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NA PEÇA SOPRO, TIAGO RODRIGUES CONVOCA MEMÓRIA E DISTOPIA

2017-11-02




A peça estreou com sucesso no Festival d´Avignon e chega hoje ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. É uma ode à memória, com Cristina Vidal em grande destaque, onde se antevê também o futuro do teatro.

É um palco em ruínas, o que espera o público que for assistir a Sopro, a partir desta quinta-feira, 2 de Novembro, na Sala Garrett, a maior e mais luxuosa do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. A acção da nova peça do seu director artístico, Tiago Rodrigues, passa-se ali mesmo, mas em 2080, num futuro em que este tipo de espectáculo se tornou obsoleto e tudo o que resta são os fantasmas dos actores e personagens que por lá passaram. Quem os faz renascer é Cristina Vidal, ali a trabalhar como ponto, profissão em vias de extinção, desde 1978. Pela primeira vez, sai da sombra, onde preenche as lacunas das memórias em palco, e sobe ao proscénio, sob um foco de luz - mas não larga os papéis com o texto da récita. Mesmo em cena, ela é ponto - e "sopra" falas ao elenco que a rodeia, formado por Beatriz Brás, Cristina Vidal, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vítor Roriz.

Cristina não é, porém, apenas a matéria, a personagem principal e uma das actrizes da peça: foi também a inspiração de Tiago Rodrigues para a escrever, deslumbrado que estava com o seu trabalho (de uma vida, já lá vão quase 30 anos) desde que a conheceu, em 2010, quando ali trabalhou pela primeira vez, quatro anos antes de se tornar o director artístico do teatro nacional lisboeta, em 2014.

O pior foi convencê-la a sair da sombra e expor a sua vida, em discurso, no palco. É justamente por aí que a peça começa, com aquele a que ela se refere sempre como "o director do meu teatro" a explicar-lhe a pertinência do projecto. "Tu és a memória e os pulmões do teatro", diz-lhe, para a persuadir - e é então que, neste espectáculo que o jornal francês Le Figaro definiu como "uma homenagem vibrante ao teatro e àqueles que o fazem" quando estreou este Verão no Festival d´Avignon, as lembranças chegam.

Algumas são divertidas, como a do actor d´O Avarento, de Molière, que improvisava o texto todo, outras dolorosas, como a da actriz da Antígona, de Sófocles, que soube que o irmão tinha morrido minutos antes de entrar em cena, e só no final a voz de Cristina Vidal sobe de tom: é para dizer os versos finais de Berenice, de Racine, os mesmos que em tempos foram "a primeira branca" de uma grande actriz, tida como infalível - e sintoma de doença. Revivem agora, num poético e conceptual Sopro.

Sopro
Teatro Nac. D. Maria ii, Lisboa
De 2 a 19/11 • 4.ª, 19h • 5.ª a sáb., 21h • Dom., 16h
€5 a €17


Fonte: Sábado