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OPINIÃO


Aimée Zito Lema, 13 shots (2018). Serigrafias (série).


Aimée Zito Lema, 13 shots (2018). Still da vídeo-instalação, cor, som, projecção em estrutura Truss.


Joana Patrão, Becoming: meditations on landscape (I) (2020). Desenho.


Rouzbeh Akhbari, Prizes From Fairyland (2018). Instalação MDF, 4K projecção vídeo, 325x156x185cm.


Nithya Iyer, Notes from Atopia (2020). Imagem preparatória para workshop.


Conferência de Dámaso Randulfe inserida no workshop This is no Longer That Place: A Public Discussion. The Showroom, Londres (2019). Créditos da imagem: Arturo Bandinelli.


Amira Hanafi, The Science of a Good Lie (2018). Exposição resultante da residência artística em Vilnius. Créditos da imagem: Andrej Vasilenko.

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PEDRO PORTUGAL

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MARIA BEATRIZ MARQUILHAS

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O DECLÍNIO DA ARTE: MORTE E TRANSFIGURAÇÃO (II)

MARIA BEATRIZ MARQUILHAS

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VICTOR PALLA (1922 - 2006)

JOÃO SILVÉRIO

2006-04-12
VIENA, 22 a 26 de Março de 2006


O PROJETO INTERNACIONAL 4CS E COMO A ARTE PODE, MAIS DO QUE NUNCA, CRIAR NOVOS ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA



JULIA FLAMINGO

2020-06-22




 

 


Uma performance em que 250 pessoas vestidas de branco atravessam o Tejo num mesmo barco, e ao chegar à Estação Fluvial de Belém, marcham juntas e pacificamente enquanto cantam ópera a plenos pulmões. A performance “Libertas – Da condição de pessoa livre”, de Vasco Araújo, deu-se em junho de 2019, mas após este longo isolamento obrigatório, a sensação é que muito mais tempo se passou. E quem sabe quantos meses serão necessários até que um encontro do tipo volte a acontecer? Com máscaras, luvas e sem contato social algum, ninguém pode sequer oferecer a mão. É em momentos de crise como este, porém, que a arte se faz ainda mais necessária: ela ajuda a nos aproximarmos, e proporciona espaços de convivência, onde é possível oferecer também o braço, a atenção e a empatia.

A emblemática performance é uma das ações que integram o extenso programa do 4Cs – From Conflict to Conviviality through Creativity and Culture. Ou, como a criatividade e a cultura podem propor novas possibilidades de convivência em meio a tantos conflitos políticos, econômicos, sociais e ambientais do século 21? O projeto co-financiado pelo Programa Europa Criativa da União Europeia tem quatro anos de duração e pesquisa as maneiras como a mediação na arte e na cultura, e a criação participativa e coletiva, criam o diálogo necessário para a resolução de conflitos. Atividades agregadoras como a performance de Vasco Araújo despertam uma sensação de coletividade e conexão e fazem pensar, por exemplo, na liberdade nos dias atuais: em quantas sociedades contemporâneas não é permitido soltar a voz?

Iniciado em 2017, o projeto tem Portugal como país-sede e acontece em oito países em simultâneo. “O 4Cs é ambicioso - e talvez idealista - nos seus objetivos”, admite Luísa Santos, a curadora portuguesa que está à frente do programa. “Mas é preciso lembrar que é feito por um conjunto de instituições com um trabalho muito sólido na relação da arte com a sociedade, em particular em tempos de conflito”. A instituição coordenadora do 4Cs é a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, onde Luísa Santos é professora e pesquisadora. O CECC - Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da universidade ligado ao Lisbon Consortium gerencia todas as atividades do 4Cs e tem na equipe a reitora da UCP, Isabel Capeloa Gil, além de professores como Peter Hanenberg. Adriana Martins e Inês Espada Vieira; curadoras e investigadoras como Ana Cristina Cachola, Daniela Agostinho e Fabíola Maurício; produtoras como Maria Duarte; e, finalmente, a colaboração de alunos como Ana Trincão, Federico Rudari, Julia Flamingo, Mattia Tosti, Sofia Steinvorth e Teresa Pinheiro.

Outra exposição emblemática organizada pela equipa foi a da holandesa Aimée Zito Lema, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2018. Suas serigrafias estudavam as imagens como dispositivos de violência, e como elas podem perpetuar ou subverter memórias. Desta vez, o trabalho em coletivo se deu com o o Grupo de Teatro da Escola Secundária Filipa de Lencastre e o Grupo de Teatro do Oprimido. A artista propôs que alguns adolescentes pesquisassem memórias de suas famílias do 25 de Abril e as transformassem em performances. Foi uma maneira destes jovens sentiram na pele o peso da história, e se colocarem no lugar do outro.

Para além das fronteiras portuguesas, o projeto também tem exposições, programação de filmes, laboratórios de mediação, residências, workshops e conferências nas outras sete instituições parceiras. São elas: Tensta Konsthall, em Estocolmo; SAVVY Contemporary, de Berlim; a londrina Royal College of Art; a Fundació Antoni Tàpies, de Barcelona; Vilnius Academy of Arts, na Lituânia; o museu dinamarquês Museet for Samtidskunst; além da parisiense École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs.. Como se vê, participam do projeto tanto universidades como museus de arte contemporânea – essa articulação é um grande diferencial do programa. Com a crise global do Coronavírus, por exemplo, representantes destas instituições olham para suas condições locais e a partir daí propõem discussões e colaborações que podem acontecer em apoio mútuo entre os países. Se, na política e na economia, a parceria entre diversas nações é cada vez mais rara, a arte pode (e deve!) cumprir este papel.

 

Jabulani Maseko, Atmospheric Conditions (2020)
Day 1 - An exercise. A musical instruction by Yoko Ono. EARTH PIECE Listen to the sound of the earth turning. 1963 spring
Série, vídeo online

 

 

Sobre como a arte e as práticas culturais ajudam a enfrentar os desafios gerados pelo Covid-19, Luísa Santos analisa: “Acho que, mais do que compreender as mudanças, trata-se, inevitavelmente, de fazer parte delas e das suas consequências”. Por isso, em abril, durante o isolamento obrigatório, quatro exposições online foram publicadas no site do projeto (que, por sinal, é uma plataforma bem completa de registro das atividades e produção de conteúdo colaborativo sobre o assunto). Enquanto o sul-africano Jabulani Maseko faz uma pesquisa sobre a identidade, o espaço doméstico e o corpo, a espanhola Cristina Mejías pesquisa o poder das narrativas. Já a portuguesa Joana Patrão aborda temáticas relacionadas à natureza, assim como Gregor Graf que investiga as mudanças climáticas nos seus desenhos. Ponto positivo para o fato da organização não tentar transpor uma exposição física para o mundo digital (o que é impossível), mas usar a não-linearidade e a polifonia da internet a seu favor. Assim, as quatro exposições viraram narrativas fragmentadas com inserções das curadoras Sofia Steinvorth, Andreia César, Maria Eduarda Duarte e Teresa Pinheiro, além de textos com outros pontos de vistas sobre os trabalhos e sua relação com o mundo.

Em outubro, as atividades físicas do 4Cs devem voltar. Talvez mais enxutas e com algumas adaptações, mas mais imprescindíveis do que nunca para a criação de novos espaços de convivência nos primeiros meses de convívio social pós-Covid. Na Appleton Associação Cultural, as artistas Ângela Ferreira e a australiana Nithya Iyer irão propor respectivamente um laboratório de mediação e um workshop, ambos abertos ao público. No próximo ano, o 4Cs recebe o iraniano Rouzbeh Akhbari para residência e exposição e, em julho, um encontro entre representantes de todas as instituições envolvidas irá acontecer durante a Summer School, na Universidade Católica de Lisboa. Até 2021, o projeto trabalha em confrontar o vírus do medo e da incerteza que se espalham junto com a crise de refugiados, as crises climáticas, a ascensão da extrema-direita, entre tantos outros problemas globais, e propor que se repense a perigosa separação entre “nós” e “eles”. Não à toa, em um dos seus textos, Luísa Santos incluiu mais um “C” para o título do projeto, referente à “Changes” - às mudanças que ações propostas pelo 4Cs desejam provocar.

 

 

 

Julia Flamingo
Nascida em São Paulo, tem graduação em Jornalismo e História e é mestranda em Culture Studies na Universidade Católica de Lisboa. Comanda o site Bigorna – um olhar generoso sobre a arte atual. Colabora como repórter de artes visuais para veículos nacionais e estrangeiros. Trabalhou como repórter e crítica de arte da revista Veja São Paulo entre os anos de 2015 e 2017 e foi assessora de eventos como SP-Arte e Bienal de São Paulo.