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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição: Astray, de Caroline Mesquita. Fotografia: Dinis Santos / CM Porto


Vista da exposição: Astray, de Caroline Mesquita. Fotografia: Dinis Santos / CM Porto


Vista da exposição: Astray, de Caroline Mesquita. Fotografia: Dinis Santos / CM Porto


Vista da exposição: Astray, de Caroline Mesquita. Fotografia: Dinis Santos / CM Porto


Vista da exposição: Astray, de Caroline Mesquita. Fotografia: Dinis Santos / CM Porto


Vista da exposição: Astray, de Caroline Mesquita. Fotografia: Dinis Santos / CM Porto

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ARQUIVO:


CAROLINE MESQUITA

ASTRAY




GALERIA MUNICIPAL DO PORTO
Palácio de Cristal Rua D. Manuel II
4050-346 Porto

16 MAR - 19 MAI 2019


ASTRAY, de Caroline Mesquita (1989, França), é um trabalho que se divide em dois momentos tão autónomos quanto unidos. O primeiro teve lugar na Kunsthalle Lissabon, de dezembro de 2018 a fevereiro de 2019, e, enquanto Prologue, introduziu a narrativa cujo desenvolvimento tem agora lugar no segundo palco, na ala superior da Galeria Municipal do Porto, desde o dia 16 de março.

A primeira exposição terá sido, eventualmente, a mais impressionante, onde a obra se revelou, irrompendo com força do chão da galeria em Lisboa. Estabeleceu o contexto das várias personagens, construções em ferro e fósseis vertebrados, elementos que suscitam curiosidade e uma certa inquietude no espectador a quem se apresentam. Enquanto site-specifics, foram concebidas propositadamente para cada um dos respectivos espaços expositivos, sendo que a segunda ocasião foi comissariada por Sofia Lemos (1989, Portugal), investigadora e curadora independente sediada em Berlim, em parceria com a Kunsthalle Lissabon.

Caroline Mesquita tem construído um interessante e sólido percurso profissional que conta com exposições individuais e coletivas em várias e relevantes instituições culturais internacionais. Em Portugal, é a partir de ASTRAY que se apresenta e introduz o seu trabalho.

A artista cria uma grande diversidade de peças, umas mais provocadoras e outras mais experimentais, algumas geométricas e inúmeras orgânicas. Nos últimos anos, tem concebido uma espécie de quasi-objetos ou quasi-sujeitos, gestuais e ativos que se manifestam como seres vivos. Caroline Mesquita [1] explica que procura materiais que a confrontem aos mais variados níveis, considerando fundamental para a sua criação artística relacionar-se com os elementos e instrumentos a partir dos quais trabalha. Durante o processo construtivo, questiona-se até onde é que a matéria a pode levar e de que modo esta se manifesta e reage perante a sua transformação. Como tal, um dos materiais de eleição da artista tem sido o metal, fácil de moldar, com uma constante e contínua alteração cromática a par da sua manipulação e, ainda, detendo uma indubitável longevidade. No caso de ASTRAY, o exercício com o ferro oxidado é notável e atribui às figuras inanimadas um movimento e uma articulação próprios de tudo o que tem vida. A idoneidade construtiva da artista é também clara no trabalho do gesso e da cera, cujos resultados se materializam em formas com uma rara similitude a ossos e fósseis.

A artista expõe e debate o paralelismo entre diferentes tipologias de objetos: os que resultam da natureza e os que o homem produz. Questiona as suas múltiplas divergências bem como as condições, características e lógicas próprias de cada uma das duas esferas, interrelacionando-as, confundindo-as e, até certo ponto, anulando-as. ASTRAY existe, pois, enquanto fluxo e comunicação entre esses universos, o natural e o humano, propondo-os como objetos de reflexão e de problematização.

Os fósseis ou, neste caso, as suas representações, são, simultaneamente, representativos da passagem do tempo, podendo ser compreendidos enquanto provas, rastos e fragmentos de instantes, lugares, histórias e vidas. Assim, Caroline Mesquita também estabelece um cruzamento e um diálogo entre o passado, o presente e o futuro. O trabalho parte, efetivamente, de uma relação espaciotemporal e ergue uma espécie de realidade e de universo paralelos que confluem num imaginário de exploração arqueológica com narrativas de ficção científica.

Como Paul Valéry identificou em L'Homme et la coquille (1994), a principal diferença entre os produtos da natureza e as fabricações humanas é que as primeiras continuam a crescer após serem concebidas, ao contrário das últimas que não evoluem autonomamente. Porém, no que diz respeito ao trabalho da artista, verifica-se como se trata de algo que, quando exposto, mesmo estando formalmente terminado, desenvolve-se numa dimensão metafísica, de sentido e de experiência por parte de quem a recebe.

Um dos objetivos da artista é, precisamente, conceber objetos que continuem a desenvolver-se depois de expostos. Assim, pode recorrer-se ao conceito de obra aberta de Umberto Eco (1962), relativo a objetos/textos que não são mostrados de um modo concluído e fechado, mantendo-se eternamente susceptíveis de novas, diferentes e múltiplas leituras, interpretações e consumos, consoante os vários contextos em que se inserem e os heterogéneos públicos que as recebem.

A curadora convoca, ainda, o fim do mundo e desafia a uma reflexão sobre novos começos. Remete para o investigador e matemático Athanasius Kircher (1602-1680) cujo estudo se centrou, justamente, no "intercâmbio entre os elementos básicos da terra, como uma coisa viva, respirando o sustento do universo" [2]. Sofia Lemos refere a corrente concepção de que o planeta se divide entre um universo subterrâneo de energia inerte e fossilizada, e uma contrastante superfície, lugar da vida. São também essas dualidades, vida/não-vida e biológico/geológico, que se problematizam no novo filme da artista, com o mesmo título do projeto. No vídeo de 17'43'' observa-se uma ação performativa na primeira instalação, na Kunsthalle Lissabon, que transita entre diferentes ficções e representa o encontro de humanos, não-humanos, animais, motores, máquinas e ossos cuja natureza se desconhece. Exibido na subsequente exposição, reforça a ligação entre esses dois momentos, tendo sido, por isso mesmo, encomendado pela Galeria Municipal do Porto.

Ao observar uma concha nas suas mãos, Paul Valéry reconheceu que a simples espiral tem a capacidade de o envolver e conduzir a "superficiais notas e observações, questões naïves, comparações poéticas, inícios de teorias imprudentes" (1994: 113). Ora, é de um modo análogo que se poderá desenrolar a recepção deste trabalho de Caroline Mesquita.

A obra, através de uma singularidade tão formal quanto discursiva, preenche e contamina, hoje como antes, o espaço expositivo com uma atmosfera inebriante. As peças, vivas e ativas, expandem-se com tal força, que poderiam ocupar um espaço independente e mais amplo do que aquele que lhes foi destinado. Não obstante, o modelo expositivo adoptado no segundo piso da Galeria Municipal do Porto concede um espaço próprio à obra, separado da área onde se expõe o importante projeto ANUÁRIO, de Guilherme Blanc e João Ribas, com o qual a inauguração foi compartilhada.

ASTRAY é, deste modo, transformadora do que a rodeia e adquire um valor de acontecimento que determina como fundamental a sua visita, possível de ser realizada até ao dia 19 de maio de 2019.

 

 

 

Constança Babo

 

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Notas

[1] Neste vídeo.
[2] Sofia Lemos na folha de sala da exposição da Galeria Municipal do Porto.



CONSTANÇA BABO