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LAURIE ANDERSON À CONVERSA EM LISBOA

2014-11-10




Houve sala cheia ontem no Espaço Nimas para receber Laurie Anderson, que esteve à conversa com o produtor Paulo Branco num evento integrado no Lisbon & Estoril Film Festival, que decorre até dia 16 deste mês. Falou-se de trabalho, de cães, do mundo e da vida.

Denominou-se a si própria “artista multimédia”, por estar farta de ser questionada por pintar um quadro quando faz também música, ou por filmar quando também escreve. Laurie Anderson falou de si, do seu trabalho e através dele da sua vida e da sua posição perante o mundo. Começou por partilhar a experiência na prisão italiana de San Vittore, que resultou numa instalação na Fondazione Prada, em Milão, onde jogou com os conceitos de encarnação, encarceramento, estar e não estar. Afirmando ser uma artista que se refaz a cada instante, Laurie Anderson evocou o seu concerto para cães de 2010, nos degraus da Ópera de Sidney. Sobre ele diz que “foi uma das experiências mais gratificantes de fazer música”, algo que não é de estranhar quando estamos em frente a uma artista que afirma mudar de estilo muitas vezes: “tento colocar-me em situações nas quais não sei como reagir”. E pegando nesta ideia, partilhou duas experiências opostas: a de ter trabalhado num restaurante McDonald´s, onde confessou ter ficado muito satisfeita por poder dar às pessoas aquilo que elas simplesmente pediam, e o tempo que passou numa quinta hamish, para onde foi com a intenção de fugir à tecnologia e de onde saiu com a imagem de uma criança a aprender, pela primeira vez na vida, a ter que beijar pessoas sem qualquer afeição.

É de momentos aparentemente leves, onde Laurie Anderson leva a plateia ao riso, que paradoxalmente são feitos os momentos mais emotivos, em que todos a ouvem em silêncio. Aconteceu quando a partir de uma menção a um furacão se tornou, de repente, numa confissão da sua experiência em perder coisas, em aprender a sentir-se mais leve, momento em que evocou os 49 dias budistas que conduzem à libertação e a morte de Gordon Matta Clark, afirmando que os cães nos fazem sentir que a vida é extremamente simples. Levantou de seguida o véu sobre o filme que tenciona fazer sobre a cadela Lolabelle. Os cães foram um assunto recorrente, assim como a abordagem a uma forma de estar no mundo. Sem reservas, afirmou: “aprendi mais sobre o amor com o meu cão do que com as pessoas”.

Citou Kierkegaard quando falou dos avanços e recuos no processo de se contar uma estória, questionou-se sobre o direito inalienável à imagem quando pode estar em jogo um “bem maior” e afirmou gostar de encontrar pessoas que pensam de forma diferente. A resposta à questão “qual é o motor que move tudo isto?” talvez seja dada mais tarde, Paulo Branco encerrou com uma promessa: “esta conversa continuará no próximo ano”.


Natália Vilarinho

[a autora escreve de acordo com a antiga ortografia]