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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Créditos Fotográficos: Fátima Carvalho


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ARQUIVO:


ZULMIRO DE CARVALHO

ZULMIRO DE CARVALHO: ESCULTURA 1968-2018




AUDITÓRIO MUNICIPAL DE GONDOMAR
Av. 25 de Abril 103
4420-356 Gondomar

15 DEZ - 23 FEV 2019


 

 

Uma obra domina esta exposição de Zulmiro de Carvalho: Ruptura, 1968-2018, série de 10 elementos metálicos, projectada em 1968 e só agora concluída.

Na arte portuguesa constatam-se com alguma frequência obras que permanecem durante longo tempo no seu estado de potência, sem materialização imediata, por falta de oportunidade ou de recursos. Armando Alves ou Ângelo de Sousa, para citar apenas dois casos, situam-se entre os artistas que retomaram projectos não concretizados no início das respectivas carreiras, criados na renovação conceptual, formal e material da década de 60. Movidos pela vontade de dar forma a ideias, a eles voltaram, em tempo de consolidação de percurso, como agora acontece com Zulmiro de Carvalho.

No clima experimental em que a obra foi concebida, corria a década em que o escultor começou a participar em exposições colectivas, mais concretamente em 1964, na 13ª Exposição Magna da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, década que terminaria com a sua entrada nesta Escola (em 1969) e com as suas primeiras exposições individuais, na Cooperativa Árvore, no Porto, e na Galeria Buchholz, em Lisboa (ambas em 1970). Entretanto, tivera lugar a estadia na Saint Martin's School of Art, em Londres, onde, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, pôde contactar com Anthony Caro e Philip King.

Quando Ruptura foi projectada, o escultor realizou apenas três dos dez elementos que a compunham. Mostrada e premiada, em 1969, com a Medalha de Prata na Exposição que assinalou o Cinquentenário da Morte de Amadeo de Souza-Cardoso, acabou por integrar a colecção do Museu Municipal que tem o nome do pintor de Amarante. Deste modo, há uma primeira versão da obra, incompleta, no Museu, e uma segunda versão, completa, na posse do artista.

Vista agora, a 50 anos da sua concepção, na estabilidade que evidencia, na presença austera do material, na introdução contida da cor e na leitura gradual a que convida, não se adivinhariam as vicissitudes da sua produção. Em contrapartida, percebemos, a esta distância, como a obra continha já as premissas que iam orientar a criação futura do artista: esquema serial, sentido sequencial, vocabulário minimalista e essencial, volumes límpidos e formas arquetipais. A inclusão da cor espelha bem o contexto epocal, na apropriação pictórica que se disseminava nesta disciplina artística. Mas o aspecto mais importante que se pode colher em Ruptura é o movimento linear que relaciona as dez peças verticais, gerando no seu topo uma forma que progressivamente se abre a partir do segundo elemento para se anular no último, permanecendo, na zona superior do paralelepípedo, o resíduo de cor. A escultura é investida pelo desenho e pelo movimento, pressentidos na união dos seus elementos, captados na deslocação que cada um de nós cumpre. Na obra pública de Zulmiro de Carvalho será comum a presença de frestas, linhas de luz a irromper por entre a matéria opaca da escultura. Neste trabalho é a cor (também luz) que se insinua. Só perante o desenvolvimento da sua obra se descobriria a dimensão performativa da sua recepção e o valor deste desenho invisível que excede o formalismo minimal.

A exposição de Zulmiro de Carvalho desenvolve-se em duas propostas – a das fotografias que ocupam o plano vertical das paredes e a dos trabalhos colocados no centro da galeria, três em aço corten, na primeira sala – Esculturas, 2018 –, e os dez elementos descritos, na segunda. São distintas as ocorrências que correspondem a estas dimensões: numa regista-se a obra pública, quase toda em resposta a encomendas; na outra, apresenta-se o que se cumpre por determinação individual. A centralidade que as peças escultóricas detêm no espaço expositivo é, no entanto, enganadora, já que é a obra pública, aqui perifericamente instalada, que o autor privilegia e é a ela que tem dedicado parte fundamental da sua actividade.

E é por isso que uma certa estranheza nos acompanha nesta visita. O documentário fotográfico das mais de vinte obras instaladas em espaços públicos (com excepção de duas em colecções privadas), em Portugal, Coreia e Macau, apresenta imagens de grande formato que revestem as paredes da galeria sem a preocupação da escala relativa de cada peça. Alheados das condições específicas da implantação de cada uma das obras, afastados da atmosfera natural que as rodeia, ignorantes do modo como evoluíram e como se transformou o seu envolvimento – já que certas esculturas estão documentadas por imagens do momento da inauguração e outras por registos fotográficos mais recentes – adoptamos um olhar uniformizado, incapaz de captar a vivência do lugar e a experiência da arte em espaços urbanos e enquadramentos paisagísticos, sem acesso aos imponderáveis que aí se produzem. As fotografias também não falam das contingências de encomenda, produção, processo de instalação, nem das vicissitudes políticas que as rodearam, nem do, quantas vezes, longo período que mediou entre a encomenda e a implantação.

A exposição é marcante, não apenas porque Ruptura permite encerrar uma página da história da arte há muito aberta, e assim se faz símbolo do tempo longo da cultura, mas principalmente, porque nela deciframos muito do que ia acontecer na prática do seu autor. Na verdade, Ruptura transformou-se numa ligação entre tempos e significados, atravessou a escultura de Zulmiro de Carvalho e, ao articulá-la, converte-se na sua obra emblemática.



LAURA CASTRO