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Enchem-se as redes sociais de previsões sobre como serão os museus depois da pandemia. Sendo estas redes as únicas que nos permitem contactar, por estes dias, elas enchem a cidade – e muitos se convencem que a partir de agora basta digitar num teclado para que se faça luz e o mundo pule e avance. Um mundo novo, admirável, aí mesmo ao virar da esquina.

Bom, serão talvez demasiado apressadas as notícias da morte do mundo material e de todo o cortejo de sensações (sim sensações... daquelas que estão para além do mero afagar de teclas), umas vezes doces, outras amargas, que ele em nós provoca. Mas que algo vai mudar na relação social, e por consequência nos museus, pelo menos no curto e médio prazo, isso podemos razoavelmente antecipá-lo.

Por estes dias, o afã escutista dos profissionais de museus retidos em casa está principalmente dirigido para mostrar que existem e, sendo possível, fazerem tão bem ou melhor que os parceiros do lado. Não se quer desmerecer nenhum esforço, porque afinal toda a água é boa, em tempo de seca. Mas que nem toda sacia, lá isso não. O recente inquérito da NEMO sobre como têm os museus estado a reagir ao encerramento generalizado a que foram forçados, revela que quase dois terços das seis centenas e meia dos respondentes (de mais de quatro dezenas de países) intensificaram a sua oferta em produções digitais, para consumo via Internet. Mas não nos diz o inquérito, helàs, que produtos são esses. Ora, basta uma mirada pelo que por aí se vê para perceber que neles raramente se explora o potencial informativo (não confundir com tecnológico, embora este também seja largamente desaproveitado) da comunicação à distância, via Internet.

O que têm os museus oferecido por estes dias, afinal? Em grande, em esmagadora parte (nunca o adjectivo soube tão bem aplicar), apresentações simples de peças ou colecções (por vezes com bonitas músicas de fundo), registos em vídeo de visitas guiadas ou comentário de peças em exposição. Por vezes, o mais do mesmo é servido sob forma exuberante, usando plataformas como o Google Arts & Culture: diz-se que se fazem assim “exposições digitais”, pretendendo até que as mesmas são interactivas porque permitem fazer zoom até ao pormenor do pelo da barba. Ou seja, oferecem-nos aquilo que em visita presencial, completada talvez por leitura de catálogo (impresso ou digital) poderíamos igualmente ver, com a vantagem de podermos andar à volta, sentir o objecto e o seu entorno, espreitando porventura até para o tardoz da tábua da personagem que tal barba tem.

Repito para que não pareça ingrato ou azedo: estes produtos são úteis, fazem falta sobretudo a quem esteja impedido de ir ao museu, não por estes dias, que hão-de passar, mas sempre, seja porque vive na Cochinchina e, podendo, não quer viajar, seja porque vive na Brandoa e, querendo, não pode visitar (ou pior ainda: podendo também, não quer, não sente o desejo de visitar). Mas não nos queiram dizer que tais produtos são os que melhor se adequam ao meio internético e ao tempo que vivemos. Não, são simplesmente triviais, ainda que “modernaços”. Ora, para fazer o trivial, melhor fora ser modesto, de tal modo que a bota bata com a perdigota: registos simples, a mera gravação em vídeo de power points pode bastar e será seguramente mais honesta. Não é preciso ser saloio na azáfama de parecer moderno, como no caso típico das ditas “exposições virtuais” no GA&C, quando se pretende converter um projecto americano típico da cultura light e do show business em algo profundo e rico de informação (melhor fora neste caso usar a plataforma Europeana, essa sim, direccionada para quem quer saber mais).

Porém e para sermos justos, importa reconhecer que alguns museus oferecem por estes dias produtos que se não se encerram no business as usual, ou seja, naquilo que se pode presencialmente obter ao visitar os museus. É o caso das visitas guiadas a reservas, a serviços de retaguarda ou a chamada de atenção para peças e colecções em geral desconhecidas, raramente ou nunca expostas. Claro que tais conteúdos poderiam, deveriam talvez, ser produzidos por rotina, no âmbito da actividade comum dos museus. Mas, enfim, seja a oportunidade do teletrabalho circunstância que favoreça a sua criação e disponibilização.

Produtos verdadeiramente concebidos para tirar partido da comunicação a distância, usando o canal da Internet, esses escasseiam tanto quanto o pão, quando Maria Antonieta recomendava comer brioches. E, no entanto, eles aí estão: as exposições virtuais 3D, com capacidade de circulação pelos espaços do museu (reais: veja-se por exemplo o caso do Museu Puskin; ou imaginados, o que pode ser ainda mais interessante: v., por exemplo, www.smithsonianmag.com) e aproximação ao pormenor tanto a peças e colecções (com acesso às respectivas bases de dados), como aos seus elementos contextuais (local de origem, horizonte cultural de pertença, etc.), as edições digitais com Hipertexto, a Panorâmica 3D ou a Realidade Aumentada seriam exemplos a considerar. Idealmente todos estes e outros mais deveriam ser utilizados, se possível de forma integrada, dando lugar àquilo que Sandro Debono recorda poder chamar-se “pensamento transmediático” ou “multi-nodal” (“Museum Pandemia and why transmedia thinking may be one possible solution”) – e que realmente representa a grande mais-valia dos recursos tecnológicos digitais de que dispomos. Não se julgue que estamos a pedir a Lua, como no caso da digitalização 3D de peças, com capacidade de impressão em casa, a pedido, ainda fora do alcance dos museus e do mercado usual do office market (ainda que nos EUA, por exemplo, tal se tenha iniciado já há meia dúzia de anos e seja hoje relativamente corrente, integrando serviços de empresas como a Staples; para uma visão mais completa v. também o volume de 2013 do Observatório de Tendências da Associação Americana de Museus). Não, nenhum dos produtos acima sugeridos apresenta na actualidade dificuldades tecnológicas (ou mesmo de preço) que impeçam o seu uso nos nossos museus. Faltará alguma formação, é certo, mas falta sobretudo o convencimento das equipas dos museus quanto à sua necessidade e centralidade.

Vejamos o caso mais simples, o das exposições virtuais viradas para utilizador e não as meras colecções de fotografias ou até as exposições congeladas pelo olhar de quem as produz. Tal como por estes dias nos tornámos todos, à força, especialistas em videoconferências, e nos apercebermos das virtualidades, limites e perigos das plataformas mais comuns, porque não recorrer às que já existem no mercado para a construção de exposições centradas no visitante, quer dizer, permitindo construir ele próprio as suas narrativas. Algumas ensinam, passo a passo, como fazer em termos básicos (v., por exemplo, maas.museum ou, no domínio das tecnologia virtuais, www.kunstmatrix.com), outras fornecem software mais sofisticado e criativo, algum dele pago (v., por exemplo, www.artsteps.com ou www.ikonospace.com), outro livre (v. a selecção apresentada em oedb.org). Porque não serem os museus, eles mesmos, a carregar as plataformas que entendam com bancos de imagens organizadas em torno de palavras-chave (ou nem isso, somente com as ficha de inventário acessíveis em pesquisas por hipertexto), sugerindo temas e conteúdos agregadores, mas deixando também ao utilizador a liberdade de criar as suas próprias coleccões, idealmente as suas próprias exposições, em 3D, mobilando com elas paredes de galerias ficcionais? Dir-se-á que assim se retira poder ao comissário ou ao conservador. Pior ainda, num tempo dominado por “curadores”, que tratam artistas e povo com a bonomia de adultos judiciosos (afinal em português o termo pode realmente ser usado, mas no contexto do direito das crianças: curador de menores)… neste tempo, deixar cada um construir as suas narrativas seria quase absurdo – e tiraria emprego aos ditos marchands do mercado das exposições de usar e deitar fora.

Convém notar que a crítica ao papel parasitário e controleiro do “curador” não significa de modo algum que o museu deva prescindir de exercer a sua “autoridade” em relação às colecções que guarda ou, melhor, por que é socialmente responsável. A liberdade que se reclama para o internauta é a mesma que se exige para o visitante presencial: a ambos deve ser dada a possibilidade de recriar o mundo como entendam que mais os satisfaz, mas o museu nem por isso deixa de ter a estrita obrigação de, ao “fazer falar” as suas colecções, fornecer as mensagens que entenda, debaixo da sua auctoritas. Deve, aliás, estar especialmente prevenido para a regressão democrática que potencialmente está contida naquilo que se poderia chamar de “ditadura do teclado”, esse sentimento de relativismo absoluto indutor de um “quero, posso e mando” particularmente enganador (e não raro agressivo), porque construído virtualmente, sem confrontação com a dura realidade. Ora, o exercício da auctoritas constitui um elemento inerente a qualquer transmissão de saberes, não podendo o museu prescindir da mesma, na sua missão educativa. Deve o museu procurar alargar a sua autoridade, incluindo vozes as mais diversas, vozes igualmente detentoras das suas próprias auctoritates? Com certeza. Mais ainda: o museu deve procurar envolver os receptores no acto de comunicação, eventualmente até fazer deles emissores, descobrindo autoridade em domínios que permitam enriquecer a sua função educativa. O que o museu não pode, ou em todo caso não deve, é sucumbir ao relativismo absoluto onde todas as versões se equivalem. Quando um visitante ou um comentador internauta disser (porque o dirá com muito maior afoitamente, porque imune ao calor e ao processo crítico que só a inter-acção pessoal desencadeiam) que a Criança do Lapedo, por exemplo, recentemente classificada como “tesouro nacional”, não pode ter mais de vinte mil anos, porque o mundo foi criado em “em 23 de Outubro do ano 4004 antes de Jesus Cristo, às nove em ponto da manhã”… bom, quando tal acontecer o museu terá de exercer a sua autoridade. Doa a quem doer.

Parecerá antiquada esta esta forma de “ser museu”. Bom, mas o que por aí vem, não sendo crível que conduza à extinção do museu (nem as guerras ou as hecatombes mais violentas o fizeram, no passado), só pode vir em favor da maior fixação naquilo que lhe tem garantido a sua sobrevivência, e mesmo explosão em todos os azimutes, nestes quase três século que já leva de reinvenção moderna, no enquadramento cidadão da Revolução Francesa.

É bem verdade que por estes dias muitos museus passam dificuldades, correm o risco de encerrar. Mas sobretudo lá onde “o mercado” tinha tomado conta deles. A crise é tal que nos EUA a Associação de Directores de Museu de Arte, reunindo cerca de duzentos e quarenta museus desta tipologia, levantou as directivas que impediam usar fundos para investimento em colecções e programação, autorizando que sejam direccionados para consumos correntes e salários. Mas nem isso obsta a que a Associação Americana de Museus deixe de antecipar que cerca de um terço dos museus naquele país simplesmente não reabrirá portas, depois de passada a crise.

Na Europa o vírus do mercado nos museus tem outros contornos e dimensão muito menos funesta. A maioria dos grandes museus no Velho Continente não morrerá da pandemia. De resto e ainda de acordo com o inquérito da NEMO acima citado, poucos revelaram ter tido importantes cortes orçamentais… por agora, pelo menos. Mas muitos, porventura alguns dos mais celebrados nas duas últimas décadas, antecipam maus tempos e terão um choque profundo no “modelo de negócio” que vinham a adoptar, por convicção ou por mera rendição aos ares do tempo. Por convicção, no caso dos museus, mesmo públicos alguns, geridos numa óptica agressiva de mercado, suportados em produtos de tipo franchising (caso do Museu Van Gogh, com os seus espéctaculos de luz e som, vendidos como pãezinhos quentes em todo o mundo, promovidos como exposições “inovadores e verdadeiramente imersivas”…). Por rendição, no caso dos museus que pouco a pouco se deixaram cair no embalo do turismo, entre os quais se destacam, entre nós, os da canção de Lisboa.

Neste contexto, os museus do Ministério da Cultura merecem especial cuidado. Os mais optimistas (ingénuos até, como nos chamaram), acreditávamos que estavam em vias de iniciar nova vida, com muito maior autonomia e orçamentos de programação, debaixo do princípio, plasmado em lei, da repartição solidária entre todos das verbas produzidas pelo conjunto dos museus, monumentos e palácios nacionais. É claro como água agora que tais receitas, geradas principalmente pelo Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém (adicionalmente também pelo Mosteiro da Batalha e Paço Ducal de Guimarães, pouco mais), se vão reduzir a quase nada, porventura durante vários anos. E, consequentemente, o ímpeto centralista de uma casa onde todos ralham e ninguém tem razão, a DGPC, irá fazer-se sentir acentuadamente. Ora, não sendo crível que o OE seja reforçado, nem que fosse somente na medida da perda das receitas do turismo, o que vai suceder é um regresso em força a mais do mesmo, mais ainda pior.

Claro que, usando a falácia da psicologia motivacional que diz a palavra “crise” significar em chinês uma soma de risco com oportunidade, existem lados potencialmente prometedores nos tempos que correm. Poderão os grandes museus (principalmente estes, mas também, em menor medida, os palácios e monumentos) rever as suas estratégias e perceber que o seu foco principal devem ser os cidadãos nacionais, primeiro os adultos e logo depois as crianças e jovens, organizados ou não em comunidade escolar? Perceberão que, sendo assim, os critérios gestionários não poderão nunca ser os da rentabilidade imediata, suportada em bilheteira e em exposições tipo blockbuster, com temas apelativos talvez (coisas como “a forma do nariz nas obras dos grandes mestres”), mas totalmente espúrios para o que deveria constituir a sua missão cidadã?

Lá fora, alguns já disto se aperceberam. Pepe Serra, director do Museu Nacional de Arte da Catalunha, antevê que acabará, pelo menos durante algum tempo diríamos nós, “a corrida absurda por audiências, com grandes exposições de custo muito alto e curta duração, pensadas para atrair o público de forma pontual”. E acrescenta que o museu “é antes de tudo um serviço público e deve servir todas e todos”, sendo esta crise “uma lição sobre a fragilidade do modelo capitalista” (elpais.com). Na mesma notícia, onde se fala de “debacle económica”, as mesmas ideias são expressas por outros responsáveis de grandes museus, na Alemanha ou no Reino Unido, sendo que no caso do Prado, com cerca de dois terços de visitantes turistas e não obstante a importância decisiva da bilheteira (três meses encerrado equivale a cinco milhões de euros a menos), se admite já que as medidas de emergência tomadas no início desta crise para compensar receitas, foram contraproducentes porque se traduziram numa diminuição sensível do número de visitantes e receitas afinal inferiores.

Que fazer, pois? Insistir numa receita que, a prazo, já estava condenada em termos económicos antes da pandemia e sobretudo se constituía numa grave aviltação da missão dos museus, ao gosto do imaginário dos parques temáticos – o único que nesse figurino lhes permitiria sobreviver? É que, como observa ainda mesma notícia Maira López-Fanjul, conservadora dos Museus Nacionais de Berlim, “levará tempo a convencer [o visitante] a aceitar encerrar-se durante duas horas num espaço junto a muita gente”. E, se para ver ícones como a Mona Lisa, poderemos até admitir que tal venha a suceder em poucos anos… para ver grandes mestres em rodopio dentro de museus, bom, isso pode demorar muito mais. Porque o verdadeiro problema é que não estamos a falar simplesmente de uma “crise de saúde”, acrescenta Ana Botella Diez, responsável de públicos da Welcome Trust (Reino Unido), “mas de uma crise existencial que vai provocar mudanças fundamentais no nosso estilo de vida”.

Abandonemos, pois, os cantos de sereia do mercado, terreno confortável no curso prazo, onde fazer dinheiro é glorioso (para usar uma expressão cara ao capitalismo de Estado chinês). Reconheçamos de vez que a missão principal dos museus não é servir pão e jogos ao povo, mesmo que sob a forma de exposição de tipo blockbuster, muito deslumbrantes – as quais, neste seu glamour, escondem malfeitorias gravíssimas (v., por exemplo, “As ‘grandes exposições’, os museus e o provincianismo nacional"). Outros, os luna-parques, farão sempre mais apropriadamente, e melhor, esse papel. Os museus, em tal competição, ou se desnaturam, ou perdem, inexiravelmente.

Regressemos, enfim, àquilo para que os museus servem: para formar cidadania, através de arquivos memória materiais, senão palpáveis (infelizmente os museus raramente o podem ou deixam fazer), pelo menos tão emocional e fisicamente presentes como o cheiro a terra molhada, depois tempestade. “Os governos acharão – diz José do Nascimento Junior por estes dias (“Museus e Cultura em períodos de pandemia”), que todas as políticas públicas poderão ser virtuais, que não precisarão construir escolas, museus e os movimentos sociais com as pessoas da cultura do isolamento romper com as restrições políticas, que utilizarão a crise para implantarem nova cultura, nova ações. Vamos aprofundar os instrumentos que temos direito a museus a cultura a saúde educação.” Assim seja.

 

 

Luís Raposo
Presidente do ICOM Europa