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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia: Vasco Célio e Stills / Centro Internacional das Artes José de Guimarães


Fotografia: Vasco Célio e Stills / Centro Internacional das Artes José de Guimarães


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ARQUIVO:


RUI CHAFES

DESENHO SEM FIM




CENTRO INTERNACIONAL DAS ARTES JOSÉ DE GUIMARÃES
Avenida Conde Margaride, nº 175
4810-535 Guimarães

08 DEZ - 10 FEV 2019

CORPOS DELIRANTES: DE FERRO, DE PAPEL E DE CARNE

 

 


Foi em 2004 que Rui Chafes apresentou na Bienal de São Paulo a peça “Comer o Coração”, em colaboração com Vera Mantero. Um corpo nu dançava alucinado, como se fosse «de papel riscado» (expressão utilizada por Vera Mantero), sentado no alto da escultura em ferro negro, em contraste com a carne pálida da bailarina. Esta obra marcante da arte contemporânea portuguesa repetiu-se, embora noutro formato, no CIAJG, numa black box repleta de espetadores em silêncio. No final da performance, Vera Mantero juntou-se à conversa com o artista Rui Chafes e com os curadores da exposição Delfim Sardo e Nuno Faria, confessando-nos que, ao visitar esta exposição, não se sentiu tão sozinha no seu papel de «corpo delirante», quase não humano. Afirmou que ao percorrer a «sala azul» e ao ver o friso de desenhos de corpos de mulheres em suicídio, viscerais, intercalados por formas geométricas e estruturas arquitetónicas que lhes confere espaço e tempo, vida e morte, por vezes olhados por rostos de homens sem pele, compreendeu melhor o seu papel de bailarina que dá vida e movimento à dor e à angústia na obra inerte de Rui Chafes.

 

 

Fotografia: Vasco Célio e Stills / Centro Internacional das Artes José de Guimarães

 

 

O corpo é o ponto de partida e a base concetual do trabalho de Chafes. Delfim Sardo ao falar-nos da exposição apresenta-nos a noção de Corpo sem Órgãos (CsO), um conceito desenvolvido pelo filósofo Gilles Deleuze na obra Anti-Édipo (1972) e, em conjunto com o filósofo Félix Guattari, na obra Mil-Platôs (1980), onde «o organismo não é corpo, o CsO, mas um estrato sobre o CsO, quer dizer, um fenómeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair trabalho útil» (Deleuze, Mil Platôs, Vol. 3). À luz do pensamento de Deleuze, não compreendemos o Corpo sem Órgãos, vivemo-lo. Por isso é necessário mais do que compreendê-lo, praticá-lo. O CsO não é inimigo dos órgãos, mas inimigo do organismo. Ou seja, não é inimigo dos instrumentos, mas inimigo da instrumentalização. Neste sentido, os desenhos de Chafes são uma espécie de trabalho de desmembramento dos corpos para chegar aos órgãos que recusam a domesticação, mas antes procuram a liberdade. E é aqui que a relação com o corpo de Vera Mantero é fortíssima nesta luta contra o adestramento do corpo, conferindo-lhe um lado selvagem que o liberta (lembremo-nos que “Território Livre” era o tema genérico da Bienal de São Paulo que em 2004 inspirou a dupla).

A obra do escultor é feita também de ausências, numa relação entre o visível e o invisível das formas e dos sentimentos. Já o percebemos na exposição “Incêndio” (Galeria Filomena Soares, 2017), com 14 esculturas negras que acentuam uma verticalidade transcendental, que recorda a ruína de uma arquitetura gótica - de uma catedral incendiada, ou do que restou dela - que a projeta para uma outra multidimensionalidade espiritual. Sentimos a catedral incendiada pela sua ausência.

Percebemos as ausências nas esculturas de Chafes através da leitura dos seus desenhos, que ganham corpo e forma no espaço bidimensional, como um reflexo do pensamento do escultor. A invisibilidade da dor e da morte dos corpos sofredores ausentes nas esculturas, dão-nos a ilusão de esculturas enquanto órgãos e os desenhos enquanto corpos em desconstrução que registam um processo até chegar à ausência.

A obra de Rui Chafes manifesta-se na escultura mas atravessa o desenho. A escolha dos desenhos para esta exposição foi realizada através de uma seleção entre os muitos desenhos engavetados no arquivo do artista desde 1987, oferecendo uma renovada visão do seu trabalho, sendo no mínimo «um conjunto de trabalhos surpreendentes» (Nuno Faria). Os desenhos apresentam-se em diferentes formatos e em diferentes papéis, utilizando múltiplos materiais do domínio das artes plásticas como a grafite ou o guache (colocados sobre a parede vermelha), mas também «traz o mundo para as artes» (Chafes) utilizando materiais como o chá, o pó do atelier, o pólen de flores ou remédios vários, tais como o mercurocromo ou a tintura de iodo, no sentido de conferir no papel manchas e formas orgânicas em contraste com o desenho linear a grafite e a caneta (colocados nas paredes verdes e cinzentas). Os primeiros trabalhos apresentados no interior da sala, do lado direito, realizados na Alemanha em 1990, revelam esta plasticidade com influências do autor alemão Goethe (desenvolveu, entre vários escritos, a Teoria das Cores, em 1810, assim como muitas reflexões teóricas sobre a geometria das formas orgânicas presentes na Natureza), assim como parte do seu imaginário concetual, da literatura ao cinema - de Platão a Samuel Beckett, Nietzshe ou Rainer Werner Fassbinde.

 

 

Fotografia: Vasco Célio e Stills / Centro Internacional das Artes José de Guimarães

 

 

Rui Chafes, entre 1990 e 1992, estudou na Kunstakademie Düsseldorf com Gerhard Merz, onde desenvolveu e consolidou a sua pesquisa sobre a cultura e arte alemãs que tinha iniciado em Portugal. Neste período traduziu de alemão para português os “Fragmentos de Novalis" (ed. Assírio & Alvim, 1992), dando origem aos desenhos da série sobre Novalis, no extremo oposto da exposição (sobre a parede verde, ao fundo da sala). Uma das bases de trabalho que Chafes tem reclamado é, precisamente, o pensamento estético do Romantismo Alemão. Esta estética está presente, também, no processo de montagem da exposição, com a disposição dos trabalhos em paredes pintadas com diferentes cores correspondentes à estética do interior das casas Românticas. Interessa compreender que o artista procura reforçar o aspeto da relação entre o interior e o exterior, das realidades invisíveis das emoções, lançando um olhar subjetivo sobre o mundo objetivo. Só assim podemos compreender porque Chafes representa corpos vegetais ao lado de corpos de animais e de órgãos humanos, ou desenhos de mulheres a mutilarem-se com lâminas, com olhares frios e desafiadores perante o espetador. Assim, como os artistas do Romantismo introduziram a morte, a dor e o sofrimento na pintura como um conteúdo concetual distante dos temas religiosos, aproximando-se mais de questões políticas, sociais e de preocupações íntimas do autor, Chafes também procura uma intimidade concetual entre o sentimento do artista e o do espetador.

 

 

 


Luís Ribeiro
Doutorando em Arte Contemporânea no Colégio das Artes na Universidade de Coimbra. É membro fundador do Laboratório das Artes tendo organizado diversas exposições entre 2003 e 2015. Desenvolve a sua atividade profissional como artista, curador, produtor artístico e como professor de artes visuais | www.luisribeiro.pt

 

 



LUÍS RIBEIRO