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OPINIÃO


Index Awards. Exposição em Kongens Nytorv, Copenhaga


John Hutchinso, “The Freeplay Fetal Heart Rate Monitor”. Prémio INDEX: categoria Corpo.


Stefano Marzano, “Chulla”. Prémio INDEX: categoria Casa.


Christien Meindertsma, “PIG 05049” (PORCO 05049). Prémio INDEX: categoria Lúdico.


“Better Place”. Prémio INDEX: categoria Comunidade.

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INDEX:
21 Agosto – 13 Setembro
Kongens Nytorv, Copenhaga


INDEX: é mais conhecido pelo prémio do que pela instituição que o concede e está, de certo modo, escondida dos holofotes direccionados ao prémio e aos eventos que o rodeiam. Contudo, a instituição é a base de tudo o que acontece sob a assinatura INDEX:, um nome inteligente para expressar o conceito que explora. Com o detalhe da pontuação (os dois pontos no fim da palavra) percebemos de imediato que indica uma enumeração de uma lista que está por preencher. Muitas vezes, na comunicação dos eventos, exposições e prémios da organização, aparece a frase, em tom de mote: “Design to improve life” (Design para melhorar a vida), um mote que não fecha uma ideia mas, pelo contrário, deixa em aberto, tal como os dois pontos, um conceito que é origem de debate a nível mundial, tanto na área do design como nas áreas artísticas e, implica, acima de tudo, noções sociais mas também económicas e políticas.

Depois de uma investigação por todo o mundo e com uma equipa internacional, INDEX: foi fundado em 2002, numa era em que os debates, discussões e eventos foram criados no decorrer de uma atenção à necessidade de mudança num mundo que se sente cada vez mais em desequilíbrios sociais e económicos, para resumir a uma só frase. As últimas duas décadas, com a globalização, têm sido marcadas por esta declaração de que precisamos mudar para um mundo melhor e esta é uma declaração que ouvimos de áreas diversas como design, engenharia, arquitectura, sociologia e economistas, nomeando apenas algumas. Noutras palavras, redimirmo-nos do que temos feito (enquanto indivíduos responsáveis pelo mundo em que vivemos) ao longo do último século e procurar soluções. Desde palestras, seminários, publicação de livros e teses, documentários, a exposições de arte e design, a preocupação é óbvia e faz-se sentir, em especial, nos ambientes urbanos. Copenhaga não é excepção mas é um exemplo a ter em atenção enquanto cidade atenta e activa nos referidos temas. Temas que, directamente, podem não parecer do domínio ou origem de preocupação num país como a Dinamarca mas, indirectamente e, em parte, pela curiosidade e interesse no que acontece for a dos países nórdicos, a Dinamarca (Copenhaga em particular) tem tido um papel activo nestes temas globais, que, na verdade, têm sempre origem em temas locais.

Uma mudança de prioridades aconteceu naturalmente com a necessidade de agir na crescente crise ambiental em água, clima e energia bem como pelo aumento populacional nas cidades. INDEX: acompanhou investigações como os textos “Bottom of the Pyramid” (Base da Pirâmide), de C.K. Prahalad, a crescente atenção nas inovações sociais e tentativas (tanto públicas como privadas) seguidas por Mohammed Yunus, galardoado com Prémio Nobel, e a atenção dada pelos meios de comunicação ao documentário do político americano Al Gore, “An Inconvenient Truth” (Uma Verdade Inconveniente). Também na base de investigação do INDEX: esteve a rápida industrialização da economia “BRIC” (Brasil, Rússia, Índia e China) que foi origem de uma classe média emergente que assistiu à ubiquidade das tecnologias digitais darem o poder das pessoas comunicarem e movimentarem-se em longas distâncias. Estes desenvolvimentos foram paralelos ao advento das “UN Millennium Goals” (Nações Unidas, Objectivos do Milénio) no contexto das atitudes pró mudança a niveís social e ambientais. O que foi identificado como objectivo pelo INDEX: foi, em 2002, único e ambicioso. Passados seis anos, os objectivos cresceram e não ficaram menos ambiciosos. Em parcerias internacionais, tiveram um papel fucral no entendimento do poder do design neste desejo global e por diferentes áreas por soluções a desafios com tom idealista mas que o INDEX: comunica (e convence, quase que por osmose) de que são soluções reais e possíveis nos mundos do design e da arte. Mais, o papel do design é encontrar soluções. A arte contemporânea tem o papel também importantíssimo de mostrar o mundo em que vivemos, alertar com as suas linguagens próprias (como o artista Nuno Cera (Portugal, 1972), com o vídeo “Alerta”, em mostra recentemente na exposição “Remade in Portugal”, no Museu da Fundação EDP e sob o comissariado de João Pinharanda), bem como mostrar ficções (ou possíveis realidades?) em tom de proposta para um mundo melhor, como a artista, da mesma geração, Julita Wójcik (Polónia, 1971) na vídeo-instalação e escultura em crochet “Making things more beautiful”, de 2007 e apresentada na 4ª edição da Ars Baltica Triennale, no mesmo ano.

Pela terceira vez, INDEX: apresenta o maior prémio monetário em design, num total de 500 000 euros. Com cerca de 700 candidaturas, o júri seleccionou os 69 melhores para apresentação na exposição, dentro de bolhas de acrílico transparente. Cinco dos trabalhos apresentados receberam um prémio de 100 000 Euros.
Tal como o prémio, a exposição divide-se em cinco categorias: Corpo, Casa, Trabalho, Lúdico e Comunidade. Na categoria de corpo, o designer sul-africano John Hutchinso, foi premiado com o projecto “The Freeplay Fetal Heart Rate Monitor” (O Auto-suficiente Monitor de Batidas Cardíacas em Fetos), criado expressamente para as pobres condições de vida nas áreas rurais de países em desenvolvimento. Um aparelho, que não necessita de energia, criado em parceria com médicos para que mulheres grávidas possam saber a condição dos seus filhos e prevenir a morte por razões cardíacas. Stefano Marzano, director criativo da Philips Design em Eindhoven, na Holanda, recebeu o prémio na categoria de Casa com o projecto “Chulla”, um forno que pode ser construído sem quaisquer conhecimentos técnicos e que tem por objectivo filtrar fumos tóxicos, dando atenção a milhares de famílias na Índia, por exemplo. O website “Kiva” foi premiado na categoria de Trabalho, pela criação de uma rede de empréstimos baixos criando micro-finaciadores e financiados. Christien Meindertsma, de Roterdão, recebeu o prémio pelo aspecto Lúdico, com o projecto de comunicação “PIG 05049” (PORCO 05049), um livro desenvolvido ao longo de três anos para documentar todos os produtos feitos de um porco (desde alimentos a objectos de moda) numerado 05049, um porco real criado numa quinta em Roterdão. “Better Place” (Lugar Melhor) foi o projecto vencedor em Comunidade pela investigação e realização de uma infra-estrutura de veículos eléctricos.

A exposição do prémio INDEX: em 2009 acontece em várias cidades dinamarquesas bem como internacionalmente. Em Copenhaga, quando saí da estação de metro em Kongens Nytorv, uma das praças mais movimentadas da cidade, a primeira coisa que vi foram uma bolhas gigantes e transparentes espalhadas por toda a praça. É impossível ser indiferente a estas bolhas que transformam a percepção do espaço. Kigge Hvid, directora do INDEX: desde o seu início, há sete anos, justifica esta opção pelo espaço público com a mesma simplicidade com que descreve design: “é para as pessoas, todas as pessoas têm direito a ver a exposição gratuitamente e sem sentirem que são alvo de elitismo. E nós e os designers merecemos ter público!” Pela mesma consciência social, recrutou pessoas reformadas para fazerem as visitas guiadas. Na maioria mulheres entre os 60 e 70 anos, com um sorriso sempre aberto, estes guias aprenderam sobre as peça apresentadas e falam delas, em diferentes percursos à volta da praça de Kongens Nytorv, com uma paixão e energia contagiantes.


Luísa Santos