Links


MÚSICA


LIARS – “1/1”

RICARDO ESCARDUÇA

2018-09-25



 

 

 

Se a exaltação pode conduzir à banalização, a possibilidade surge aqui afastada. Até mesmo na época em que a representação da máquina homogeneizadora antecede e tritura o algo de verdade no real que é anulado nessa representação, Liars evita(m) a banalização pois permanecem indefectíveis no seu próprio paradoxo: quando já não são reais, continuam a sê-lo.

“1/1”, a mais recente edição de um percurso de nove álbuns e dezoito anos, ainda que criado em 2014, vê a luz do dia em 20 de Julho passado, quando o duo formado pelo guitarrista e programador Aaron Hemphill e pelo vocalista Angus Andrew já se havia esfumado no início de 2017, reduzindo Liars à formação única de Andrew que, mais tarde no ano passado e neste formato singular, colocaria na rua “TFCF”, o antecessor de “1/1”. A sangria humana na formação da banda não foi inédita, como é sabido; foi marcada em 2014 pela partida do percussionista Julian Gross que, por sua vez, veio contrapor o abandono já distante nos anos do baixista Pat Noecker e do baterista Ron Albertson.

Será este entra-e-sai que, também, instiga a irrequietude camaleónica de Liars. O mais acentuado classicismo do quarteto rock inicial privilegiava a grandiosidade sonora das distorções e feedback da guitarra e vocais do post-punk interpolado por sintetizadores do new-wave dos anos ‘80, enquanto as produções mais recentes tenderam para o synth-rock em que a guitarra, sempre em vai-e-vem, ora se destacava em riffs à antiga ou abria espaço às camadas mais texturadas dos sintetizadores com sonoridades estruturadas e afiadas do noise e industrial à mistura. Porém, as várias inflexões formais deste percurso somam-se numa essência original que impede que caiam em mais do mesmo.

As suas composições conseguem ser tão oblíquas quão melódicas; seja no registo rectilíneo e incandescente ou no emocional e introspectivo, há sempre algo de violento, pois parecem vir de um algures remoto e sombrio para implacavelmente nos perturbar. Em “1/1”, compelem a purga da representação ao arrancar a pele que se julga real.

A composição descarna-se como ainda não antes – apesar dos trabalhos anteriores com pendor mais electrónico – para pisar o território abstracto e conceptual da electrónica experimental e ambient em que a programação da maquinaria musical e a ausência quase absoluta de vocais – a tímida excepção é “Helsingor Lane” – marcam lugar. Mas da perturbação não há escapatória.

 

 

Em “Caused By Glitch”, a base uniforme do beat e percussão é acrescentada por um continuum sombrio sintetizado que entorpece, sem que esse torpor escuro demore muito a ser abruptamente cortado por um som metálico frio e afiado, tal qual uma lâmina na mão do carniceiro na morgue a cortar-nos os ossos, que se repete na sua impassibilidade tirânica sem nos deixar sossegados. São, contudo, as ligeiras nuances tonais desta lâmina que conferem o pouco de melodia da faixa que, curiosamente, traz de regresso o torpor que começou por cortar. Logo de seguida, “Helsing Lane” abre com uma progressão melódica de um sintetizador – a lâmina é agora o arco a cortar as cordas de violoncelo – que rapidamente resvala para um ciclo depressivo e, novamente, nos persegue até a faixa encerrar, enquanto a percussão dita, através do seu eco, a distância a que estamos do que quer que seja. A salvação desse isolamento claustrofóbico, se alguma, é o murmúrio espectral de Andrew que traz ao cantar “Since I’ve came to my hollow / I found a can to explode / When eyes are closed / That’s when we come / Let flowers grow / To the ceiling”. No seu minimalismo abstracto “Drastic Tactic” contrasta de "Telepathic Interrogation" e "Nøkke"; se a primeira nos desperta bruscamente para o desespero do vazio árido em que nos faz vaguear, as restantes criam uma paisagem sonora abstracta capaz de serenar o tormento, num intervalo redentor em que o tempo fica suspenso. “Liquorice” é a única aproximação a um registo pop, evocativo da imagética sonora sci-fi que há quarenta anos fazia imaginar os anos de hoje, e hoje não parece mais que uma caricatura.

 

 

Exemplar na criação de tão variadas paisagens emocionais, não será de estranhar que “1/1” seja, na realidade, a banda sonora de um filme homónimo – o que explica que apenas agora seja lançado, acompanhando o filme. O enredo aborda a decadência quotidiana numa América rural – nada de novo, mas relevante, em função da mestria em tocar no tema. Mas “1/1” não se reduz à categoria de acompanhante. Não só se sublinha a sua capacidade enquanto obra autónoma em gerar e perturbar como, por esse mesmo motivo, se adivinha que agregue valor.

“1/1” oferece uma colecção de rápidas mas intensas experiências através de um conjunto de faixas que, na sua maioria, vivem entre minuto e meio e três minutos – apenas “Helsingor Lane” e “”Beyond” escapam a esse carácter compacto – que nos atiram para um vórtice caótico emocional, no qual a organização da tracklist amplifica o caos alternante dos estados de espírito que faz atravessar, fazendo sobressair a globalidade do trabalho face às suas parcelas. É esta capacidade em arrancar a pele, anular a representação e deixar a carne e os ossos à vista que concedem a Liars a antítese da banalização.

 

 

“1/1” tracklist

1. No Now Not Your Face
2. Cottagevej
3. Caused By the Glitch
4. Helsingor Lane
5. Lesson in Threes
6. Telepathic Interrogation
7. Gesta Danorum
8. Caused by the Pitch
9. The Jelling Ship
10. Shitraver
11. Drastic Tactic
12. Liquorice
13. Nøkke
14. The Finger Plan
15. Beyond

 




Outros artigos:

2018-11-30


LLAMA VIRGEM – “desconseguiste?”
 

2018-10-29


SRSQ – “UNREALITY”
 

2018-09-25


LIARS – “1/1”
 

2018-07-25


LEBANON HANOVER - “LET THEM BE ALIEN”
 

2018-06-24


LOMA – “LOMA”
 

2018-05-23


SUUNS – “FELT”
 

2018-04-22


LOLINA – THE SMOKE
 

2018-03-17


ANNA VON HAUSSWOLFF - DEAD MAGIC
 

2018-01-28


COUCOU CHLOÉ
 

2017-12-22


JOHN MAUS – “SCREEN MEMORIES”
 

2017-11-12


HAARVÖL | ENTREVISTA
 

2017-10-07


GHOSTPOET – “DARK DAYS + CANAPÉS”
 

2017-09-02


TATRAN – “EYES, “NO SIDES” E O RESTO
 

2017-07-20


SUGESTÕES ADICIONAIS A MEIO DE 2017
 

2017-06-20


TIMBER TIMBRE – A HIBRIDIZAÇÃO MUSICAL
 

2017-05-17


KARRIEM RIGGINS: EXPERIÊNCIAS E IDEIAS SOBRE RITMO E HARMONIAS
 

2017-04-17


PONTIAK – UM PASSO EM FRENTE
 

2017-03-13


TRISTESSE CONTEMPORAINE – SEM ILUSÕES NEM DESILUSÕES
 

2017-02-10


A PROJECTION – OBJECTOS DE HOJE, SÍMBOLOS DE ONTEM
 

2017-01-13


AGORA QUE 2016 TERMINOU
 

2016-12-13


THE PARKINSONS – QUINZE ANOS PUNK
 

2016-11-02


patten – A EXPERIÊNCIA DOS SENTIDOS, A ALTERAÇÃO DA PERCEPÇÃO
 

2016-10-03


GONJASUFI – DESCIDA À CAVE REAL E PSICOLÓGICA
 

2016-08-29


AGORA QUE 2016 VAI A MEIO
 

2016-07-27


ODONIS ODONIS – A QUESTÃO TECNOLÓGICA
 

2016-06-27


GAIKA – ENTRE POLÍTICA E MÚSICA
 

2016-05-25


PUBLIC MEMORY – A TRANSFORMAÇÃO PASSO A PASSO
 

2016-04-23


JOHN CALE – O REECONTRO COM O PASSADO EM MAIS UMA FACE DO POLIMORFISMO
 

2016-03-22


SAUL WILLIAMS – A FORÇA E A ARTE DA PALAVRA ALIADA À MÚSICA
 

2016-02-11


BIANCA CASADY & THE C.I.A – SINGULARES EXPERIMENTALISMO E IMAGINÁRIO
 

2015-12-29


AGORA QUE 2015 TERMINOU
 

2015-12-15


LANTERNS ON THE LAKE – SOBRE FORÇA E FRAGILIDADE
 

2015-11-11


BLUE DAISY – UM VÓRTEX DE OBSCURA REALIDADE E HONESTA REVOLTA
 

2015-10-06


MORLY – EM REDOR DE REVOLUÇÕES, REFORMULAÇÕES E REINVENÇÕES
 

2015-09-04


ABRA – PONTO DE EXCLAMAÇÃO, PONTO DE EXCLAMAÇÃO!! PONTO DE INTERROGAÇÃO?...
 

2015-08-05


BILAL – A BANDEIRA EMPUNHADA POR QUEM SABE QUEM É
 

2015-07-05


ANNABEL (LEE) – NA PRESENÇA SUPERIOR DA PROFUNDIDADE E DA EXCELÊNCIA
 

2015-06-03


ZIMOWA – A SURPREENDENTE ORIGEM DO FUTURO
 

2015-05-04


FRANCESCA BELMONTE – A EMERGÊNCIA DE UMA ALMA VELHA JOVEM
 

2015-04-06


CHOCOLAT – A RELEVANTE EXTRAVAGÂNCIA DO VERDADEIRO ROCK
 

2015-03-03


DELHIA DE FRANCE, PENTATONES E O LIRISMO NA ERA ELECTRÓNICA
 

2015-02-02


TĀLĀ – VOLTA AO MUNDO EM DOIS EP’S
 

2014-12-30


SILK RHODES - Viagem no Tempo
 

2014-12-02


ARCA – O SURREALISMO FUTURISTA
 

2014-10-30


MONEY – É TEMPO DE PARAR
 

2014-09-30


MOTHXR – O PRAZER DA SIMPLICIDADE
 

2014-08-21


CARLA BOZULICH E NÓS, SOZINHOS NUMA SALA SOTURNA
 

2014-07-14


SHAMIR: MULTI-CAMADA AOS 19
 

2014-06-18


COURTNEY BARNETT
 

2014-05-19


KENDRA MORRIS
 

2014-04-15


!VON CALHAU!
 

2014-03-18


VANCE JOY
 

2014-02-17


FKA Twigs
 

2014-01-15


SKY FERREIRA – MORE THAN MY IMAGE
 

2013-09-24


ENTRE O MAL E A INOCÊNCIA: RUTH WHITE E AS SUAS FLOWERS OF EVIL
 

2013-07-05


GENESIS P-ORRIDGE: ALMA PANDRÓGINA (PARTE 2)
 

2013-06-03


GENESIS P-ORRIDGE: ALMA PANDRÓGINA (PARTE 1)
 

2013-04-03


BERNARDO DEVLIN: SEGREDO EXÓTICO
 

2013-02-05


TOD DOCKSTADER: O HOMEM QUE VIA O SOM
 

2012-11-27


TROPA MACACA: O SOM DO MISTÉRIO
 

2012-10-19


RECOLLECTION GRM: DAS MÁQUINAS E DOS HOMENS
 

2012-09-10


BRANCHES: DOS AFECTOS E DAS MEMÓRIAS
 

2012-07-19


DEVON FOLKLORE TAPES (II): SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA COM DAVID CHATTON BARKER
 

2012-06-11


DEVON FOLKLORE TAPES - PESQUISAS DE CAMPO, FANTASMAS FOLCLÓRICOS E LANÇAMENTOS EM CASSETE
 

2012-04-11


FC JUDD: AMADOR DA ELETRÓNICA
 

2012-02-06


SPETTRO FAMILY: OCULTISMO PSICADÉLICO ITALIANO
 

2011-11-25


ONEOHTRIX POINT NEVER: DA IMPLOSÃO DOS FANTASMAS
 

2011-10-06


O SOM E O SENTIDO – PÁGINAS DA MEMÓRIA DO RADIOPHONIC WORKSHOP
 

2011-09-01


ZOMBY. PARA LÁ DO DUBSTEP
 

2011-07-08


ASTROBOY: SONHOS ANALÓGICOS MADE IN PORTUGAL
 

2011-06-02


DELIA DERBYSHIRE: O SOM E A MATEMÁTICA
 

2011-05-06


DAPHNE ORAM: PIONEIRA ELECTRÓNICA E INVENTORA DO FUTURO
 

2011-03-29


TERREIRO DAS BRUXAS: ELECTRÓNICA FANTASMAGÓRICA, WITCH HOUSE E MATER SUSPIRIA VISION
 

2010-09-04


ARTE E INOVAÇÃO: A ELECTRODIVA PAMELA Z
 

2010-06-28


YOKO PLASTIC ONO BAND – BETWEEN MY HEAD AND THE SKY: MÚLTIPLA FANTASIA EM MÚLTIPLOS ESTILOS