Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Rui Chafes, Your voice in the air that swirls around me, 2011. Ferro. 2 peças. 205 × 30 × 45 cm cada. Fotografia: David Luciano.


Orla Barry, Five Rings, 2006-2011. Vídeo HD, som, cor, 6’06’’. Fotografia: David Luciano.


Rui Chafes, L’Innommable feuille de…, 2004-2008. Bronze. Série de vinte e oito “esculturas para guardar na mão. Fotografia: David Luciano.


Orla Barry, Collection 1996-2011, 2011. Pedras e texto. Várias dimensões. Fotografia: David Luciano.


Rui Chafes (escultura), Burning in a forbidden sea, 2011. // Orla Barry (instalação sonora), Filling Egg Shells, 2011. Fotografia: Alcino Gonçalves.

Outras exposições actuais:

PEDRO CALAPEZ

DEBAIXO DE CADA COR


Galeria Belo-Galsterer, Lisboa
JOANA CONSIGLIERI

DIOGO COSTA AMARANTE

BE YOUR SELFIE


Solar - Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde
LIZ VAHIA

COLECTIVA

THE POWER OF MY HANDS. AFRIQUE(S) : ARTISTES FEMMES


Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, Paris
MARC LENOT

COLECTIVA

A LINHA ESTÁ OCUPADA


CITA - Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos, Arraiolos
NUNO LOURENÇO

SUZANA QUEIROGA

O MUNDO SEGUE INDIFERENTE A NÓS


Maus Hábitos - Espaço de Intervenção Cultural, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ANA PÉREZ-QUIROGA

¿DE QUÉ CASA ERES?


Mupi Gallery, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

AI WEIWEI

RAPTURE


Cordoaria Nacional, Lisboa
CONSTANÇA BABO

VERONIKA SPIERENBURG E NUNO BARROSO

CEMITÉRIO DAS ÂNCORAS


Galeria Boavista, Lisboa
CAIO GABRIEL

BRUNO ZHU

UH-OH


Sismógrafo, Porto
CATARINA REAL

JORGE JACOMÉ & MARCO DA SILVA FERREIRA

SIRI


Teatro Municipal do Porto, Porto
RODRIGO FONSECA

ARQUIVO:


ORLA BARRY & RUI CHAFES

Five Rings




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

02 MAI - 21 AGO 2011




Nas verdadeiras obras de arte há algo de indefinível, um valor aurático ou um valor de Belo que na contemporaneidade perdeu a sua definição para ser remetido para um lugar de pudor. As obras expostas em Five Rings são Belas. Todas elas têm esse valor que Benjamin define como “Uma estranha trama de espaço e tempo: o aparecimento único de algo distante, por muito perto que esteja” (1).


Rui Chafes nasceu em 1966 e licenciou-se em escultura pela ESBAL. A sua primeira exposição individual foi na Galeria Leo em 1986, ainda estava a estudar. Orla Barry nasceu em 1969 na Irlanda e frequentou a National College of Art and Design em Dublin. Em Five Rings colaboram pela segunda vez, escolhendo os espaços mais escuros e claustrofóbicos do Museu Berardo para criar uma exposição intimista, mas luminosa. Escolheram a zona expositiva onde melhor controlam todas as condicionantes externas.


Se Rui Chafes trabalha no puro domínio da escultura, questionando inclusive o próprio lugar desta num museu ou as suas balizas, Orla Barry trabalha em vários media, mas dando especial relevo à literatura ou ao texto como base das suas obras. É a palavra o mote das suas obras e em Five Rings também Rui Chafes se debruça sobre a palavra. Como em Your Voice in the Air that Swirls Around Me (2011) em que duas aspas gigantes contêm uma qualquer palavra ou frase que não vemos nem ouvimos. É o silêncio entre aspas, porque o silêncio não existe e Chafes gosta de trabalhar nas ausências.


Na primeira sala, o vídeo Five Rings de Orla Barry fala-nos da memória. Um relato pós-apocalíptico ou post-mortem, na primeira pessoa. Uma voz cadenciada que preenche todo o espaço e acompanha imagens de uma floresta e do mar, imagens escuras que acompanhadas pelo próprio som, nos remetem para esse ambiente pós-apocalíptico e ao mesmo tempo terrivelmente intimista.


Esta peça de Barry é acompanhada por L’Innommable feuille de…, um conjunto de 28 pequenas esculturas de Chafes “para guardar na mão” que à primeira vista quase poderiam parecer pequenas pedras que por terem sido moldadas pelo mar (o mar que vemos no vídeo de Barry) adquiriram formas estranhas. Há algo de profundamente táctil nesta obra. E por obra entenda se o conjunto do vídeo com as esculturas, pois também o vídeo nos mostra texturas que nos reportam para o sentir da mão.


Three Sisters Listening to the Sound of the Earth Moving Through Their Bodies (2011) e I Keep You in my Secret Place (2011) são obras de Chafes que remetem para a ideia de próteses. Não como substituição de alguma parte do corpo perdida, mas como um acrescento ao corpo humano, como se fossem uma segunda estrutura óssea ou um instrumento de tortura. Funções tão díspares mas que têm em comum a contenção do corpo humano. São peças em que o ferro é trabalhado como se fosse um material maleável que se deixasse esvaziar, como é habitual no artista: “Cada escultura envolve escondendo. A sua estrutura é aberta, através dela, porém, nada há a ver: ela guarda, enleia, deixando-se penetrar pelo pó (…)” (2).


Estas obras estão numa segunda sala onde também encontramos Collection 1996-2011 (2011) de Barry. Esta obra é constituída por seis vitrinas contendo pequenas pedras, que a artista nomeia segundo o seu aspecto, numa espécie de jogo infantil, em que o objecto artístico não é manufacturado, mas é resgatado à sua condição de anonimato para, com o título apropriado, ser apresentado num museu. O que importa pois, é o título. Essa é a imagem sugerida pelas pedras.


Inevitavelmente a obra constituída por Burning in the Forbidden Sea (2011) de Rui Chafes e Filling Egg Shells (2006-2011) de Orla Barry, é a peça central da exposição. É para lá que nos encaminham todas as outras numa espécie de ritual iniciático. É a obra patente nesta exposição que melhor condensa e resume o trabalho conjunto dos dois artistas. No centro de uma sala branca com luz esverdeada vemos suspensa uma peça de Chafes que, acompanhada pelo ambiente sonoro criado por Barry e pelo texto por ela declamado, nos transporta directamente para uma celebração xamânica, um apogeu ritualístico ou para um qualquer transe induzido por absinto ou mescalina. É a memória do primitivo.


Todo o percurso expositivo de Five Rings é atravessado por uma tensão e mistério que provocam no visitante uma forte inquietação. Como se também nós soubéssemos que temos que chegar àquela última peça que poderia ser a única obra desta exposição. Todas as outras parecem um diário do processo de trabalho e de confluência de sinergias entre os dois artistas que culmina de forma brilhante nesta obra que é palavra, mas é corpo, porque na ausência do corpo presente, temos a sua memória e o corpo encarnado que somos nós próprios, quando habitamos a obra.



NOTAS

(1) BENJAMIN, Walter, “Pequena História da Fotografia” in A Modernidade, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, p. 254.
(2) MOLDER, Maria Filomena, Matérias Sensíveis, Lisboa, Relógio D’Água, 1999.


Bárbara Valentina