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EXPOSIÇÕES ATUAIS


“Microscopies” (2003)


“Microscopies” (2003)


“Lugares que no existen. Goggle Earth 1.0” (2009) 


“Où en êtes-vous, Isaki Lacuesta?” (2018) 


“Où en êtes-vous, Isaki Lacuesta?” (2018)


“Tangos De La Vía Láctea” (2020)


“El Rito” (2011)


“L’Acusat” (2019)

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ARQUIVO:


ISAKI LACUESTA

ISAKI LACUESTA




SOLAR - GALERIA DE ARTE CINEMÁTICA
Solar de S. Roque Rua do Lidador
Vila do Conde

03 OUT - 21 NOV 2020

Liberdade de Percepções: Cinema no Museu

 

 

 

A Solar é uma galeria de arte cinemática que foi fundada pelo festival de cinema Curtas Vila do Conde para proporcionar um espaço de experimentação que se equilibrasse entre a sala de cinema e a instituição museológica. Essa conjunção de cinema e museu foi introduzida por um discurso particular da arte das imagens em movimento. Nas palavras de Boris Groys, a vídeo instalação seculariza a situação da projeção cinematográfica onde os espectadores os encontram numa posição de absoluta impotência, paralisia e imobilidade, enquanto ao vivenciarem a imagem em movimento no museu têm a oportunidade de se moverem livremente no espaço em que o filme é exibido. Além disso, podem sair da sala e retornar a qualquer momento. Ao mesmo tempo, uma instalação vídeo retira a imagem de vídeo da televisão quotidiana ou da Internet e dá-lhe um charme museológico. Ao fragmentar um material cinemático, ao retirá-lo do contexto para o colocar num novo, projectá-lo em diferentes ecrãs ou repetir fragmentos individuais, a arte das imagens em movimento tira o pathos do cinema e ao mesmo tempo dá ao espectador uma oportunidade de percebê-lo de uma perspectiva diferente, mais analítica e complexa. Esta perspectiva também se baseia numa luta particular que surge entre o espectador e o artista para controlar o tempo de contemplação. Um movimento simultâneo da imagem e do espectador cria uma mais valia estética a uma obra de vídeo. Provavelmente, este facto influenciou na chamada tendência de disposição - cineastas começaram a explorar os espaços dos museus e os videoartistas passaram a fazer filmes para o grande ecrã.

A nova exposição na Solar é dedicada à prática de vídeo do cineasta espanhol Isaki Lacuesta, que não é uma excepção a esta tendência e se concentra também em remodelar arquitectonicamente a visão cinemática e em jogar com a semântica e as sensações nas suas obras.

A jornada no mundo vídeo de Lacuesta começa com a instalação de dois canais “Lugares que no existen. Goggle Earth 1.0”(2009) no qual o artista retrata fotos e filmes de lugares que não existem no Goggle Earth. É um catálogo de paisagens ocultas de atemporalidades ou lugares sem o seu reflexo digital. A reflexão criada pelos media não é uma mensagem hoje, mas uma ferramenta de manipulação para mudar a mensagem ou criar uma pós-verdade.
No seguinte corredor de pedra situa-se a obra “Où en êtes-vous, Isaki Lacuesta?” (2018) que pode ser visto como uma declaração artística e o cerne da exposição. É um filme encomendado pelo Centre Pompidou que de uma forma poética responde a uma pergunta “Onde é que estás, Isaki Lacuesta?”. A resposta é “Estou aqui e ali ao mesmo tempo”, como o efeito Kuleshov que cria uma nova sensação e um significado adicional ao combinar dois planos sequenciais em vez de um único plano isolado. Este filme ensaio viaja por diferentes países com diferentes histórias - Cuba como uma Rússia tropical ou como a flor da revolução tão admirada pelos cineastas da Nouvelle Vague; ou o Desporto como religião nacional em diferentes regiões, um produto flamejante do capitalismo e uma alavanca da política racial. Circunstâncias particulares transformam-se numa poesia cinemática onde uma visão objectiva se revela pela percepção subjetiva.

Outro trabalho baseado na manipulação visual é “L’Acusat” (2019). É uma instalação de 4 canais que joga com o ambiente arquitectónico no tempo, onde o espectador tem a possibilidade de observar simultaneamente quatro lugares: a igreja, a caça, o bar e a Guardia Civil (polícia). Esses quatro pontos são como um sistema de eixos do mundo contemporâneo, que Lacuesta tenta retratar com as suas variâncias de visão e impacto. Distribuindo a história em 4 ecrãs, o artista cria uma forma não linear de percepção semântica.

Uma continuação da exploração da atemporalidade pode ver-se no vídeo “Microscopies” (2003), onde Isaki Lacuesta se aprofunda na textura do vídeo e disseca a imagem que contém mais camadas significativas do que as que podemos ver à primeira vista. O artista explorou três objetos com superfícies aparentemente planas, nos quais descobriu volumes observados ao microscópio. Um pedaço de pigmento, o olho de deus na nota de um dólar e um fotograma de um filme antigo em processo de decomposição são os materiais onde é possível encontrar um universo infinito usando uma óptica alternativa. Esta óptica poderia revelar um estado efémero das imagens mais contemporâneas e típicas do início do século. “Microscopies” desenvolve uma sensibilidade poética para compreender estas imagens.

O próximo ponto da exposição leva-nos à cave no subsolo da galeria. Esse caminho, quase uma descida ao Hades, prepara-nos para a obra “El Rito” (2011) onde o ritual de sacrifício de animais se transforma num gesto mecânico dos seres humanos. As imagens do flash criam uma sensação, que segundo Deleuze “tem um rosto voltado para o sujeito (o sistema nervoso, movimento vital, instinto, temperamento...) e um rosto voltado para o objeto (o facto, o lugar, o acontecimento).” [1] “El Rito” representa uma conjunção de um facto inestético e temperamento imanente, uma metamorfose de uma metáfora sacra num evento trivial.

O último capítulo da exposição é dedicado a um género de videoclip, representado por um corpo de obras realizado por Isaki Lacuesta. Nas suas palavras, “a ideia destes tipos de formatos populares é separá-los da narratividade convencional e aproximá-los de uma certa poesia”. Lacuesta vê os vídeos musicais como cartões-postais, que existem no mesmo nível de uma hierarquia com uma longa-metragem ou uma peça curta. Na sequência de “Fatherless”, “Grite Pelao”, “Tangos De La Vía Láctea” e “Par Coeur & and The Womb”, vemos uma performance feminina tecida numa paisagem do sul. A superfície visual é penetrada pelo ritmo da música, onde a música é a força motriz da narrativa. As metáforas ilusionistas, a fetichização do filme 16mm e uma montagem associativa desenvolvem uma aura poética destas obras sem que estas percam a sua natureza original e função de vídeo musical.

 


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Notas

[1] Deleuze Gilles. Francis Bacon: The Logic of Sensation. First published in France, 1981, by Editions de la Difference
© Editions du Seuil, 2002, Francis Bacon: Logique de la Sensation. This English translation © Continuum 2003. P. 34.

 



DASHA BIRUKOVA