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PERSPETIVA ATUAL


© Johny Pitts, Peckham Road, Union Jack Cap, Peckham High Street, 2021.


© Johny Pitts, Another Kind of Life, Barbican, 2018.


© Johny Pitts, New Europe, Baker Street Station, London, 2013 (from the series “Afropean”)


Eddie Otchere, Blackstar, New York 1998


Johny Pitts, Peckham Road, Union Jack Cap, Peckham High Street, 2021


Playlist Afropéenne de Johny Pitts, design Sarah Boris studio _ The Eyes Publishing


Patrice Félix-Tchicaya, Revue Noire N°20, Paris Noir


Tabita Rezaire, courtesy of Goodman Gallery, Sorry For, 2015


James Barnor with a model at the special Agfa-Gevaert studio, Mortsel, Belgium, 1969. Cortesia Galerie Clémentine de la Féronnière. © James Barnor


© Rémy Bourdeau, Artists, Boiler Room Peckham Festival, 2019


Mohamed Bourouissa, Le cercle imaginaire, Périphérique, 2008


Sofia Yala Rodrigues, Playing with Visual Fragments, 2021


© Cédrine Scheidig,Terry, 2020


Jazz Grant, Small Axe 1, Steve McQueen for The Face Magazine, 2020


© Silvia Rosi, Encounter, Self Portrait as my Mother in School Uniform, 2019

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THE EYES #12, B-SIDE AFROPEAN PHOTOGRAPHY – ENTREVISTA COM JOHNY PITTS



JEANNE MERCIER

2022-03-27




 


revista The Eyes dispensa apresentações. É a sua nova linha editorial que nos leva a falar do seu último número: The Eyes #12, B-Side. Depois de um excelente número intitulado “Transgalactic” com o curador convidado, o artista Smith, este número prossegue essa ideia de questionar os fenómenos sociais e culturais através do prisma da fotografia dando carta branca a especialistas diretamente envolvidos com o assunto. Desta vez o curador convidado é o escritor e fotógrafo britânico Johny Pitts, reconhecido pelo seu livro Afropean: Notes from Black Europe (Penguin Random House, 2020). Neste número, trata-se, portanto, de uma exploração visual do que significa ser Afropean, quer dizer, ao mesmo tempo negro e europeu, onde encontramos simultaneamente fotografias históricas mas também uma seleção muito boa de fotógrafos contemporâneos de diferentes países e gerações que exploram esta questão, como James Barnor, Mohamed Bourouissa, Sofia Yala Rodrigues, Délio Jasse, Maud Sulter, Marvin Bonheur…
Para entender como foi pensado este número especial, Johny Pitts prestou-se ao jogo da entrevista. 

 

 

Por Jeanne Mercier

 

 

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JM: Bom dia Johny, pode apresentar-se e dizer-nos como se iniciou na fotografia?

JP: Nasci em Sheffield, durante os anos Thatcher, quando a cidade passou do estatuto de cidade industrial a este de cidade pós-industrial, com uma nova orientação para o lazer e o comércio de retalho. Os audaciosos planos modernistas do pós-guerra, com tendências socialistas, foram suplantados por não-lugares – os centros comerciais e os centros de lazer. Era preciso dinheiro para penetrar nesses novos espaços, de modo que com frequência encontrávamos a comunidade negra a morar nas velhas propriedades brutalistas agora fora de moda, criando shebeens, noites de blues e festivais de rua ilegais nesses labirintos de betão – uma cultura forjada a partir de desperdícios. Era lindo, à sua maneira – uma luta tornada vivível. No entanto, quando completei 25 anos, a maioria dos espaços que mantinham esta parte informal da vida negra em Sheffield havia sido demolida ou gentrificada, deixando poucas evidências da sua existência. Então comecei a tirar fotos por paranóia, na verdade. Para me recordar. Para documentar os espaços que eu apreciava, como filho negro da classe trabalhadora em Sheffield, já que mais ninguém parecia fazê-lo. Considero as minhas fotografias como provas documentais.


JM: A sua relação com a imagem está ligada ao seu trabalho de escrita?

JP: Quer eu utilize uma caneta ou uma câmara, é o mesmo espírito que me anima: criar uma atmosfera, tentar mostrar como as coisas se sentem em vez de só as observar. Então sim, a mesma coisa, ferramenta diferente. Eu não creio que uma fotografia valha 1000 palavras. Em todo caso, não as fotografias que eu gosto. Para mim, uma fotografia mais se parece com um haiku; apenas algumas palavras, carregadas de mil possibilidades.


JM: Hoje divide a sua vida entre a fotografia e a escrita, pode falar-nos do seu trabalho em torno da imagem?

JP: Tudo começa por um sentimento. Em seguida, esse sentimento, se eu tiver sorte, traduz-se por uma ideia, uma premissa. Nessa altura, eu devo decidir a melhor forma de articular essa ideia. Por vezes, isso toma a forma de um ensaio fotográfico, outras vezes de um texto, e às vezes mesmo de uma faixa música – eu estava numa banda há alguns anos e ainda colaboramos em projetos criativos. Então, para mim, trata-se realmente de tentar capturar esse sentimento, essa intuição, da melhor forma possível. A fotografia é formidável porque pode ser ambivalente, porque ela funciona com a intuição. Às vezes, as palavras podem matar uma ideia porque frequentemente são demasiado literais. Noutros momentos, certas coisas devem ser ditas muito claramente. Roy Decarava disse um dia que o que ligava todos os grandes fotógrafos é o seu “desejo”. Achei essa ideia estranhamente simples e porém convincente. A maioria das minhas fotografias são o resultado de uma obsessão, de uma ideia que me ultrapassa e me submerge. Talvez seja onde Decarava queria chegar!


JM: Começou um trabalho intitulado “Afropaean, notas da Europa negra”, inicialmente por um ensaio. Pode falar-nos da génese do projeto e desta palavra?

JP: A palavra “desejo” é perfeitamente apropriada para este projeto. Eu sentia-me culturalmente à deriva num país que escorregava politicamente para a direita após a crise financeira de 2008. Foi a primeira vez na minha vida de adulto que o tapete foi completamente varrido sob os meus pés. O 11 de setembro foi a primeira de uma série de crises que parecia acabar com um certo sentimento de estabilidade política após a queda do comunismo, e definir a disjunção que conhecemos até ao presente ao século XXI. Mas do meu ponto de vista limitado, só comecei a perceber que tudo se desmoronava após a crise de 2008. Quando as pessoas têm menos dinheiro, há sempre um aumento do racismo. Tendo crescido na Grã-Bretanha de Tony Blair, fui criado considerando-me como um europeu. Quando as duas noções que me uniam, a “Grã-Bretanha negra” e a “Grã-Bretanha da UE”, começaram a desfazer-se, eu tive que encontrar uma forma diferente, fora da administração, para reunir as minhas fidelidades culturais de uma maneira ou de outra. Afropean ofereceu-me uma forma de o fazer – capturou o meu desejo de ligar as minhas fidelidades culturais. Não é mais que uma palavra, mas as palavras podem evocar portais para novos lugares.

 

 

Capa The Eyes # 12, B-Side. © Rémy Bourdeau, Design Sarah Boris studio – The Eyes Publishing.

 

 

JM: Atualmente, encontramo-lo como convidado da revista The Eyes com um número intitulado "B-side", como nasceu esse projeto?

JP: Foi na sequência da leitura do meu livro Afropean: Notes from Black Europe que Taous Dahmani, Véronique Prugnaud e Vincent Marcilhacy me convidaram como curador para a edição The Eyes #12. Eles queriam que eu utilizasse Afropean como tema para a revista, mas o meu livro levou-me quase sete anos a escrever e, como foi publicado em inglês em 2019, depois em alemão em 2020, depois em francês e italiano em 2021, eu estava a falar sobre isso non-stop há 2 anos quando eles me abordaram. O final de cada livro não é uma chegada mas antes uma partida, então quando falei com a equipa do The Eyes, exprimi o meu desejo de trabalhar com o termo afropean mas apenas na medida onde ele me estava a conduzir agora – eu queria fazê-lo avançar. Foi aí que surgiu a noção de “lado B”. Oferecia um contexto teórico que sustentava o humor de Afropean, mas também o expandia. O lado B, a narrativa não oficial, logo abaixo da superfície da versão oficial brilhante. Fiquei muito impressionado com a forma como Taous, Vincent, Véronique, Antonella e a nossa designer, Sarah Boris, me quiseram acompanhar nesta viagem B-Side, e todos enriqueceram, encorajaram, desafiaram e impulsionaram o trabalho.


JM: Vários fotógrafos que exploram a questão da identidade afropeana foram convidados. Encontramos vários fotógrafos publicados em Afrique in visu, Mohamed Bourouissa, Sofia Yala Rodrigues, James Barnor. Como foram feitos esses convites e como essa colaboração foi imaginada?

JP: Para ser honesto, eu queria começar por dois fotógrafos centrais – Liz Johnson Artur e Eddie Otchere – e depois encontrar outros fotógrafos que pudessem gravitar em torno do espaço criado pelos dois, à sua maneira. As coisas começam a mudar, mas Liz e Eddie são dois fotógrafos incríveis que foram negligenciados durante muito tempo, e que, para mim, representavam realmente essa noção da face oculta, especialmente se ela pudesse ser aplicada ao mundo da fotografia. Em seguida, discutimos juntos sobre outros fotógrafos a trabalhar numa tradição semelhante. Nós não estávamos a tentar encontrar fotógrafos inspirados por Eddie e Liz, necessariamente, mas antes pessoas que haviam traçado o seu próprio caminho sobre linhas paralelas. Poderíamos ajudar as suas viagens a se encontrarem no B-Side.
No que respeita aos convites, simplesmente reunimos todos os nossos recursos. Jazz Grant não respondia aos e-mails do The Eyes, mas por acaso eu conhecia o seu pai, Colin Grant, um escritor brilhante, então trouxemos o Jazz dessa forma. Taous trabalhou com Mohamed Bourouissa no seu projeto Péripherique, então foi lógico para Mohamed. “The Eyes” tem uma certa influência no mundo da fotografia, então outros contactos foram estabelecidos dessa forma. Às vezes, bastava pressionar até obtermos um sim!


JM: Entre os quinze artistas convidados, encontramos fotógrafos de diferentes países, de diferentes gerações e também de diferentes práticas fotográficas, que variam do documentário, da fotografia de autor, ao “Cut up” ou à colagem digital. O que nos dizem essas imagens?

JP: O que foi maravilhoso na aplicação do termo “B-Side” ao que procurávamos, foi que uma diversidade natural começou a emergir, porque o B-Side como espaço não é nada se não for orgânico e multicultural. Então temos fotógrafos de idades entre os 20 e os 90 anos, de todos os sexos, todas as classes sociais e de todas as culturas, mas todos unidos pela noção de Negritude como conceito político e de B-Side como conceito cultural. De muitas maneiras, penso que os recortes e as colagens ilustram essa fusão em termos visuais – fragmentos que, embora nem sempre se encaixem perfeitamente, sugerem qualquer coisa de inteiro ao serem ampliados um pouco.


JM: O título deste número de The Eyes faz referência ao lado B de uma cassete áudio. Qual é a ligação com a música?

JP: O termo “Afropaean” surgiu literalmente da música – foi inventado por David Byrne dos Talking Heads e Marie Daulne do Zap Mama, quando os dois colaboraram no seu primeiro álbum “Adventures in Afropea”. Era uma forma de refletir a fusão de estilos na sua música. E penso que a música, particularmente durante a era pós-moderna dos anos 80 e 90, sempre soube misturar os estilos sem esforço para criar algo de novo, mas coerente. No que se refere ao lado B, tive a ideia de ouvir o produtor de dub Mad Professor falar com Mark Stewart, da banda pós-punk “The Pop Group”. Eles falaram do facto de que o lado B de um álbum tinha a sua própria cultura. As pessoas abandonavam o lado A pelo lado B, mais “verdadeiro”. Na entrevista que realizámos para a The Eyes com o Mad Professor, ele repetiu que o lado B era muitas vezes a versão mais próxima da visão original do produtor, e que o lado A era a versão edulcorada para a rádio. E como a rádio não transmitia os lados B, os lados B encontraram outras maneiras de atingir uma audiência – subculturas, raves ilegais, estações de rádio piratas, muitas vezes transmitidas desde as propriedades brutalistas que mencionei acima. O lado B, portanto, veio com a sua própria cultura, a sua própria geografia. Na minha opinião, isto resume perfeitamente o trabalho dos fotógrafos que incluímos – não se trata aqui de convidar alguém da reconhecida agência Magnum.


JM: Recentemente vimos no seu Instagram que se encontra a trabalhar sobre imagens vernaculares encontradas em Marselha, onde morou. Pode falar-nos desse projeto?

JP: Sim, bem, este pode ser o projeto final de fotografia do lado B! Quando eu morava em Le Panier, vi uma jovem mulher deitar fora duas caixas contendo cerca de dois mil diapositivos Kodachrome. Perguntei-lhe se os podia levar, ela olhou-me como se eu fosse louco e disse-me, claro! Foi no exterior de uma loja de bric-à-brac, então tenho quase a certeza que os dispositivos não vinham da sua família. Teria gostado de lhe perguntar, mas não sabia o que tinha entre mãos ali naquele momento, e a loja fechou pouco depois. Quando trouxe os diapositivos para casa e comecei a olhar para eles, percebi que havia encontrado qualquer coisa de muito especial. Tudo isto é obra de um único fotógrafo, acredito, mas não é uma visão singular à Vivian Maier. É algo ao mesmo tempo mais vernacular e mais surpreendente. Este é um registo de Marselha e dos seus arredores entre 1970 e 1990 (as caixas de diapositivos são datadas), da crónica de uma comunidade - excursões, caminhadas, festivais, celebrações - muitas vezes no próprio Le Panier - de pessoas de etnias diferentes que desfrutam juntas da praia, do campo, das ruas da cidade. Não contam uma história casual de "convivência", mas antes a convivência cotidiana e desordenada desta cidade alienada, antes dos smartphones. Espero reunir os diapositivos num livro e oferecê-lo à cidade que tanto me deu. Mas tenho que encontrar o fotógrafo – a procura está em curso!


JM: Quais são os seus projectos para os próximos meses?

JP: Vai ser um período ocupado. Primeiro, terminarei um projeto sobre o qual trabalho com o poeta Roger Robinson, sobre a vida dos Negros na costa britânica. Este projeto será publicado em outubro sob a forma de um livro intitulado “Home is not a Place”. Em seguida, farei uma tournée de palestras nos Estados Unidos, na Califórnia e na Flórida, depois em março mostrarei as minhas fotografias afropeanas – uma recriação da exposição que fiz no Foam em Amsterdão em 2020 – no Museu de fotografia contemporânea de Chicago, em colaboração com a jovem e talentosa curadora Asha Iman, no âmbito de uma exposição coletiva intitulada “Beautiful Diaspora / You Are Not the Lesser Part”. Depois, se o Covid permitir, voarei para o Japão durante um mês a fim de terminar o meu novo projeto que trata das memórias de infância do país no final dos anos 1980.


 

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Jeanne Mercier é cofundadora da plataforma Afrique in visu, Jeanne Mercier é curadora e crítica desde 2006, sediada entre a Europa e a África. Há 15 anos que se dedica à evolução da prática de imagens ampliadas, fotografias, vídeos, instalações. Interessa-se particularmente por obras que veiculam contranarrativas, que criam novos imaginários emancipados de padrões impostos, de culturas e iconografias dominantes. Os seus últimos projetos de exposições entrelaçam História, genealogias pessoais, tradições familiares, resistência e lutas contra todas as formas de poder e de opressão. Através de curadorias individuais e coletivas, colaborou recentemente com numerosos artistas e diversos festivais e instituições em França e no estrangeiro.

 


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Este artigo foi inicialmente publicado na ‘Afrique in Visu’ no 3 de janeiro de 2022.