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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Martine Syms, Misdirected Kiss, 2016, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo


Martine Syms, Misdirected Kiss, 2016, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo


Julião Sarmento, Guilbert, 2007/2008, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo


Zanele Muholi, Bester VII, 2017, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo


Paulo Nozolino, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo


Anagramas Improváveis, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo

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COLECTIVA

ANAGRAMAS IMPROVÁVEIS. OBRAS DA COLEÇÃO DE SERRALVES




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

24 FEV - 01 AGO 2024


 


“Anagramas Improváveis” é a primeira exposição da Coleção de Serralves apresentada na nova extensão do Museu, a Ala Álvaro Siza, concebida para acolher o espólio e os arquivos da instituição, bem como mostras subjugadas ao tema da arquitetura, sobretudo dedicadas ao próprio Siza Vieira. A inauguração desta exposição decorreu no passado dia 14 de fevereiro e teve a curadoria de Marta Almeida, Isabel Braga, Inês Grosso, Ricardo Nicolau, Sónia Oliveira, Joana Valsassina e o diretor do Museu, Philippe Vergne.

Inscrita no brilhante projeto de Álvaro Siza, “Anagramas Improváveis” estende-se por uma estrutura labiríntica, numa sucessão de galerias de média escala que se desdobram e encadeiam umas nas outras, através de passagens que oferecem múltiplos e simultâneos pontos de vista das diferentes áreas. Deste modo, estabelece-se uma reticularidade do espaço, em malha, em rede, onde tudo está em ligação, em analogia com as dinâmicas contemporâneas da interconectividade.

Esta particularidade espacial consiste num desafio acrescido ao exercício da curadoria, na medida em que, impedido o isolamento e a segmentação das áreas expositivas, de obras e artistas, exige-se que a exposição seja concebida e projetada integralmente enquanto um todo, uno e contínuo.

No entanto, é também, justamente, esta singularidade do espaço que instiga o estabelecimento de diálogos e relações entre obras e autores, diferentes contextos e tempos, o que, no caso de uma coleção, se revela particularmente interessante, pois sugere repensar os objetos que a compõem, identificar e tecer novos laços entre eles e, por fim, desvendar e propor novos significados e sentidos ao espectador.

É deste modo que, ao longo da Ala Álvaro Siza, articulam-se nomes portugueses e internacionais, peças de variadíssimas materialidades, plasticidades, escalas, formas, linguagens e incontáveis forças expressivas, pluralidade esta com a qual se ergue e consolida uma vasta e heterógenea, mas, não obstante, unificada, coerente e sólida exposição.

A equipa curatorial tomou como ponto de partida a figura do anagrama, jogo de palavras através do qual se reorganizam letras para produzir novas palavras. Como se explica, esta referência remete igualmente para “uma das características principais da arte contemporânea portuguesa – a relação com a linguagem”, representada por nomes tais como Ana Hatherly e Melo e Castro. Neste intento, exibe-se grande parte do espólio da coleção de Serralves relativo aos movimentos portugueses artístico-literários dos anos 60 e 70.

Expõem-se também outros artistas incontornáveis no contexto da arte contemporânea nacional, caso de Ângelo de Sousa e Fernando Lanhas. Com eles, cruzam-se inúmeros estrangeiros de semelhante incontestável valor, tais como Martha Rosler e Giovanni Anselmo. Acrescentam-se jovens criadores de diversas nacionalidades, inclusivamente alguns que integram as novas aquisições da Fundação. Tal é o caso de Luisa Cunha, com uma obra criada propositadamente para atuar nesta exposição e na nova ala.

É justamente com essa peça que a exposição nos recebe. As palavras que a nomeiam, “É o que é”, ouvem-se em português, à entrada da galeria. Um pouco mais à frente, “It is what it is”. O objetivo da instalação sonora é colocar-nos em dúvida, tanto em relação à proveniência do som, como ao que se refere a afirmação em causa.

Mais adiante, o confronto é multidirecional e sobretudo visual, suscitado pelas várias dinâmicas que se formam a partir da colagem de imagens digitais de Martine Syms, “Misdirected Kiss” (2016). A obra, afixada em toda a extensão das paredes da primeira sala, joga com o espaço, com os seus recortes e volumetrias e com a janela em pirâmide invertida, elemento arquitetónico central do projeto de Siza. Entre as impressões em vinil de Syms, avista-se, à esquerda, uma instalação de lâmpadas LED de Cabrita Reis que, como é habitual no trabalho do artista, nos convoca, assertivamente. À direita, uma sala ocupada pela sempre impressionante série de Paula Rego, “Possessão I-VII” (2004).

Sobre a relação com o espaço, refiro a obra “Guilbert” (2007/2008), de Julião Sarmento, cuja força expressiva encontra-se efetivamente amplificada, exponenciada, pelo modo como se apresenta na galeria que a acolhe.

 

Anagramas Improváveis, Ala Álvaro Siza de Serralves. © Constança Babo

 

Também a realçar, de Silvestre Pestana, “Biovirtual, Corpo-performance” (1982), quatro fotografias às quais se sobrepõem lâmpadas, e “Computer Poem” (1982/1983), os seus poemas de computador. Através dessas duas séries, a tecnologia, a tecnicidade elétrica e a poética singulares ao artista cruzam-se com a geometria da arquitetura de Siza, e contrapõem-se com o biológico, o exterior, os jardins de Serralves.

Relativamente ao que se joga entre obras, destaco o diálogo entre o autoretrato close-up de grande escala, de Zanele Muholi, “Bester VII” (2017), da série “Somnyama Ngonyama” (“Salve, Leoa Negra” num dialeto de África do Sul) e “Sendeschluss VII Fim de Transmissão” (2014), de Wolfgang Tillmans. As duas imagens, mediante determinados pontos de vista, partilham o mesmo campo de visão. Confrontam-se, deste modo, uma tocante representação humana com um produto do automatismo tecnológico digital.

Também entre salas, “Lanterna” (2021), uma projeção de vídeo pintada a acrílico sobre tela, de Alexandre Estrela, próxima de dois elegantes exemplares de Jorge Pinheiro, em contraponto com a performativa “Onça Geométrica” (2013), de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, que irrompe, um pouco mais à frente, em expansivas expressão visual e sonora.

Enquanto casos de obras que dialogam umas com as outras, indico três fotografias de Paulo Nozolino e uma peça do escultor polaco Miroslaw Balka, dois artistas de uma mesma geração que exploram, ainda que recorrendo a diferentes media, a vida e os seus ciclos, a doença e a morte, a memória e o esquecimento.

Nesta mostra, contam-se ainda várias ligações axiomáticas, tais como entre Álvaro Lapa, Helena Almeida e Lourdes Castro, com “Profecias de Abdul Varetti, escritor falhado” (1972), “Desenho Habitado” (1977) e “Sombras à volta de um centro” (1980), respetivamente.

São, com efeito, infinitos os discursos que em tom e ritmo vivos e estimulantes se estabelecem e ecoam ao longo da exposição e da Ala, sendo vários os nomes que ficam por referir. Movida por um critério de gosto, assinalo, por último, Gerhard Richter, R.H. Quaytman e os insignes artistas visuais Arthur Java e Trisha Donnelly.

A exposição “Anagramas Improváveis”, com uma curadoria notável, honra os nomes que a constituem e a sublime arquitetura na qual se funde. A visitar, com tempo e com a abertura requerida para o que constitui a ocasião de uma densa e rica experiência estética.

 

 

Constança Babo
É doutorada em Arte dos Media e Comunicação pela Universidade Lusófona. Tem como área de investigação as artes dos novos media e a curadoria. É mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e licenciada em Artes Visuais – Fotografia, pela Escola Superior Artística do Porto. Tem publicado artigos científicos e textos críticos. Foi research fellow no projeto internacional Beyond Matter, no Zentrum für Kunst und Medien Karlsruhe, e esteve como investigadora na Tallinn University, no projeto MODINA.



CONSTANÇA BABO