quanto ousado. Contudo, o património que o artista construiu compreende muito mais do que, à partida, se atribui à técnica utilizada. Trata-se de uma obra tanto da imagem como do real, da ordem do visual e, simultaneamente, do físico, habitualmente produzida no seu estúdio, ora produto de atos performativos, ora de retratos reais dos vários tipos e heterogeneidades que compõem a sociedade. O fotógrafo levantou questões de género, de sexualidade e, no limite, de identidade, inclusivamente nos autorretratos que produziu, realizados de modo mais ou menos tradicional e explícito.

Devido à abordagem de tais áreas e problemáticas e à escolha dos sujeitos que lhes deram corpo e voz, as imagens de Mapplethorpe foram, rápida e continuamente, polémicas e controversas, criticadas e denunciadas. O artista foi, frequentemente, acusado de ser fotógrafo de pornografia, algo que não está de acordo com o tipo de trabalho apresentado, que revela ser altamente refletido, controlado e estruturado. Em resposta, o artista afirmou-se, sempre, em defesa da arte pela arte, livre, aberta, pública. Hoje, apesar do tempo presente ser, supostamente, lugar de visão mais ampla e de liberdade expressiva, tanto imagética como conceptual, a crítica ressurge e torna-se necessário evocar e reclamar esses mesmos valores e princípios artísticos.

Na Antiga Grécia, surgiram as primeiras obras de arte, na sua maioria, esculturas representativas de corpos perfeitos, daí a denominação de corpos escultóricos. Foram estes últimos que atraíram Robert Mapplethorpe ao longo da sua vida. Na exposição da Galleria dell’Accademia, em Florença, em 2009, as peças do fotógrafo foram, inclusivamente, expostas lado a lado com obras do eternizado artista Michelangelo, ocasião que o relacionou e aproximou deste, no que diz respeito a uma comum procura da perfeição formal.

Os indivíduos com corpos trabalhados e estruturados, principalmente os profissionais da área do desporto, tais como Lisa Line, a primeira mulher culturista, atraíram o fotógrafo a nível pessoal e vivencial, mas, principalmente, estético e artístico. O artista interpretou e trabalhou os diversos corpos que fotografou enquanto elementos tão equilibrados, harmoniosos e orgânicos quanto a natureza mais primorosa. Explorou a forma a par da luz e da geometria, construindo enquadramentos de equilibradas e magnetizantes composições, com efeitos de sombra, procurando interessantes contornos que o corpo desenha sobre fundos brancos e negros, ou quando em justaposição com figuras geométricas.

O percurso artístico de Mapplethorpe estabeleceu-se de modo intenso, singular e heterogéneo, com inúmeros e variados retratados, desde casais gays e participantes de rituais sado masoquistas até grandes vedetas, das quais se pode destacar Arnold Schwarzenegger ou Patty Smith, com a qual o fotógrafo desenvolveu uma relação romântica intermitente ao longo de vários anos. Foram, pois, justamente, as suas relações pessoais que se tornaram os pontos de foco mais recorrentes da lente da sua Hasselblad.

Paralelamente, encontram-se registos de um contínuo interesse por objectos, naturezas mortas e, principalmente no final da vida do fotógrafo, flores. Ao observar estes casos e pensá-los em relação às restantes imagens, apesar da temática ser distinta, denota-se uma evidente semelhança de técnica e de modo de captura fotográfica. Ora, como o próprio Mapplethorpe dizia "o importante não é o que a coisa é, mas sim, a forma como ela é fotografada". É, precisamente, pensando o trabalho como um todo, o produto de uma mesma mente que trabalhava o visual de um modo muito particular, que se compreende como tudo converge num mesmo ponto de interesse: a forma, independentemente da sua natureza.

Antes desse assombroso trabalho fotográfico pelo qual o público o conhece, o artista estudou pintura e escultura e realizou algumas experiências de colagens e montagens, duas delas exibidas no início da recentemente inaugurada exposição no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Aí, na entrada da ala na qual se estende o trabalho do artista, vê-se o ponto de partida do que se desenvolveu e estabeleceu enquanto uma obra forte, única e altamente valorizada.

Na inauguração dia 21 de setembro, as portas do museu abriram-se para dar a conhecer uma obra surpreendente, sedutora, magnetizante e envolvente que requer ser contemplada com tempo e atenção, acompanhados de um necessário despojamento de puritanismo e de convenções. O curador João Ribas e, na altura, diretor do museu portuense, conseguiu, ao longo de meses de estudo e de dedicação, em conjunto e parceria com o Presidente da Fundação Mapplethorpe, Michael Ward Stout, concretizar uma distinta mostra de obras do que constitui a grande herança da instituição. Esta, fundada pelo artista em 1988, ficou, um ano depois de sua morte, com quase duas mil imagens de diferentes fases, épocas, tamanhos e tipos de impressão, entre as quais várias polaroids muito pessoais, intimistas, sexuais e, na sua maioria, nunca antes vistas.

Tal como as esculturas e pinturas gregas, expostas e admiradas em museus por todo o mundo, as imagens de Robert Mapplethorpe existem para ser vistas e recebidas por todo o espectador que assim o quiser, devendo ser contempladas e experienciadas a um nível visual, perceptivo e estético. A incompreensão deste facto não se deve ao trabalho do artista, mas às leituras e interpretações que lhe são inferidas ou atribuídas. João Ribas sabe-o e, de acordo com isso, respeitando a obra e enaltecendo-a, concebeu uma exposição que, com um resultado mais ou menos projetado e, consecutivamente, controverso, é indiscutivelmente forte e, sem dúvida, marcou de modo indelével a programação do Museu de Arte Contemporânea de Serralves.



CONSTANÇA BABO