Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista virtual em modo “Casa de bonecas”, Teatro-Museu Dali, Figueres.


Vista virtual em modo planta, Teatro-Museu Dali, Figueres.


Vista virtual - informação complementar, Teatro-Museu Dali, Figueres.


Vista virtual, Teatro-Museu Dali, Figueres.


Salvador Dali, “A cadeira. Obra estereoscópica”, 1975, 402 x 210,5cm cada um dos painéis, Teatro-Museu Dali, Figueres.


Salvador Dali, “Teto do Palácio do Vento”, 1970-73, 5 painéis de óleo colados ao teto, Teatro-Museu Dali, Figueres.


Salvador Dalí, Dalí de espaldas pintando a Gala de espaldas eternizada por seis córneas virtuales provisionalmente reflejadas en seis verdaderos espejos, 1972-1973. Teatro-Museu Dalí, Figueres.

Outras exposições actuais:

ZHENG BO

THE SOFT AND WEAK ARE COMPANIONS OF LIFE


Kunsthalle Lissabon, Lisboa
DIOGO GRAÇA

PEDRO VALDEZ CARDOSO

O FILHO DO CAÇADOR


Appleton [Box], Lisboa
FRANCISCA CORREIA

CATARINA BRAGA

POST-WORLD


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

COLECTIVA

PAUSA | LIVROS - PARTE 1


PLATAFORMAS ONLINE,
SÉRGIO PARREIRA

NATÁLIA AZEVEDO ANDRADE

THORNS AND FISHBONES


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

LOURDES CASTRO

A VIDA COMO ELA É


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

TÂNIA CARVALHO

COMO SE UMA CAMADA DE ESCAMAS BEM FECHADA


PLATAFORMAS ONLINE,
CATARINA REAL

FRANCISCO VIDAL

OFICINA TROPICAL


Zet Gallery, Braga
FRANCISCA CORREIA

MIGUEL CHETA

TODOS NÓS NASCEMOS ORIGINAIS E MORREMOS CÓPIA


CECAL – Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé, Loulé
MIRIAN TAVARES

ÁLVARO LAPA

LENDO RESOLVE-SE: ÁLVARO LAPA E A LITERATURA


Culturgest, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

ARQUIVO:


SALVADOR DALÍ

VISITA VIRTUAL




TEATRO-MUSEU DALÍ
Plaça Gala i Salvador Dalí, 5
17600 Figueres, Girona

15 ABR - 15 SET 2020

Do vírus a Salvador Dali; dos espelhos ao ilimitado

 

 

[Visita virtual ao Museu-Teatro Dali em Figueres, Espanha]


Imagine o mundo obrigado a parar, até ao confinamento de toda a população em suas casas. Claro, isso seria irreal! Agora imagine que toda essa gente não possa aceder ao mundo senão através da sua representação que chega em imagens e sons, por meio de cabos ligados a uns aparelhos domésticos. Suponha ainda que a representação da atualidade o cansa e que deseja revisitar outras épocas entrando em contato com os seus objetos e obras de arte. Claro, deseja ir a um museu. Neste contexto, não seriam os seus pés a conduzi-lo, mas as suas mãos que, ao digitar um endereço representativo de um museu físico, o fariam aceder à representação espacial dessa mesma instituição, que por sua vez é o lugar das representações da história e da memória.

De todos os museus, imagine-se a entrar no museu-teatro de Salvador Dali, situado fisicamente em Figueres, cujo edifício, inaugurado em 1974, se trata de uma renovação do antigo teatro municipal, obra do próprio artista. Não foi o seu corpo que entrou no museu, mas sim a sua mente que percorre agora as divisões de uma espécie de casa de bonecas quase labiríntica. A sensação é a de que a sua vida se transformou num quebra-cabeças e acabou de cair noutro ainda maior. Quando estiver a entender uma das peças de Dali como um mergulho no desconhecido, haverá a probabilidade de uma outra força surgir de um teto em trompe d´oeil, pisando-o com os seus pés gigantescos, para logo lhe informar sobre um céu ainda mais enigmático do que qualquer representação do inconsciente. Tudo se desdobra neste lugar, para romper com a nossa ilusão de uma visão unívoca.

Encontramo-nos agora num desses corredores virtuais em frente de dois enormes painéis em forma de biombo suspenso. As duas composições assemelham-se em quase tudo: uma menina de cabelos longos e de laço azul é retratada de costas. Na sua esguelha, um caminho ladeado de bacias de pedra sobre um pedestal, segue em direção a um rochedo. Por cima dessa ilha-rochedo assenta uma cadeira em perspetiva isométrica acompanhada da sua sombra. As composições pouco diferem uma da outra: numa, uma garrafa sobre uma mesa, na outra, um céu que se abre. Não fora esta imagem suficientemente inquietante, a mão do pintor entra no próprio quadro para pintar o cabelo da menina. Mas, qual é afinal a intenção do pintor com este alerta? Reforçar a ideia de que a imagem é um mero jogo representativo? O que é representado e quem representa? Para que serve a representação? Quem observa o quê? Quem cria o quê? E quem observa de facto, observa o que se representa, ou modifica com a sua mente através do seu dispositivo ocular o que se representa? Qual é a imagem real, a da direita ou a da esquerda? Somos nós uma parte da realidade sonhando com o irreal, ou é o sonho a nossa própria realidade? Se, na verdade, a realidade fosse um saco, estaríamos nós, neste preciso momento, no interior desse mesmo saco voltado às avessas para o mundo exterior, quer estejamos nesse corredor virtual olhando em bico para as duas composições, num museu espantados com a história da humanidade, maravilhados com os mundos que a internet nos traz a nossas casas, ou simplesmente quietos a ver a pandemia passar.

Esta incorporação do pintor na sua própria obra vem bem detrás. Rembrandt fez-se retratar enquanto jovem, refletindo sobre uma imensa tela e, já no final da sua vida, observou-nos serenamente de paleta na mão. “Las meninas” de Velásquez fizeram Michel Foucault elaborar um capítulo de 12 páginas, no seu livro “As palavras e as coisas” sobre os problemas da representação levantados pela mesma obra. Aqui, o pintor olha-nos, estando de frente para a enorme tela, as meninas a serem retratadas estão ao seu lado, os reis de Espanha estão refletidos num espelho ao fundo, e nós tornamo-nos, ao mesmo tempo, observador e objeto retratado.

 

Rembrandt van Rijn, O jovem pintor no seu atelier, 1629, óleo sobre painel, 25,1 x 31,9 cm, Museum of Fine Arts, Boston.

  

Mais tarde, no princípio do séc. XX, o cubismo veio mudar a perspetiva científica sobre a forma de representar. Mas, é o surrealismo com o objetivo de mudar as nossas perspetivas sobre as coisas, para além do óbvio e do palpável, muito com a ajuda da psicanálise, que melhor ilustra toda a problemática da representação. Pela mão de Salvador Dali, a cena surrealista veio dilatar as fronteiras entre o real e o imaginário, ao fazer derreter o consciente no depósito do inconsciente.

Neste momento histórico em que vivemos, não há melhor museu para se visitar virtualmente que este. Ele é o paradigma do jogo de espelhos em que caímos embatendo de frente contra as imagens. Somos a ilustração perfeita da sociedade contemporânea, descrita por Deleuze, porque já nem sequer temos acesso à última cópia decalcada do modelo. Apenas temos acesso ao simulacro de uma ideia ou de uma imagem. Pelos vistos, tudo isto começou com a reprodutibilidade das obras, parafraseando o supracitado, Walter Benjamin, ou antes ainda, com a queda do Antigo Regime, quando caíram príncipes, reis e Deus omnipotente. Mas, não se trata do fim da linha. Se pensarmos na linha sequencial entre o atual fenómeno pandémico até aos dois painéis acima descritos, o significado pode ser bem contrário. Afinal, o que não há, é limites, tal como não houve limite para a imaginação de Dali. Qualquer imagem de Dali, seja a de um traseiro integrado na paisagem ou a de uma mulher dividida em gavetas, qualquer jogo sobre a representação, a internet, a televisão, mesmo este vírus; não serão eles o símbolo de uma só coisa? Não terão todos eles uma única função? Talvez, o confronto com as nossas ilimitadas fraquezas, mas, também com o nosso ilimitado potencial. Não será afinal a própria noção de ilimitado que nos assusta?

A qualquer momento poderemos acordar em suores frios. Há que respirar fundo e olhar em volta. Maravilhoso! Vamos poder começar tudo de novo, mais uma vez. E sem limites.



NUNO LOURENÇO