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OPINIÃO


Dolce far niente (1997), de Ettore Spalletti, XLVII Biennale di Venezia, 1997. Fotografia: Attilio Maranzano.


Vaso (1992), Cappelle sul Tavo (1982), La bella addormentata (1979), Ettore Spalletti.


Gruppo della fonte (1988), Ettore Spalletti, La Criée, Renne. Colecção: Musée d’Art Modern e Contamporaine Centre Pompidou, Paris. Fotografia: Attilio Maranzano


Documenta IX, Ettore Spalletti, Kassel, 1992. Fotografia: Attilio Maranzano


Viaggio verso Citera, Ettore Spalletti, Casinò Municipale, XLV Biennale di Venezia, 1993. Fotografia: Attilio Maranzano

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EM LOUVOR DA BELEZA



MIKE WATSON

2014-08-04




A ênfase do crítico Clement Greenberg na beleza abstracta como a componente específica do artista plástico, que influenciou uma geração de pintores desde Pollock até Rothko, deu lugar desde os anos 1950/60 ao enfoque da arte contemporânea no repensar da sociedade e no papel que a arte tem nela. É raro que um trabalho artístico esteja agora absolutamente desprovido de qualquer conteúdo político, conceptual ou social, seja isso através da análise do corpo (Marina Abramovic, Franko B), de assuntos metapolíticos (Beuys, Ai Weiwei), de questões ontológicas (Duchamp, Magritte), ou através de uma relação entre arte e produção capitalista (Warhol, Koons).

Embora se possa argumentar que um absoluto desprezo por um conteúdo social possa existir e existe efectivamente, tal postura é demasiado bem ensaiada para ser genuína. Lembramo-nos das entrevistas de Francis Bacon com David Sylvester nas quais o desaparecido artista recusa absolutamente reconhecer qualquer conteúdo social nas suas pinturas, e a incredibilidade com que Sylvester tratou esta questão. Ao mesmo tempo, no entanto, as forças gémeas da arte-como-política por um lado, desprovida de beleza como consideração central – corporizada nos trabalhos e acções de Tania Bruguera, Ursula Biemann, as Guerrilla Girls, Grupo Etcetera, Teatro Valle, Voina, Pussy Riot e por aí fora – e, por outro lado, a mercantilização da arte até à “n” potência, arriscam-se a perder algo de crucial devido à sua marginalização da beleza estética.

É um retorno à beleza estética como consideração que ressaltou este ano o envolvimento do Museu MADRE, em Nápoles, em “Un Giorno Così Bianco, Così Bianco”, numa grande retrospectiva do trabalho de Ettore Spalletti que abarca três sítios: o MAXXI, em Roma; GAM, em Turim; e o MADRE ele mesmo. De interesse particular estava “La Bella Addormentata” (1965), a silhueta de uma montanha nos Apeninos que evoca o perfil de uma mulher a dormir. Este trabalho antecede os posteriores trabalhos de Spalletti inteiramente abstractos na sua representação da paisagem como algo que vibra e não pode ser definido ou contido, como as arestas afiadas e ao mesmo tempo subtis da montanha tocando o espaço vazio. A trindade da montanha, corpo e observador conduz de certa maneira para o exterior do próprio museu, ecoando a intensa fisicalidade de Nápoles, observada de cima pelo seu vulcão, o Vesúvio.

Spalletti, que nasceu em 1940, vem de uma geração de artistas para os quais as considerações formais permaneciam cruciais, num país – Itália – onde a beleza é sem dúvida valorada como em nenhum outro. No catálogo da exposição, Spalletti é citado dizendo “a arte contemporânea, na minha opinião, assume a responsabilidade do espaço, como oposição à velha arte, em que esta era delimitada pela moldura.” Tomando para si a implicação de libertar a pintura da sua moldura física, esta citação não é particularmente uma novidade, mas vista neste contexto da exposição e da sua relação com Nápoles e Itália, pode ajudar a clarificar o que há na beleza e é fundamental para o sucesso da arte, mesmo quando se mantém um foco social rígido ou orientado para o mercado. A beleza – na formulação extremamente influente de Kant, descrita na sua “Crítica do Julgamento” (1790) – é uma suspensão da capacidade de cognição num sujeito confrontado com algo que não consegue compreender completamente mas que guarda mesmo assim um interesse peculiar. Tomando isto em conta, juntamente com a citação de Spalletti, está implícita uma superação da moldura/enquadramento que pode ser mais crucial para conseguir um equilíbrio entre preocupações sociais e estéticas na arte.

A arte social opõe-se precisamente aos auspícios controladores da racionalidade – que encontra o seu zénite na redução de todas as coisas a um valor monetário – à qual a experiência da beleza, em estando para lá de uma definição, escapa. Em Nápoles, a moldura para lá da qual vai o trabalho de Spalletti pode ser vista como uma que divide o próprio sítio da arte do resto da cidade e da região onde se situa, enquanto simultaneamente une o espectador e o ambiente do qual fazem parte. Isto, sem dúvida, ocorre ao mesmo tempo que uma suspensão da capacidade de julgamento crítico se dá na mente do observador em frente de um trabalho como “La Bella Addormentata”. As falsas categorizações incluídas no pensamento racional são aqui postas em espera: ie, dualidades como corpo-mente, sujeito-objecto, humano-natureza. Foram estas mesmas dualidades que levaram os humanos a maltratar tanto o ambiente como a maltratarem-se uns aos outros – através da falta de reconhecimento da conexão da pessoa ao ambiente e a todos as outras pessoas – talvez a beleza necessite de ser restaurada na arte em vez de considerada uma preocupação estéril associada ao Modernismo e a períodos anteriores. Caso contrário, o risco é a “arte-como-política”, a “pesquisa artística” e o Conceptualismo perderem, na sua destacada frieza, precisamente o que na arte pode ser exemplar de uma melhor relação entre a humanidade e a natureza. [versão portuguesa do original inglês]



Mike Watson
Teórico, com doutoramento em Filosofia pelo Goldsmiths College, contribui regularmente para as publicações Frieze, Art Review, Art Monthly, Flash Art International e Radical Philosophy.



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Este artigo foi originalmente publicado na ArtReview, Verão 2014.