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CHEGOU A HORA DOS DESIGNERS



JOSÉ BÁRTOLO

2012-09-21




Muitos de nós – eu incluído – manifestaram publicamente uma crença nas capacidades do design; escreveram, falaram e ensinaram sobre os valores da disciplina; defenderam a responsabilidade social do design e o seu alcance e efetividade cultural, económica e política; navegaram a onda, de há uma década, dos princípios do design social; beberam um século de manifestos e manifestaram a necessidade de um design crítico, ativo e comprometido.

Fizeram-no com as melhores intenções, mesmo que a maior parte das vezes não tenhamos ido além das palavras e, em muitos casos, tenhamos ficado a pregar no deserto.

Muitos de nós – eu incluído – talvez tenhamos levado o design e nos tenhamos levado a nós próprios demasiado a sério; muitos de nós acreditámos na existência de uma comunidade, de uma pluralidade de vozes unida por um mesmo sentido crítico, sem nos darmos ao trabalho de, com olhos de ver, perceber se existe alguma dimensão corporativa ou algum sentido de comunidade no design em Portugal e, sobretudo, sem nos darmos ao esforço de perceber se nós somos capazes de fazer alguma coisa.

Foram e são muito poucos os designers com uma ideia clara sobre o design português; nos melhores casos, os designers estão preocupados em fazer bem o seu trabalho, na maioria dos casos, os designers estão apenas preocupados em ter trabalho. O discurso que alguns de nós têm – da valorização da autoria à defesa da educação do cliente – faz parte de uma narrativa paralela, que se vê como um episódio do Fringe; servirá para encher o verbo da crítica e para marcar um programa de aulas de Teoria do Design e pouco mais. Mas como num episódio, de argumento mais esgotado, do Fringe, o design português tem essa natureza complexa de ser o que é e ser, ainda, espaço de projeção de mundos virtuais, bolhas que existem como epifenómenos ou de existência paralela, chamem-se eles Experimentadesign ou Centro Português de Design (CPD).

Em mais do que um aspecto, o design português é algo a meio caminho entre a arte e a arquitetura. Os designers não se comem vivos como os artistas, não se educaram a dar abraços de frente e facadas por trás, nem têm a presunção dos arquitetos, o seu sentido de classe, as guerrilhas da ordem. O mundo do design é um bocadinho parecido, mas um nada mais light e, em muitos casos, mais autêntico e consensual. Sem grande polémica, condescendemos com as duas associações de designers, já nos esquecemos para que serve o CPD, já nos conformámos com a inexistência de uma política – desde as tentativas, mesmo que tímidas, do Augusto Mateus – para o Design, já resignámos à pequenez do nosso mercado, já demos de barato que qualquer projeto pessoal dar-nos-á muito trabalho, custar-nos-á tempo e dinheiro e ficará esquecido dentro de um círculo muito fechado.

Com os anos 90, fomos percebendo que somos cada vez mais; cada vez mais escolas, mais cursos, mais licenciados, pós-graduados, mestres. Escolas de todo o tipo, formaram licenciados de todo o género. No essencial, as coisas não mudaram. Hoje há escolas fraquinhas e escolas muito boas, umas e outras, por acidente ou vocação, formam designers fraquinhos e designers muito bons. Há-os em todo o lado, em centros de cópias e a continuar os estudos, em estágios intermináveis e a abrir os próprios ateliês, no desemprego e a emigrar.

Desde o fim do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), no início dos anos 70, que não existe em Portugal um organismo público capaz de empregar e enquadrar jovens designers; os concursos do Jovem Designer, morreram na morte lenta do ICEP e no cansaço da sua impulsionadora (Madalena Figueiredo) e tornaram-se coisa obsoleta com a visibilidade constante do trabalho – muito de inegável qualidade – de jovens designers nos Flickr e Behance. A situação hoje não é má, é péssima. Mesmo a decisão de emigrar, obriga a um maior esforço individual, com a gradual extinção das bolsas e programas de apoio à investigação e à criação.

Poder-nos-íamos perguntar porque existem tão bons designers, tão bons projetos, tão boas escolas, tão bons professores e tão bons alunos, num país tão pobre e mal governado, poder-nos-íamos questionar porque somos tão resilientes e competentes, sendo filhos de uma geração que nasceu em ditadura e pertencendo a uma geração que nasceu numa democracia incompetente.

Mas no atual contexto de destruição do país, no atual momento de severo ataque aos princípios da cidadania, de anulação do estado social, de alienação de valores e ideologias em nome de uma obscura ditadura do financeiro, o que me interessa questionar é: O que temos para dizer? O que somos capazes de fazer? Que força encontramos em nós para reagir?

Muitos de nós – eu incluído – não nos revemos no atual estado do país; não nos identificamos com a política de governação; acreditamos no poder da cidadania; e temos esperança na afirmação do poder do designer-cidadão; muitos de nós – eu incluído – não hesitamos em afirmar a necessidade imperiosa, das escolas de design, das associações, dos professores de design, dos críticos, dos designers, de todos nós, tomarmos posição; muitos de nós sabem que não podemos ser neutrais; e que é impossível ficar em silêncio.

Muitos de nós – eu incluído – não hesitam em afirmar uma vontade de pensar e de criar alternativas, uma vontade de o pensar e o fazer com outros, uma vontade de unir forças, de pensar estratégias, de concretizar ações. Muitos de nós, sentimos que é a partir no nosso campo de trabalho – o design – e a partir das ferramentas da nossa disciplina – o design – que devemos ser capazes de mobilizar, de discutir e de agir.

Os processos de comunicação vêm-se tornando cada vez menos democráticos e dialogantes, mais vazios ideologicamente, mais hierarquizados e opressivos; há que levar o design para o espaço público – da rua à internet – cumprindo a vocação do design de catalisar, mediar, amplificar. Devemos usar os meios, os suportes, as técnicas, as referências, as ideias do design para comunicar causas, defender valores, concretizar ações. Devemos fazê-lo aqui e agora.

Muitos de nós – eu incluído – acreditam que “nunca se ter feito nada” não impede que se possa, agora, fazer. Já foi tempo de dividir vozes e promover a pluralidade; agora é tempo, de unir esforços e promover a mudança.


José Bártolo