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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


TATIANA MACEDO

Esgotaram-se os nomes para as tempestades




CULTURGEST (PORTO)
Edifício Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104
4000-065 PORTO

16 FEV - 20 MAI 2018


INAUGURAÇÃO: 16 de fevereiro, 22h


Esgotaram-se os nomes para as tempestades
Tatiana Macedo

Curadoria: Delfim Sardo


Artista portuguesa nascida em Lisboa (1981), Tatiana Macedo tem vindo a desenvolver um trabalho que utiliza o filme, a fotografia e o som. Trabalhando as zonas limítrofes entre géneros artísticos, a noção de campo expandido das práticas artísticas atravessa as suas intervenções que utilizam desde material de arquivo a footage próprio, concebendo sequências narrativas de eco simultaneamente político e poético.

O cinema de Tatiana Macedo, construído com grande rigor, propõe a concentração da atenção do espectador em detalhes significativos, pormenores que geram sentidos que amplificam a repercussão das imagens.

Para a Culturgest, Tatiana Macedo encontra-se a realizar um filme que será objeto de instalação e que parte da estrutura arquitetónica de espaços emblemáticos da noite de Lisboa e do Porto. Concebido como um projeto que reflete uma memória dos lugares e se alimenta das fantasmáticas de espaços arquitetonicamente marcantes, o projeto foi concebido especificamente para a Culturgest, um espaço, em si mesmo, carregado de simbologia e intensamente desenhado. É da arquitetura e da materialidade desses lugares que se gera a estrutura narrativa e a possibilidade do seu cinema.


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Tatiana Macedo (Lisboa, 1981) tem vindo a desenvolver um trabalho que, na utilização do filme, da fotografia e do som, reconfigura lugares, reflete sobre as condições culturais e afetivas dos seus protagonistas e pensa em imagens o espaço e a arquitetura.
O projeto que a artista apresenta na Culturgest Porto - e para aqui especificamente concebido - intitula-se Esgotaram-se os Nomes para as Tempestades. Trata-se de um filme em 4 canais, projetado em outros tantos ecrãs, protagonizado pelo ator Nuno Lopes. Temporalmente localizado num futuro próximo, o filme centra-se num diálogo dúbio entre um personagem e ele-mesmo enquanto outro, um doppelgänger que, em contratempo, alterna listas de nomes (que, de facto, são nomes de tempestades) com comentários que, de certa forma, reforçam o caráter ambíguo dos nomes pronunciados. Filmado no Restaurante e Confeitaria Cunha, no Porto, utiliza a notável arquitetura do espaço (da autoria de Vítor Palla e Bento d´Almeida) como lugar de memórias de um tempo votado a uma ideia de futuro entretanto gorada, expressa no diálogo que o personagem mantém consigo mesmo. Esta linha narrativa, que possui um vago drama inerente, como um fluxo de memórias, surge pontuada por pormenores do espaço, do seu desgaste, das marcas do tempo, de facto a matéria que Tatiana Macedo torna tangível. Esse caráter háptico das imagens - e a sua inerente sensualidade --, é meticulosamente construído, quer através dos gestos das mãos, repetidamente presentes por diversas formas (também nos procedimentos de limpeza e preparação do espaço do restaurante), quer pelo trabalho rigoroso da cor. De facto, a densidade atmosférica do filme é em parte definida por um cromatismo que remete para um universo cinematográfico romanesco, no qual as remissões para Wong Kar-Wai (de Disponível para Amar, 2000), Léos Carax (de Má Raça, 1986) ou Ridley Scott (de Blade Runner, 1982) são percetíveis em episódios específicos - como acontece com explícitas alusões ao filme de Carax --, mas sobretudo num ambiente difuso e distópico, cromaticamente saturado, que alude a uma certa cinematografia dos anos de 1980.
É precisamente essa visão retrospetiva, ou reveladora de uma prospeção falhada, de uma antevisão de futuro que se espalha em direção ao passado recente e ao futuro próximo (uma narrativa que é localizada no futuro, com uma imagética que é oriunda do passado próximo) que é materializada numa tónica cromática saturada, fortemente háptica e física, mas também através de segmentos de banda sonora que remetem para Robert Fripp e a sonoridade eletrónica e ambiental.
Assim, a peça que Tatiana Macedo apresenta é, sobretudo, um ambiente, com modulações narrativas e emocionais que, no entanto, mantêm sempre uma alusão a uma fantasmática, evocada nos nomes e nos comentários fragmentares e emergentes de uma hipotética memória. Ou seja, a sua matéria é a ausência, o esgotamento, o cansaço e o desaparecimento. Que essa evocação nominativa surja a partir de nomes de tempestades não é indiferente: densifica o caráter distópico do ambiente pela convocação das alterações climáticas, mas pela pessoalização que os nomes instauram, trabalha o campo pessoal da falta, da falha e, nesse sentido, produz uma melancolia com a sua inerente envolvência física.
O cinema expandido de Tatiana Macedo instaura-se, nesta obra mais ainda no que noutras, a partir dessa melancolia, que é inerente à nomeação, à lista, ao pequeno gesto, ao ritmo do discurso, à circularidade da situação ambiental e à luz que empapa o espetador.