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O ESTADO DA ARTE


Daiara Tukano. Mural para CURA - Circuito de Arte Urbano, Belo Horizonte, Brasil. Fotografia: Caio Flavio / Área de Serviço


Sandra Benites, nova curadora adjunta de arte brasileira no MASP.


MAHKU. Movimento de artistas Huni Kuin, Mito do surgimento da bebida sagrada Huni Kuin, 2020. Tinta Acrílica sobre lona, 300x400cm.


Denilson Baniwa, For Hope Beyond the Horizon, 2020. Infogravura. Cortesia Museu do Índio da Universidade Federal de Uberlândia.

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O que é o ato criativo? A quem ele se dirige? Quem somos nós no contexto da arte? Walter Benjamin vê – através do anjo de Paul Klee – a história como ruínas, mas guarda também um elemento de esperança até mesmo na barbárie. Por cima do acúmulo de ruínas, que é a história dos vencedores, mantem-se a esperança, um salto qualitativo, “o salto do tigre” para fora da história.

É importante que tratemos da história dos vencidos, esta que ainda está por ser escrita. Me refiro aos povos indígenas, mas não quero cair na pura lamentação; não se pode simplesmente aceitar a história que continua a arruinar a vida dos indígenas. Quero pensar no ponto de vista social, no papel que a arte tem de restabelecer certas interrupções produzidas no seio da cultura. A diferença entre ver e saber. O saber que atrapalha o ver. Ilusões de ótica provocadas por desvios: se sei, não vejo. Não é ver pra crer, nem crer pra ver. Anti-São Tomé: duvidar pra ver. Duvidar da aparência. As aparências enganam. Os enganos aparecem. Diferença entre aparição e aparência. As metáforas aqui colocadas trazem algo que se anuncia, elas vêm plenas de significação e as imagens são como resto, uma sobra de um desencontro. Em que medida uma imagem ou ideia pode ser compartilhada? Que percurso uma idéia se faz na constituição do pensamento até a sua imagem real? Penso nas imagens como interpretação, e a função da interpretação é essa de desacomodar o sujeito e gerar sentidos. A interpretação, no sentido psicanalítico e no sentido social, são provocações de aberturas; a verdadeira interpretação desacomoda o sujeito. Espero que esse novo sujeito que surge desacomodado repense suas origens e discuta, através de imagens, sobre uma mudança de comportamento dos museus e instituições de arte e refaça sua trajetória.

Em 500 anos de invasão, o Brasil viu chegadas e saídas de europeus, árabes, judeus, asiáticos… Todos procurando lugares e espaços para se aninharem. Encontraram paisagens verdes, vermelhas e amarelas. Quando aqui ficam, o que trazem esses forasteiros? E nós ficamos vazios, cheios, misturados, sozinhos, mal acompanhados. Somos nativos, índios, caboclos, bugres, mestiços, somos pobres, somos o resto para a sociedade colonizadora.

O racismo na sociedade brasileira é um fenómeno transversal que forma uma teia de violências culturalmente enraizada ao longo dos séculos. E, nesse contexto, é necessário se pensar e discutir um dos aspectos mais invisibilizados do racismo no Brasil: o caso do racismo contra os povos indígenas. Historicamente, registrou-se a banalização da desvalorização e desqualificação de suas culturas, eis que entendidas como modos de vida bárbaros que deveriam ser postos de lado para se adotarem costumes cristãos.

Essa dinâmica invisível e arraigada do racismo contra povos indígenas desde os primórdios da colonização pode ser notada inclusive por um vazio na literatura acerca do tema. Os indígenas ainda hoje são colocados num lugar pertencente ao passado, sem conexão com o tempo e a sociedade presentes; um resultado da pouca atenção ao seu protagonismo que a história oficial lhes endereçou, contribuindo ou causando o seu genocídio, inclusive cultural. No entanto, existir e resistir são necessários para enfrentar as investidas do presente e, assim, evitar o apagamento cultural que tanto prejudicou os povos originais da América.

Desde o início do processo de colonização, o Brasil vive sob a dominação ocidental europeia, branca e masculina; uma realidade da qual a arte também não escapou. São anos de colonização que não se encerra com a pseudo independência de 1822, mas que toma outras formas imperialistas incidentes sobre a cultura, a arte, a economia, a sociedade, o meio ambiente. Mas, pensando em Marx, como tudo que é solido se desmancha no ar, parece haver uma luz no fim deste túnel e apontando para novas possibilidades no universo da arte.

Pensar num mundo menos ocidental em favor de uma história da arte mais abrangente, menos branca, menos europeia e menos masculina pode ser a luz propulsora para novas práticas museológicas e curatoriais em relação à questão indígena. Nos últimos anos alguns museus têm pensado diferentes práticas de inclusão, mostrando a produção indígena não como um campo especializado e cheio de estereótipos, mas como uma abertura para um debate sobre a arte contemporânea e os conflitos deste mundo multiplural, fragmentado e em crises ecológicas e humanas no qual vivemos.

Tais políticas museológicas vêm de encontro com a luta dos movimentos sociais antirracistas (a exemplo do recente levante do Black Lives Matter, depois do assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos), com respaldo na tentativa de romper estigmas e promover maior inclusão e representatividade da arte indígena no mundo, despertando para uma possível e necessária mudança de comportamento das instituições de arte.

Estamos presenciando um vigoroso movimento na arte contemporânea, com desdobramentos para uma arte de visibilidade antirracista. E os artistas indígenas brasileiros têm se articulado nesse sentido, fazendo e deixando aflorar um espaço cosmopolita de criação artística muito singular e potente e que não passará desapercebido pelo mundo. O movimento se dá da cosmopolítica, que marca as relações entre os seres na floresta, ao cosmopolitismo das grandes cidades mundiais, e tem como horizonte a possibilidade de criar outros mundos possíveis, mundos estes que se tornaram urgentes (Lagrou, 2020).

Contratações curatoriais indígenas em importantes instituições de arte começam a surgir neste novo cenário, com a inserção da arte indígena contemporânea em Bienais e exposições pelo mundo. Em Londres, o Tate Modern foi uma das primeiras instituições a extrapolar as fronteiras entre os cânones ocidentais e a produção do resto do mundo em favor de uma história da arte mais abrangente, principalmente quando resolveu inaugurar um prédio com quase todo o seu espaço expositivo com obras adquiridas da América Latina, África e Ásia. Nesse mesmo viés, o Tate Modern ainda promoveu a contratação do curador Pablo José Ramírez, um teórico cultural no campo das práticas da arte contemporânea indígena, cujo trabalho revisita as sociedades latino-Americanas do pós-II Guerra para considerar ontologias não ocidentais de indigeneidade, formas de inclusão social e transnacionalismo.

No Brasil, Sandra Benites ocupa hoje o cargo de curadora adjunta do Museu de Arte de São Paulo, sendo a primeira curadora indígena a ocupar um posto tão importante no País. Como parte da equipe de curadores de arte brasileira do MASP, ela será uma das responsáveis pelo programa Histórias Indígenas, um projeto curatorial extenso, lançado em 2016, e que, em 2021, apresentará oficinas, cursos, palestras, exposições e publicações dedicados à arte a à voz indígena ao redor do mundo. Neste momento de violência e opressão contra os povos indígenas e suas terras, tal contratação representa, com toda certeza, um grande marco.

Em Nova Iorque, o Metropolitan Museum of Art também contratou Patricia Morroquin Norby, indígena mexicana do povo Purépecha, como sua primeira curadora nativo-americana. Nesta função ela poderá colocar as artes indígenas em foco e em diálogo com a produção cultural diversa para parcerias de longo prazo. Essas contratações podem ser um começo de uma inserção de indígenas no circuito de arte contemporânea no Brasil e no mundo.

Algumas exposições e mostras de arte indígena também começam a despontar no universo espacial, antes somente ocidental. Em 31 de novembro de 2020, foi inaugurada na Pinacoteca do Estado de São Paulo a Exposição Véxoa: nós sabemos, com curadoria da indígena Naine Terena. “Esta exposição é fruto de um diálogo durante os últimos anos entre o Museu e diversos atores da arte contemporânea de origem indígena brasileira, colocando em debate a história da arte que o museu pretende contar e as que permaneceram invisíveis”, afirma o diretor geral da Pinacoteca, Jochen Volz, em nota da Pinacoteca. São 23 artistas e coletivos indígenas mostrando pinturas, instalações, objetos, ações e performances exibindo uma pluralidade da produção artística indígena e desmistificando a arte como artesanato ou meros objetos etnográficos. É também a primeira vez que o Museu adquire obras de artistas indígenas para compor seu acervo permanente, desde a sua criação, em 1905.

Outra exposição importante, também de 2020, e exemplo de uma tomada do espaço das visualizações de mundos possíveis, é a exposição CURA – Circuito de Arte Urbana, em Belo Horizonte, com curadoria da indígena Arissana Pataxó, na qual Daiara Tukano pintou o maior mural já pintado por uma artista indígena. Por sua vez, Jaider Esbell, artista indígena de ascendência Makuxi, instalou, no viaduto Santa Teresa, duas grandes jiboias infladas, e coloridas com grafismos.

Também em Minas Gerais, o Museu do Índio da Universidade Federal de Uberlândia entre os meses de setembro a dezembro deste ano realizou a Primeira Mostra Coletiva de Artistas Indígenas, com quatro artistas indígenas contemporâneos, tendo como tema seu olhar e seus desdobramentos poéticos. Em um momento em que o País e o mundo vivem momentos “líquidos”, onde nada poderá ser mais como antes, com pandemia, confinamento, a razão de ser dessa exposição se revelou mais premente, conduzindo a questões imagéticas – pois queremos que a imagem seja insistente e nos leve de volta ao tempo em que o olhar nos imobilizava, e que esses pavores trocados das imagens petrificadas com pancadas de malho nos façam refletir sobre o tempo do tédio.

Os quatro artistas, por serem de etnias diferentes – Naine Terena, do Mato Grosso; Ibã Huni Kuin, do Acre; Denilson Baniwa, do Amazonas; e Yermollay Caripoune, do Oiapoque, no Amapá–, foram convidados pelo Museu do Índio para pensarem uma produção onde a reflexão sobre o corpo, a natureza, a sociedade e o universo mítico estivessem presentes. Tal produção talvez seja uma noção de permissão para se sonhar, fornecida pelas experiências positivas e experimentações imaginativas na modelagem artística de cores e formas desses quatro artistas.

Por fim, é também necessário se registrar a recente e significativa presença de artistas indígenas em importantes museus e galerias na cidade de Nova Iorque. Conforme matéria de dezembro de 2020 no The New York Times, as galerias Fort Gansevoort e a Peter Blum, e o Museu do Brooklyn, se abrilhantaram com exposições de Sky Hopinka, Edgar Heap, artistas nativos de descendência Southern Cheyenne e Arapaho; Nicholas Galanin, de origem Tlingit e Unangan, nascido no Alasca; Jeffrey Gibson, artista nativo Choctaw e Cherokee. Também se fez presente com exposição no Metropolitan Museun of Art de Nova York o pintor indígena canadense Kent Monkman, nativo do povo Cree.

Caetano Veloso, com sua voz magnífica, vislumbra uma visão:

“Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
de uma estrela que virá
numa velocidade estonteante
(…) virá que eu vi…

Talvez, assim como o compositor baiano, possamos vislumbrar um momento de aurora, de (re)tomada de consciência e reflexão, propiciado, e, também, como resultado, de um levante da arte indígena e da sua ocupação de espaços institucionalizados da arte. O turbilhão que vemos neste momento é uma imagem de superfície com muitos desdobramentos possíveis. O que me inquieta e me funda é que um dia poderemos visualizar uma nova possibilidade em relação à questão indígena, suas terras, suas vidas, seus destinos e suas artes.

No entanto, apesar dos exemplos positivos e do empenho de diversos agentes para dar mais visibilidade a tais questões, há um longo caminho a ser percorrido. A arte, como caminho, permite o conhecimento e o auto-conhecimento. Eu me reconheço no que faço e em certas interpretações dos outros sobre o que eu faço. Desse modo, os museus e as instituições da arte poderão ter o destino de reconhecer o outro para a constituição de uma sociedade mais preparada e menos preconceituosa.

Não sei se (já) estamos vivendo um momento de rupturas da velha politica, mas creio que os museus e as instituições de arte são espaços para se repensarem cânones antigos que não nos cabem mais ou que não deveriam caber. Algo está se anunciando, apenas não sei se ainda é o que realmente merecemos. Se há uma modificação, há uma desconstrução, que também pode implicar em uma reconstrução, uma abertura de possibilidade, em um tempo daqui pra frente.

A natureza do conhecimento artístico se constrói sempre de ordem subjetiva. Quando um teórico ou crítico escolhe falar ou estudar as obras de arte, está efetuando um juízo de valor e não significa que será sempre individual, há que se ter em conta os sensos coletivos. Uma produção artística concebida à luz de outros valores e em interação com outras estruturas políticas e sociais diferentes daquelas em que se figuravam implicam diferenciações. Pode parecer evidente a nova mudança, mas decorre de muita luta e ações em torno do novo. Para se creditar o que está sendo posto, é preciso um sobrevoo e um deslocamento para o que era e o que vai ser, e não veremos a luz no fim do túnel sem uma visão adequada da história, principalmente sobre a história da arte. Urge que se refaça esse novo percurso em vias de se concretizá-lo. É o que nós indígenas sonhamos, esperamos e ansiamos… pelas mudanças significativas em curso relevantes e positivas, porque existimos e resistimos.

Concluindo, reproduzo um manifesto elaborado pelo movimento indígena por ocasião da comemoração dos 500 anos de História do Brasil:

“Nosso movimento pretende celebrar sim (esses 500 anos), mas celebrar as vitórias conquistadas ao longo dos séculos, através de lutas coletivas, através de iniciativas populares, plena de heróis anônimos, que nunca terão seus nomes escritos nos livros de História. Vamos celebrar sim as vitórias que nos custaram tanto sangue e tantos mártires, tanto sofrimento e esperança nos corações de gente que nada tinha pra lutar, senão a sua fé num mundo menos desumano. Vamos celebrar sim as vitórias e as derrotas de uma luta sempre desigual: de um lado a riqueza, o poder, as armas, o desprezo pela vida e a arrogância de classe; de outro lado, a vida coletiva, o trabalho humano, os despossuídos de tudo, a solidariedade de classe, a humildade, a generosidade anônima e a infinita esperança”.

 

 

Kássia Valéria de Oliveira Borges
Artista visual Karajá. Licenciada em Poética Visual pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, com doutoramento em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Manaus, Brasil. Professora em IARTES na UFU - Universidade Federal de Uberlândia, Brasil.

 

 

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Bibliografia

Manifesto Brasil 500 anos de Resistência Indígena, negra e Popular, dezembro de 1991. CIMI. Marcha e Conferência Indígena – Abril de 2000, Brasília: Cimi, 2000, p. 121.
The New York Times, Dezembro 2020.
Lagrou, Els. Arte indígena contemporânea e o nascimento de uma figuração Huni Kuin. Uberlândia, EDUFU, 2020.

 

 

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Este artigo foi originalmente publicado na revista Artishock (Chile) com quem a Artecapital desenvolve uma colaboração com o objectivo de aproximar os leitores portugueses de temas da América Latina e viceversa.