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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Cartaz Vª Edição do Fuckin`Globo 2018


Vista da exposição.


Vista da exposição.


Vista da exposição.

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ARQUIVO:


5ª EDIÇÃO

FUCKIN` GLOBO 2018




HOTEL GLOBO
R. Rainha Ginga 100
Luanda, Angola

06 DEZ - 11 DEZ 2018

A INSUPORTÁVEL NECESSIDADE DE CRIAR

 

Cheira a novo, a superficie recém-pintada, nas paredes dos quartos do Hotel Globo, em Luanda: este edificio abandonado, entre a Rua Comandante Veneno e a Avenida Rainha Jinga, é o lugar underground que acolhe doze artistas - Toy Boy/ Lubanzadyo Mpemba Bula/ Ery Claver/ Kiluanji Kia Henda/Maria Gracia Latedjou/ Miguel Prince/Thó Simões/ Joana Taya/ Nelo Teixeira/Verkon/Daniela Vieitas/Indira Grandê- que decidem tentar, uma vez mais, dizer ao mundo uma parte do que erámos, do que somos e, quiçá, do que seremos.

Neste momento, na cidade de Luanda, podemos assistir a uma série de exposições de arte contemporânea: “Ossos de Ofício” de Antonio Ole no Centro Cultural Português, “Panorama” de Monica Miranda na galeria do Banco Económico, “Nova Angola” de Francisco Vidal no MAAN (Memorial António Agostinho Neto), só por citar algumas das mais interessantes.

 

Com a Fuckin` Globo está-se em presença da mais experimental, ousada, problemática, atípica e irreverente das exposições de arte patente agora ao público, tanto pelo modo como foi concebida como pela maneira como se projecta ao celebrar a arte à margem do oficialismo, do extremismo nacionalista, dos discursos identitários trasnoitados.

Kiluanji Kia Henda e Thô Simões são os dois curadores e produtores do evento, mas, em rigor, tudo mais partilhado, discutido entre vários artistas, e as decisões finais são resultam da troca de ideias. Na abertura da exposição só estarão os doze artistas acima citados, mas, se incluirmos a efémera passagem de Yonamine e o projecto que nos explicou, poderíamos considerar que, em rigor, foram treze os artistas que, este ano, foram convidados para o Fuckin` Globo.

A cada um dos doze artistas foi-lhes atribuído um quarto, que agora cheira a novo: nele o artista pode plasmar o seu universo ou estimulado a arriscar-se e propor um projecto específico, desenhado à medida do espaço de intervenção que dispõe, mas, sempre que proponha a revisão crítica de uma problemática artística ou política e estética.

Em cada quarto do hotel, a atmosfera, a cor, o aroma, os sons, as imagens que desfilam ou os objectos que encontrarão e o silêncio fazem parte de histórias com nome próprio, de passados díspares amontoados algures num presente frágil e de mudanças constantes. Desafiados, os artistas querem que sintamos o bafo da presença deles, a força das ideias e das preocupações que os absorvem quando criam e que transferem sobre as paredes que sequestraram para, de outro modo, entregarem-no-las deixando que desfrutemos delas durante os cinco dias que dura o acontecimento, ele que, mesmo estando na sua quinta edição, ainda não deixou de ser um grito inconformista.

As práticas criativas de diversos tipos, as encenações e ou a maneira como intervêm sobre as superfícies mostram-nos os interesses e os focos da reflexão dos artistas, que passam a ser momentaneamente nossos: todos eles são somente um medium, veículos que utilizam para referir-se a inúmeros temas, entre os quais: - A coexistência de objectos e comportamentos de várias épocas que nos paralisam (Toy Boy); - a invisibilidade e a falência das perspectivas únicas e hegemónicas quando lidamos com o outro (Lubanzadyo Mpemba Bula); - uma história de amor sobre o poder (Ery Claver) e outra sobre o 27 de Maio (Thô Simões); - sobre as perversões feitas em nome do amor à pátria (Yonamine).

Nesta Fuckin` Globo aparecem, também, obras que fazem abordagem sobre os seguintes temas: - Os equívocos e arbitrariedades do acrónimo CIA (Kiluanje Kia Henda); - O valor da natureza incorrupta e pureza da matéria (Verkron); - A reinvenção do tempo, da identidade e da sexualidade (Miguel Prince); - O universo (Joana Taya); - O poder (Nelo Teixeira); - O óbvio e o oculto na história das nossas vidas (Maria Gracia Latedjou); - Os fantasmas dos lugares em que habitamos (Daniela Vieitas); - A maternidade como uma revelação vital (Indira Grandê).

As obras desta edição da Fuckin` Globo falam da maneira como os cidadãos hoje pensam, criam, vivem e, afortunadamente, criticam e afastam-se dos consensos e do oportunismo. As paredes registam tudo, a passagem do tempo, o borrão, as manchas, as cores, as silhuetas e as nossas retinas viajarão para onde nos levarem os vídeos projectados, as pinturas murais, as performances e as instalações: é lá estará você, espectador curioso e emancipado.

Cheira a novo! É a festa da cumplicidade entre os artistas, de vários géneros, origem e trajectória, a equipe que produz e as estratégias de criação e de legitimação, à margem dos circuitos comerciais da arte: a obra dos artistas quer dialogar, fazer refletir e ou interagir com o cidadão atento que vem ao Hotel Globo e pela arte, libertar-se: o dissenso é uma maneira de dizer sim à revolução, à ousadia, à vida e ao novo país que andou abafado, revelando a nossa insuportável necessidade de criar questionando.

 

Adriano Mixinge
Historiador e crítico de arte

 

 



ADRIANO MIXINGE