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ARQUIVO:

O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 

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JOÃO JACINTO

O céu recuou dez metros




GIEFARTE - GALERIA DE ARTE
Rua da Arrábida, 54 BC
1250-034 LISBOA

28 NOV - 15 JAN 2018


INAUGURAÇÃO: 28 de Novembro, 18h


O céu recuou dez metros
João Jacinto

Curadoria: Nuno Faria



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Vénus como Medusa
(ou o abjecto como campo de transcendência)




“Medusa é o sol transformado em noite; ela é antes a outra face do dia; a noite de
onde vimos, e aonde voltamos, a cada revolução do sol, quando o sono nos faz
afrontar os sonhos, mas também quando nos couber afrontar as portas da morte”.
(Jean Clair, Méduse, Paris, Gallimard, 1989)


De uma certa forma, podemos considerar que a história das imagens se faz contra a história da escrita. As imagens, algumas imagens, chegam-nos como corpos perdidos, por entre as malhas da censura, para além da história, enquanto provas imanentes de que o labor do inconsciente — como um astro à deriva no espaço cósmico — é a mais perene, longeva e palpável ligação entre os homens.

Na sua célebre pintura de juventude, Medusa, Caravaggio diz essencialmente duas coisas, uma repetida dos Gregos antigos, a outra inventada por ele: que as imagens matam e que a pintura, qual guilhotina ao serviço da academia, faz separar a cabeça do corpo. Era, claro, contra os valores do Renascentismo que o jovem pintor se posicionava, rejeitando uma herança terrível, aos olhos dele normativa, ordenadora e asséptica. Trazer a sujidade para o espaço da tela, tornar a imagem em imagem-matéria, os corpos em corpo-carne, os homens e as mulheres em seres-desejantes cujo horizonte de expectativa não mais seria a eternidade prometida da pintura bem-pensante mas o amor e a beleza incomensuráveis, a violência e a morte. O absoluto na terra. Para sempre aqui e agora.

Ocorreram-me vários títulos, ou modos, para encabeçar o texto que dedico ao conjunto de desenhos que João Jacinto vem produzindo nos últimos anos e que agora se encontram reunidos neste livro —a maneira negra, imagens para a escuridão, visões capitais, e poderíamos continuar, numa evocação que recolhesse as alucinações ou cintilações do passado que vêm até nós como assombrações.

Através destes desenhos, João Jacinto faz-nos visitar alguns dos autores malditos da história da criação europeia — vislumbramos Caravaggio, Goya, Sade, Giacometti, Klossowski, Bataille, Bernini, Bacon, Artaud, Lautréamont… Constituem um verdadeiro corpus alienum, um corpo estranho ou um corpo outro — alienígena em si mesmo, na produção do autor e no território da arte portuguesa. Em rigor, não se vislumbra de onde vêm nem para onde apontam. Parecem imagens sem tempo e sem geografia, que ora se referem a modelos vivos reconhecíveis, ora reproduzem rostos ou imagens conhecidos do passado, ora abordam temas aparentemente excêntricos mas que se percebe pertencerem ao conjunto. São, de todas as formas, imagens para a escuridão, para serem vistas por dentro e como coisas de dentro.

Pequeno por comparação com o extenso universo de produção que o artista vem realizando em desenho, o conjunto reunido nesta edição devolve-nos a estranha sedutora violência que atravessa um-a-um todos os desenhos. Vêm-nos muitas imagens à cabeça (se ainda a temos no lugar), não somente, percebemo-lo bem, do campo da arte. Com a demora que lhes dedicamos, sabemos que elas já não pertencem à razão (O sonho da razão produz monstros) mas a outra parte do nosso corpo.

Corromper todas as aberturas, destruir a imagem enquanto modelo de inteligibilidade e de integridade, tornar estranho aquilo que nos é mais familiar e distante o que é mais íntimo — nada do que João Jacinto havia feito até hoje se avizinha destas imagens. Entre aparência e aparição, há nelas uma pulsão inconsciente que convoca as forças da alteridade, o poder castrador do indizível.

O olho, a boca, a vulva, são (des)figurações que operam numa espécie de circuito fechado oferecendo-se na sua obscenidade como becos sem saída, privados de linguagem e de qualquer luz interior. A aparência de um rosto o sol transformado na noite de onde vimos e aonde voltamos — nada será como dantes.


Nuno Faria