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A ONTOLOGIA NA PRODUÇÃO DE IMAGEM



PEDRO DOS REIS

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Se existe algum sentido ao qual damos primazia, é à visão. Através do olhar conseguimos “ser” mais longe. Seguem-se então os restantes sentidos. A visão confere-nos o sentido da espacialidade e o reconhecimento dos outros. Ao olharmos estamos a apropriar-nos de um contexto que nos situa e que dimensiona a possibilidade da acção; e que igualmente, após estabelecimento de um acordo comum entre vários indivíduos, se torna real – a realidade.

Por outro lado, aquilo que se vê poderá ser igualmente o mote para um desafio. Se o que vemos nos satisfaz será normal que se tome uma atitude passiva, mas caso contrário poderá tornar-se na base, que impele a acção transformadora do sujeito que representa. A imagem, na sua essência, é assim um ensejo à transformação material ou psicológica da realidade visível.

Não será de estranhar que a actividade humana se desenvolva à volta de desafios que satisfazem sobretudo a visão. Em particular, a actividade artística vive numa quase hegemonia da imagem – a maioria da produção artística, mais ou menos efémera, é visual. Sendo a imagem uma representação, não necessita de ser uma cópia literal da realidade, e de facto não é. A imagem apresenta-se assim como uma nova possibilidade do real. Apoia-se na realidade, mas vive do seu próprio “imaginário” contendo em si um estado que se poderá considerar mágico – vive do visível e do invisível, que é subjectivo ao autor.

É por este ponto de vista, que todo aquele que produz arte visual – o artista, é por vezes considerado um ilusionista. Não no sentido de que entretém, mas no sentido de que através da sua arte dá a conhecer os seus sentimentos ou ideias; partilhando-os com os demais – o público espectador. Por conseguinte, a arte visual é ilusão: é o que nos faz elevar a mente a um plano que ultrapassa o que se considera real; nos faz questionar o real; mostra outras possibilidades sobre esse mesmo real. A sua ética assenta assim, na transcendentalidade da realidade; na criação de um momento entre o público e o autor (mediado pela sua arte), que se aproxima mais da magia do que da razão e que usa a realidade como elemento de ligação entre ambas as partes (como elemento que permite o estabelecimento de comunicação).

O artista é intrinsicamente um fingidor (tal como diria Fernando Pessoa – “O poeta é um fingidor”), mas no entanto, enquanto elemento de um contexto social alargado e que o ultrapassa (a sociedade onde se inscreve) é um fingidor responsável. É esse “fingimento” que gera a poética sobre a sua actividade e estimula-a junto do público.

O artista não finge que não finge. Ao fazê-lo deixaria de ser verdadeiro consigo mesmo, com o seu trabalho e com todos os que apreciam a “sua dor” (tomando novamente o poema de Pessoa).

Faço assim uma separação entre a ética do artista e a ética da obra de arte por si produzida, que determina a ontologia na produção de imagem: a obra visual resultante é o “fingimento” do autor, que todavia, não poderá fingir que não finge. Ao fazê-lo estará não só a enganar a si mesmo, como também o contexto social onde se insere.


Pedro dos Reis