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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia: Sofia Saleme


Fotografia: Sofia Saleme


Fotografia: Sofia Saleme


Fotografia: Sofia Saleme


Fotografia: Sofia Saleme


Fotografia: Sofia Saleme


Mama Anderson. Fotografia: Sofia Saleme


Mama Anderson. Fotografia: Sofia Saleme


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BIENAL DE SÃO PAULO




BIENAL DE SÃO PAULO
São Paulo, Brasil


07 SET - 09 DEZ 2018


 

Segunda mais antiga e importante do mundo, a Bienal de São Paulo passa pela sua 33ª edição sem uma temática principal ou curador como figura maior. Pode-se pensar que esses elementos - ou a falta deles - transformariam os mais de 25 mil metros quadrados do Pavilhão da Bienal num excesso de informação visual e confusão de narrativas. O que se vê, pelo contrário, é o apreço pela organização e o cuidado pela experiência individual (o que deveria ser prioridade em qualquer exposição deste porte). A proposta é do curador espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, que no lugar de convidar artistas para comprovar uma tese – costume nada interessante de grandes mostras internacionais - construiu uma série de narrativas a partir de artistas e obras que lhe são relevantes. Com o título “Afinidades Afetivas”, a Bienal de São Paulo está muito mais ligada às diferentes percepções de experienciar a arte do que a conteúdos delimitados.

 

“No mundo em que vivemos, onde tudo é pautado no discurso, minha estratégia curatorial é não falar sobre ideologias ou conceitos, mas usar a arte para mostrar outras maneiras de se colocar no mundo”, afirma Gabriel. Para isso, ele investigou o pensamento do crítico e ativista politico brasileiro Mário Pedrosa que, na tese “Da natureza afetiva da forma na obra de arte”, discute como o espectador constrói o seu entendimento sobre uma obra por meio de um diálogo entre as características formais do trabalho e a estrutura psicológica do espectador. Ou seja, para Mário Pedrosa e Gabriel Pérez-Barreiro, a obra deve ser julgada em termos da sua capacidade de construir uma relação entre a intenção do artista e a sensibilidade do espectador.

 

A fim de promover a polifonia de experiências, Gabriel escolheu doze artistas para ganharem mostras individuais. Todos são sul-americanos, levando em conta que sua especialidade é arte latina (ele é curador da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, em Nova York e Caracas). Além disso, convidou sete artistas para atuarem como curadores: Alejandro Cesarco (Uruguai), Antonio Ballester Moreno (Espanha), Claudia Fontes (Argentina), Mamma Andersson (Suécia), Sofia Borges (Brasil), Waltercio Caldas (Brasil) e Wura-Natasha Ogunji (EUA/Nigéria). Integram os núcleos dos artistas-curadores trabalhos assinados por eles mesmos e de outros selecionados. Não há diálogo claro entre os grupos: o prédio da Bienal mais parece abarcar exposições completamente diferentes. “Os procurei por suas diferenças e não por suas semelhanças”, explica Gabriel.

Duas das exposições são especialmente singulares. A primeira delas é “A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um”, curada por Sofia Borges. Por todo o seu núcleo se erguem cortinas de cores escuras e vibrantes, que são ao mesmo tempo uma delimitação teatral do seu “território”, como o cenário contrastante dos trabalhos expostos. Por seus corredores ora se perde, ora se encontra instalações de Tunga, telas de Bruno Dunley e trabalhos de Sara Ramo e Sarah Lucas. É uma busca incessante, como uma metáfora da própria vida ou, em outras palavras, da tragédia humana. Explica-se: a nossa maior tragédia é entender o peso da vida, saber que tudo vai mudar a partir de agora e que todo momento é decisivo. Esta dramaticidade está presente em cada canto da mostra coletiva construída pela brasileira. Ela declara: “Na tentativa de sair dessa tarefa interminável de percorrer seu próprio destino, o homem construiu a cultura: deu sentido para as coisas através da arte, da filosofia, da religião”.

É por isso que sua pesquisa retoma tempos longínquos, dos primórdios do homem. Ela vem visitando museus de história natural e centros de pesquisa sobre arqueologia e paleontologia de diversos países do mundo, com o objetivo de estudar a imagem como compreensão da existência. As fotografias de sua autoria presentes na Bienal (alguns retratos de esculturas antigas) são exemplos do seu atlas imagético através do tempo. “O meu maior desafio é fazer dessa exposição um estado de investigação, onde o cruzamento entre o espaço físico e temporal da exposição gere um estado não linear, simultâneo, expansível para dentro de si próprio”, conta. A artista de 34 anos foi um dos grandes destaques da 30a Bienal, que participou como artista. Seis anos depois, seu retorno para a 33a edição mostra uma continuação da sua linha de pesquisa, só que ainda mais madura e expansiva. Seu labirinto tem de tudo: a busca pelo incerto, a curiosidade, a dramaticidade, o desejo pelo prazer e pelo sucesso.

A segunda belíssima curadoria foi feita pela artista sueca Mamma Anderson, na exposição “Stargazer II”. As pinturas assinadas por ela, como “Dog Days” e “Hello Goodbye”, misturam personagens que parecem ter sido pegos de surpresa, em posições desconfortáveis, com cenários borrados de pinceladas marcantes, formando composições esquisitas e fascinantes. “Para minha curadoria, selecionei pintores, em sua maioria, que se relacionem com o meu trabalho ou nos quais me inspiro”, contou a sueca na entrevista coletiva da 33a Bienal. Ela completa: “Todos eles são outsiders”. É isso que torna o seu núcleo o mais novidadeiro do Pavilhão. Ela trouxe artistas desconhecidos e que tiveram seus trabalhos marcados por uma trajetória (bem) turbulenta. Gunvor Nelson, uma das únicas artistas vivas da sua seleção, é uma artista experimental sueca cujos filmes foram exibidos no circuito underground nas costas oeste e leste dos EUA. Do também sueco Carl Fredrik Hill, Mamma Anderson apresenta paisagens feitas na segunda metade do século 19. Sua obra foi interrompida aos 28 anos de idade quando teve um surto psicótico. No resto de sua vida, ele pintava de acordo com sua imaginação e memória.

O núcleo de Anderson ainda tem outras boas descobertas. Nascido em 1882, Ladislas Starewitch foi um pioneiro do cinema russo polonês e assina “A vingança do cinematógrafo”, que mostra baratas descobrindo as maravilhas do cinema. O vídeo é exibido ao lado das pinturas à óleo sobre papel-cartão de Lim-Johan, que viveu toda a sua vida, entre 1865 e 1944, numa área com um raio de oito quilômetros num vale na Suécia. A única exceção foram os oito anos em que passou num sanatório. Falecido em 2011, Miroslav Tichy, passou décadas fazendo fotos clandestinas de mulheres da sua cidade natal na República Checa com equipamentos que ele mesmo inventava. Por fim, Ernst Josephson, que viveu até 1906, alcançou o sucesso ainda jovem devido às suas pinturas, mas foi logo acometido pela sífilis. Desfigurado pela doença, teve transtornos psicológicos que o levaram a ser diagnosticado com esquizofrenia. Tanto Sofia Borges como Mamma Anderson foram ousadas e corajosas sem perder a essência do seu trabalho – elas aproveitaram a excelente oportunidade para desafiar o seu próprio fazer artístico.



JULIA FLAMINGO