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Em arte, a revolta termina e perpetua-se na verdadeira criação e não na crítica ou no comentário. Por seu lado, a revolução só pode afirmar-se numa civilização e não no seio do terror ou da tirania. As duas perguntas que daqui em diante o nosso tempo formula a uma sociedade que se encontra num beco sem saída – É possível a criação? É possível a revolução? – fundem-se numa só, que diz respeito ao renascimento de uma civilização.
Camus (1951, p. 325)

 


«É possível a criação? É possível a revolução?» questiona Camus.

A revolta, a liberdade e a paixão levam-nos a três possibilidades de podermos ultrapassar o absurdo. Sentimos algo que nos transcende e necessitamos de abraçar a vida. Camus confessa essa dualidade existencial do ser humano.

Entre a morte e a vida, o suicídio e a revolução, a revolta era a sua melhor escolha, encontrando nela e na consciência as duas formas de recusas que dão ânimo à vida.

Entre o abismo e a luz, o ser humano tem de escolher o seu caminho. O escritor, dramaturgo e artista visual espelham no mundo por imagens visionárias como se fossem anti-heróis de uma peça de teatro. Abandonam a perspetiva de apenas se mergulhar no absurdo e na angústia, procurando o mistério da vida. Nada importa do que mais encontrar o sonho. Recuperar o elo perdido que fora traçado. As Profecias de Abdul Varetti, 1973, de Álvaro Lapa interrompem o silêncio através das suas «obras-com-palavras», convergindo a essência com os aforismos proféticos. Das frases transformam-se em máximas. Apelam, assim, à transformação, à revolução, à liberdade e à leveza.

Com Lipovetsky, no seu livro A Era do Vazio (1983), vive-se a revolução. Numa Era personalizada e ideológica cujo artista procura a libertação do indivíduo, a liberdade de expressão e a contestação.

Foi o caso de Maio de 68. As discussões que se travavam em torno do teor do movimento são a este respeito significativas: revolução ou happening? Luta de classes ou festa urbana? Crise da civilização ou charivari? (Lipovetsky, 1983, p. 202)

 

Presentemente, será que a revolução voltou? No limiar da vida ou no fio da navalha como em Artaud? Voltaremos a ser dilacerados com o último suspiro como em Beckett, ou já nos esquecemos de vivenciar o próprio «rito de passagem», o diálogo ou a libertação como era presenciado em Joseph Beuys. Ilustra, assim, Lucrezia de Domizio Durini (1996, p. 78):

Beuys goes back to German philosophy prior to scientific positivism; he appeals to Novalis, to some Goethe, taking his analysis in the direction of the natural and social immanent and making this immersion in the world a process of liberation. The goal of this art is not form, but the liberation of man, the globality of his creativity, knowledge of and dialogue with others.

Exalta-se a voz, o silêncio, a sombra atrás de uma membrana transparente, numa sutura que impede a saída do som. As obras de Helena Almeida, Ouve-me, 1979 e 1980, e Sente-me, 1979, continuam a ser uma experiência estética atual, por «abalar a terra» como diria Ernesto de Sousa. Pela contestação, o silêncio, a ausência e o outro. Uma boca gesticula, mas não emite som. Silêncio de um corpo que não exprime. A aflição, a súplica, sente-se.

As mentalidades mudaram, persistindo as inquietações do espírito. Já não é um happening nem uma revolução. O ser humano permanece suspenso no tempo. Gesticula. Braceja, onde o vazio persiste. Questionamos a falência de valores ou de uma apatia geral? A raiva é descontrolada, projetada para várias frentes. Critica-se uma cultura do passado e a história dos costumes, de modo a ser possível transformar mentalidades ou documentar algo que não é tão distante como gostaríamos que fosse. Ana Pérez-Quiroga, na sua obra Antes morta que burra, 2006, destaca múltiplas expressões idiomáticas populares, conceitos, tabus e significados oriundos do termo burro, frases bordadas e escritas a encarnado, ora nas orelhas de feltro ora na parede, evidenciamos, desta forma, algumas delas por aguçar a curiosidade na descoberta do espectador:

(...) vozes de burro não chegam ao céu; dar com os burros na água; albarda-se o burro a vontade do dono; se a ferradura desse sorte, burro não puxava carroça; burro com fome, cardos come; burro que geme, carga não teme; burro velho não toma andadura, e se toma, pouca dura; mais vale burro vivo do que sábio morto (...)

Todavia, o artista e o poeta despertam o espírito, instiga ao sentimento ou à sensação desconcertante através da contemplação da matéria. Aspira-se o todo, a ecologia e a humanidade. A liberdade e a igualdade. Cruzam-se vozes e expressam-se ideias e conceitos, interroga-se como Walt Whitman (1856):

O traço definitivo de todo o poeta é sempre o espírito com que observa a natureza e a Humanidade, o temperamento a partir do qual contempla a matéria. Com que têmpera e com que fé se comunicam estas coisas? A que época se molda o canto? Quais as ferramentas do poeta, o seu engenho peculiar, os seus matizes? (Whitman, 2003, p. 400)

O poeta vê, sente e comunica. Enaltece feitos e desconstrói pensamentos, atitudes e comportamentos. Num acto de silêncio. Percecionamos a tragédia. Numa euforia esquizofrénica, deixamos de existir. Somos o ser e o não-ser.

Entropia. Morte. Invisibilidade. Doença. Fármacos. Experiências. Multidões. Recordamos, desta forma Akomfrah, na sua obra Purple, exposição realizada no CCB em 2018/2019, por invocar o testemunho da Terra e da Humanidade. O artista agita a consciência do espectador com arquivos e memórias, histórias e catástrofes naturais e humanas.

 

Um prelúdio. Um suspiro.
Um sopro entre a vida e a morte.
Nada. Tudo.
Without      (Snyder, 1974)

 

the silence
of nature
within.

 

the power within.
the power
without.

 

the path is whatever passes–no
end in itself.

 

the end is,
grace-ease-

 

healing,
not saving.

 

singing
the proof

 

the proof of the power within.

 

 

 

Joana Consiglieri