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OPINIÃO


Tatiana Trouvé, \"Bureau d’Activités Implicites\". © Jean Breschand


Tatiana Trouvé, “Bureau d’Activités Implicites”. © Jean Breschand


Simon Starling © Jean Breschand


Simon Starling, "Autoxylopyrocycloboros". © Jean Breschand


Simon Starling, "Autoxylopyrocycloboros". © Jean Breschand


Simon Starling, "Autoxylopyrocycloboros". © Jean Breschand


Pierre Petit, "Pipeline". © Jean Breschand


Christine Albanel, nova Ministra da Cultura francesa e Alexia Fabre, Conservadora chefe do museu. © Jean Breschand


Jerôme Saint-Loubert Bié, "Zones de Productivité Concertées. © Jean Breschand


Arnaud Maguet, "South of Nowhere". © Jean Breschand


Serge Lhermite, "L’atonie lancinante du cri des Cassandres". © Jean Breschand


Serge Lhermite, "L’atonie lancinante du cri des Cassandres". © Jean Breschand


Jacques Monory. © Jean Breschand


Vista exterior do Mac/Val © Jean Breschand

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MAC/VAL: ZONES DE PRODUCTIVITÉS CONCERTÉES. # 3 ENTREPRISES SINGULIÈRES



SÍLVIA GUERRA

2007-06-01




Zones de Productivités Concertées. # 3 Entreprises singulières
8 exposições monográficas sob uma temática comum -
a longa história de reciprocidade entre a arte e a economia

MAC/VAL (Musée d´Art Contemporain du Val de Marne
De 20 de Maio a 26 de Agosto 2007


Hoje a fonte do valor encontra-se na inteligência e na imaginação. O saber do indivíduo tem mais valor do que o tempo de uma máquina. O homem, traz em si o seu próprio capital, e deste modo transporta consigo uma parte do capital da empresa.

“Centre des jeunes dirigeants, L’entreprise au XXI Siècle”, Paris, Flammarion, 1996, citado por André Gorz, na obra infra citada


Atravessamos um período no qual diversos modos de produção coexistem. O capitalismo moderno, centrado na valorização de grandes massas de capital fixo, é susbtituído cada vez mais por um capitalismo pós-moderno centrado na valorização do capital imaterial, qualificado também como “capital humano”, “capital conhecimento” ou “capital inteligência”. Esta mutação acompanha-se de novas metamorfoses do trabalho.

André Gorz, in “L’immatériel”, Paris, 2003, Editions Galilée



O MAC/Val, criado em Novembro de 2005 por inciativa pública, partilhada entre o Estado Francês e a Região de Île de France, é um dos poucos museus localizados na área metropolitana de Paris a apresentar uma estratégia administrativa e de programação que alia uma política de integração social à divulgação da arte contemporânea, como “arte para todos”. Encontra-se pela sua curta existência no grupo das instituições ainda desconhecidas pelo turismo cultural internacional, nomeadamente português (que visita o Centre Pompidou, a Fondation Cartier e por vezes ainda ignora o Musée de la Ville).


Geograficamente periférico do centro da capital (ainda mais do que o Le Plateau), o MAC/ Val é o primeiro museu de arte contemporânea existente num dos arredores satélites de Paris, Vitry-sur-Seine. Estatutariamente destinado à divulgação da arte francesa desde os anos 50, possui uma colecção permanente, constituída a partir de 1982, e da qual constam nomes como Daniel Buren, Raymond Hains, Ange Leccia, César, Jean Dubuffet, Jacques Monory entre outros. As exposições individuais tem dado relevo a artistas de renome nacional como Jacques Monory ou Claude Levêque ou a gerações de artistas mais recentes que vivem e trabalham em França como Anri Sala, Tatiana Trouvé entre outros.


O Museu visa trabalhar integrado na comunidade, com 90% de funcionários que vivem em Vitry (guardas-salas, vigilantes e técnicos) e promover a cultura contemporânea nos arredores. O edifício fica numa rotunda onde sobressai uma escultura monumental de Dubuffet. Esta instituição parece inspirar-se, livremente, no Mamco de Genebra (criado em 1994) pela política de programação que alia a cíclica reformulação da accrochage da colecção permanente em diálogo permanente com as exposições temporárias e pelo relevo dado à acção social e didáctica destinada à sensibilização de públicos menos favorecidos (o bilhete de entrada custa 4 euros e 2 euros).


Apresenta neste momento uma programação temporária sob a designação de “Zones de Productivité Concertées” que é no fundo o leitmotiv do Museu. “Entreprises singulières” sucede-se à colectiva “Homo economicus” e é o último capítulo da série: 6 + 7 + 8 = 21, que começou em Outubro de 2006 com o desenvolvimento de três ciclos de exposições monográficas que falam de economia “sans en avoir l’air” como me diz Franck Lamy responsável pelas exposições temporárias.


Os artistas desta última série de exposições individuais apresentam formas de se relacionar com a empresa artísitca, ou com a aventura artística reflectida em alegorias do mundo económico. O preço da arte não é discutido nestas obras mas sim os fluxos das práticas económicas; por vezes ironizando a precaridade da aventura artística e da instabilidade da notoriedade dos artistas (Simon Starling parece glosar o filme de Pierre Huyghe “A Journey that wasn’t” (2006), na sua instalação “Autoxylopyrocycloboros”, onde em hectacromes projectados, os dois personagens numa viagem por mares gelados decompõe a sua própria barca até à sua submersão) ou como uma metáfora à vida urbana vista por um personagem de “Zazie dans la Ville”, na obra “Pipeline” de Pierre Petit, onde um néon de avião ameaça os andaimes da instalação temporária.


O percurso expositivo começa com as maquetes do “Bureau d’Activités Implicites” de Tatiana Trouvé, artista recentemente apresentada no Palais de Tokyo, que pesquisa no sentido de criar uma estrutura (um escritório) de trabalho para um indivíduo anónimo modificável segundo as suas necessidades não colectizáveis. Depois encontramos os trabalhos em fotografia que representam os ciclos de exposições precedentes de Jérome Saint - Loubert Bié que refotografa as imagens destinadas aos dossiers de imprensa realizadas pelo fotógrafo de serviço das instituições parisienses Marc Domage; numa pequena construção em madeira podemos entrar no universo do divertimento nocturno de um comum funcionário da empresa (Arnaud Maguet e “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again”); e todas esta obras são abordagens ao mundo do trabalho realizadas como um détournement da questão económica nas suas formas comuns de representação: o espaço arquitectónico, a moeda de troca, o símbolo...


O novo Presidente francês que por agora ainda não transformou o Ministério da Cultura num Ministério da Educação Nacional, tal como fora anunciado, esteve representado na inauguração deste evento pela nova Ministra da Cultura, Christine Albanel (com formação académica em Letras, tal como a sua homóloga portuguesa). Esta presença manifesta a estratégia de aproximação a questões sociais e de cultura levada a cabo pelo executivo francês durante a campanha às eleições legislativas que decorrerão no próximo mês de Junho.


A exposição não reúne trabalhos especialmente surpreendentes, mas é um convite para o agradável deambular pelos espaços do Museu (projecto da dupla de arquitectos Jacques Ripault e Denise Duhart onde os materiais principais são o betão, a madeira e o vidro bem e se destacam as belas áreas em promenade arquitectónica de inspiração corbusiana) e serve de ocasião para revisitar o criativo restaurante Transversal que alia experimentação culinária ao “prato da exposição” em curso. Um dos mais surpreendentes restaurantes de Paris com um delicioso puré de grão-de-bico e canela!…


Neste momento em que a maioria política apela ao individualismo de raiz empresarial eu talvez esperasse que os trabalhos dos artistas reunidos nesta mostra reflectissem a questão da submissão da arte ao mercado e o trabalho artístico como uma empresa singular que é uma das mais representativas do valor imaterial da criação.


Artistas presentes: Francis Baudevin, Serge Lhermitte, Arnaud Maguet, Pierre Petit, Jérôme Saint-Loubert Bié, Stefan Shankland, Simon Starling e Tatiana Trouvé.


Sílvia Guerra
Crítica independente



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www.macval.fr