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MÚSICA


UMA LIVRE ASSOCIAÇÃO DO HERE COME THE WARM JETS

ANDRÉ FONTES

2020-07-15



 

 

 

A Susana sentava-se à frente nas aulas de Lógica, e a Susana usava uma flor branca no cabelo e relanceava as filas de trás à procura de qualquer coisa que eu queria – e que ainda quero – que fosse eu.

Um dia apanhou-me, olhos nos olhos. Eu tremi, ela sorriu. Quando cheguei a casa, depois das aulas, tinha uma música dela à espera, um «vê se gostas» à la primeiro contacto de Facebook. A «Light My Fire». Coisa simples e tímida, coloquial, até. Coloquial porque a Susana vestia uma nostalgia dos sessenta, e nunca tendo falado com ela era justo temer que a «Light My Fire» fosse dar em conversas sobre vegetarianismo, medicina Ayurveda  e misticismo de festival. Mas não, a «Light My Fire» foi dar à «I Wanna Be Your Dog». 

A Susana sabia que eu tinha uma namorada, e esboçava-lhe um sorriso quando a via pela faculdade – sorria-nos, na verdade. 

A música que trocávamos era banal e parecia servir de pretexto para uma correspondência diária acerca o que é bom ou mau nas pessoas, sobretudo acerca o que é sexy ou não nas pessoas. Discordávamos. 

Certa noite, após várias noites de teasing musical, enviei-lhe o link para a «Baby’s on Fire» do Brian Eno.

 

 

 

Ela gostou. Comparou a linha de guitarra do Robert Fripp com uma serpente de fogo que a orlava em ondulações provocadoras. A Susana dava-se a liberdades poéticas que, quando não me irritavam, intimidava-me. E as coisas que ela me disse por causa do Here Come the Warm Jets tornaram-no num álbum importante e absolutamente recomendável. Como a Susana sugeriu, numa certa noite de Dezembro, o Here Come the Warm Jets foi o último bom álbum da terceira juventude do rock: o glam. E quase parece que o Brian Eno o sabia:

 

It's not so much a living hell
It's just a dying fiction

 

 

 

Rebuscado? Talvez. Mas, tal como a Susana, consigo agora usar e abusar do significado destes versos sem achar que estou a cometer uma injustiça. O próprio Brian Eno incentiva-me a isso, classificando as letras do álbum como produtos de «livre associação».

 

Blank Frank has a memory that's as cold as an iceberg
The only time he speaks is in incomprehensible proverbs

 

 

 

É realmente preciso um esticão de imaginação para trazer um significado intrínseco à «Blank Frank». Mas noutras faixas, como a «Cindy Tells Me», há algo próximo de uma intrinsecidade semântica:

 

Cindy tells me, the rich girls are weeping
Cindy tells me, they've given up sleeping alone
And now they're so confused by their new freedoms

 

 

 

Porém, não deixa de ser prudente que se leve a sério a palavra do Brian Eno. Um músico talentoso não conduz uma banda à estratosfera para a abandonar no pico do sucesso e fazer-se poeta depois. Os Roxy Music estavam apontados para o estrelato, o Brian Eno para a inventividade. Como o próprio reconheceu, os Roxy foram uma visão do Brian Ferry. E aquela melancolia de cocktail, com os fatos bege e os romances de verão, não precisou da mão de um visionário sónico para se tornar lendária. O Brian Eno partiu em busca de complexidade, juntando uma colecção de egos emprestados dos King Crimson, dos Hawkind, dos Pink Fairies e de outros para estrear um primeiro álbum que desafiou a identidade do rock popular. Um glam avant-garde encerrado numa teatralidade burlesca e sustentada por sintetizadores futuristas, onde as letras são acidentais e onde a voz de um demónio pansexual é alternada pela do observador sombrio.

 

Oh perfect masters
They thrive on disasters

 

Foi uma orgia caleidoscópica de disparos de lasers, de solos serpeantes e de uma electrónica retumbante que eu quis oferecer à Susana quando lhe mostrei a «Baby’s On Fire». Mas o que ela recebeu foram os intervalos sombrios, os sopros de uma solidão gélida que se infiltra no calor da festa. Da «Some Of Them Are Old», ela recortou e mandou-me:

 

People come and go and forget to close the door
And leave their stains and cigarette butts trampled on the floor
And when they do
Remember me, remember me

 

 

 

Lembro-me de olhar para o ecrã do telemóvel e de sentir que a quadra marcava um compasso anticlimático no meu adultério. Nessa noite, deitei-me e fui-me deixando diluir no significado da quadra até o sono chegar. E no dia seguinte, acordei com uma tristeza nova.

Os meses foram passando, e as festas foram passando, e o meu romance com o adultério foi-se tornando num simples romance. No fim daquele primeiro semestre, as minhas saídas com a Susana foram rareando, saídas em que ela me pintava os olhos e as unhas de preto e em que recriávamos um imaginário entre o glam e o punk em beijos contra as paredes sujas do Cais.

– Olá, Susana.
– Olá, André.
– Vais fazer alguma coisa depois de estudar?
– Vou pra casa. Tenho um trabalho pra entregar.
– Na boa.

Foi-se tornando nisto.

E quanto mais piorava, mais eu esperava por ela. Passava horas na biblioteca da Faculdade de Letras, com os livros numa mesa central, à espera de a ver. E via-a. Via-a sempre noutra mesa, a estudar, numa mesa cada vez mais longe da minha. Janeiro adentro, o cinismo foi-se imiscuindo na casualidade do nosso contacto, e lembro-me do cheiro do piso molhado da faculdade e da secura na boca após longas tardes a fumar cigarros nos intervalos do meu suposto estudo.

– Então, André? Ainda ‘tás aqui?
– Hum? Sim, sim. ‘Tou a acabar um trabalho de Filosofia Antiga.
– Ah…
– Vais pra casa?
– Vou.
– Então vai.

E foi isso.

Ainda houve uma ou outra troca de versos subliminares do Here Come the Warm Jets:

 

Unlikely
I'll be remembered

 

E:

 

I gave up my good living
Typical, I'm most sentimental

 

 

 

Mas não discutimos significados. Os significados ficaram para cada um de nós, todos eles, como pedaços de uma ficção sem porquê ou para onde.

 

 

 

 

 

André Fontes
Licenciado em Filosofia, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e pós-graduado em Artes da Escrita, pela Universidade Nova de Lisboa, André publicou, em 2019, o seu primeiro romance, Saturnália, editado pela Guerra e Paz Editores.
 




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