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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. © António Jorge Silva / cortesia MACE.


Vista da exposição. © António Jorge Silva / cortesia MACE.


Vista da exposição. © António Jorge Silva / cortesia MACE.


Vista da exposição. © Nuno Lourenço.


Vista da exposição. © Nuno Lourenço.


Vista da exposição. © Nuno Lourenço.


Vista da exposição. © Nuno Lourenço.


Vista da exposição. © Nuno Lourenço.


Vista da exposição. © Nuno Lourenço.


Vista da exposição. © António Jorge Silva / cortesia MACE.


Vista da exposição. © António Jorge Silva / cortesia MACE.

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FERNANDA FRAGATEIRO

A CIDADE INCOMPLETA




MACE - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE ELVAS
Rua da Cadeia
7350 Elvas

26 JUN - 09 JAN 2022

O museu e a estética da transformação incompleta

 

 

É possível que já tenha visitado uma exposição de arte contemporânea e tenha confundido as obras de arte com os objetos de apoio e os materiais do próprio museu. Depois, quando se apercebeu da linha ténue entre a obra exposta e a obra técnica de suporte, pôs de certeza em causa o seu nível de conhecimento, assumindo-se como um leigo colocando a típica pergunta “O que é que isto quer dizer?” Estamos perante uma armadilha. Em 2021, ainda caímos no mesmo erro, ao entrar num museu de arte contemporânea munidos dos mesmos critérios de avaliação com os quais analisamos os nenúfares de Cézanne ou esperamos ser surpreendidos com uma bela escultura de mármore. E o problema acentua-se quando a própria estrutura do museu, é ela mesma um espaço restaurado de um antigo palácio ou igreja, o que faz confundir ainda mais o material de uma ombreira com uma escultura de inox.

 

Assim, poderá ser um pouco da experiência consequente da visita da exposição da artista plástica Fernanda Fragateiro, patente no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, até 9 de janeiro de 2022. Após termos percorrido várias salas e corredores, damo-nos conta da intenção do curador, Delfim Sardo, em fazer confundir as obras da artista com a obra-museu, porque não existe uma legenda, uma simples linha assinalando o significado de cada peça ou mesmo a marcação dos limites da própria obra de arte. Recordamo-nos, então, que a única linha de orientação foi dada num texto introdutório, no abrir da exposição com o título “A cidade incompleta”. Aí reside a chave para a compreensão de toda a exposição, ao mesmo tempo que se pretende um conjunto expositivo deliberadamente vago, porque a arte contemporânea exige um esforço da parte do observador em resolver o paradoxo entre a lógica do pensamento intelectual e a crueza atual do mundo. No entanto, a arte contemporânea atual, já não se preocupa em destruir velhos cânones, nem inquietar almas adormecidas, nem provocar choques violentos que nos obrigue a ver as múltiplas perspetivas sobre o mundo. A arte contemporânea exige, em 2021, primeiro, aceitar o mundo tal como ele hoje se apresenta, com todo o seu sabor agridoce, para que depois o possamos transformar.

 

Vista da exposição. © Nuno Lourenço.

 

Senão vejamos, não seria um erro apelar à transcendência ou entrar em deambulações intelectuais sobre um casaco de borracha sujo de pó branco pendurado num corredor de mármore? Que leitura poderá ter um degradé de cinzentos entre o extremo branco e o extremo preto senão a simples apreciação aprazível do caminhar entre a luz e a sombra? E o que dizer de um paralelepípedo amarelo com o rebordo a metal pregado na parede que se assemelha a um depósito de guardanapos como os que vemos nas mesas das pastelarias? Fora do seu contexto habitual, a sua forma banal torna-se bela e interessante quando pregada na parede branca de um museu. Que interessam as interpretações sobre uma plataforma donde crescem livros, se mais interessante que a sugestão de um plano urbanístico de uma populosa cidade, é mesmo a observação do contraste das suas estruturas, materiais e cores? Não será a proposta da nova arte contemporânea a simples aceitação das coisas, sem outra mensagem? As obras expostas de Fernanda Fragateiro, em Elvas, seguem a sua longa pesquisa sobre a tensão entre a escultura e a arquitetura, obrigando à reflexão do belo como aceitação dos materiais básicos que povoam o nosso quotidiano urbano.

Mesmo quando vemos obras que traduzem literalmente a tal cidade incompleta como um enorme muro em ruínas que atravessa uma grande sala do museu, ou uma materialização de um passeio ocupando um lado inteiro de outra sala, mais que qualquer mensagem transcendente, é a própria crueza destas estruturas funcionais e disfuncionais que constituem a nova estética. E porventura, se caímos na tentação de começar a atribuir lindas palavras e conceitos a estas obras, como “o muro que se arruína como a própria vida” ou “o passeio da coragem” logo seremos destroçados por uma sala ainda mais “crua”, onde linhas de inox e ferro cromado constituem estruturas comuns como portões, cadeiras flutuantes ou suportes de toalhas de banho. Aqui, a poesia afirma-se a partir do banal não sendo banal, porque o seu objetivo estético é o da simplicidade formal: o foco situa-se no potencial formal da matéria, traduzindo uma ideia num mundo já por si transformado pelo ser humano.

 

Vista da exposição. © Nuno Lourenço.

 

Vejamos ainda: dois simples capacetes de trabalhadores das obras, são o protótipo de uma sociedade que é a nossa, criadora de beleza a partir de qualquer elemento corriqueiro do dia-a-dia. O interesse destes objetos reside na sua própria natureza banal, mas, que se eleva ao serem pregados na parede do museu. Em sentido contrário, um vestido de cores vivas e com padrões geometrizados, desce da sua beleza enquanto peça de design de moda, para se tornar uma placa policromada muito viva pregada numa parede branca. O tecido desce à banalidade para afirmar o seu potencial estético numa forma mais inócua do que a dum vestido. Deste modo, Fernanda Fragateiro afirma nesta exposição que a transcendência está na reutilização de uma realidade já à partida construída pelo ser humano, na mesma medida que uma cidade se encontra em eterna transformação. Não existe cidade completa, existe uma cidade em constante processo de construção que nunca chega a cumprir o seu ideal, uma vez que a realidade do mundo é a impermanência. A beleza, não reside nas formas fechadas, mas na potencialidade de cada material poder criar qualquer coisa. Por isto, numa das últimas salas do primeiro piso do Museu de Arte Contemporânea de Elvas, foi montada uma estrutura metálica galvanizada com fragmentos coloridos de casas e exibidos dois vídeos assentes no chão sobre o trabalho que a artista fez no Bairro 6 de Maio, na Amadora, em 2018, durante o processo de demolição.

A exposição de Fernanda Fragateiro convida-nos a abraçar a realidade urbana, para que a possamos transformar face às novas necessidades e desejos. Apela-se à aceitação do habitual tornado belo quando se transfere o templo das musas, o museu. Aí, o habitual torna-se quase sagrado, eleva-se! Mas um alerta: poderemos estar perante o princípio do fim do museu como uma estrutura fechada, porque a sua invasão pelas construções, fragmentos e materiais das nossas cidades, o poderão tornar irrelevante. A estrutura do museu do futuro poderá romper as paredes de qualquer edifício e assumir a área do próprio território da cidade contemporânea.

 

 

Nuno Lourenço
Licenciado em História de Arte, FCSH, Universidade Nova de Lisboa; Mestrado em História de Arte Contemporânea, Universiteit van Amsterdam, Licenciatura de Professor de Artes Visuais, Amsterdamse Hogeschool van de Kunsten e Mestrado em Práticas Artísticas em Artes Visuais, Universidade de Évora.



NUNO LOURENÇO