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Vista da exposição


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BARRY CAWSTON

BANKSY'S DISMALAND AND OTHERS




ALFÂNDEGA DO PORTO
R. Nova da Alfândega


19 JAN - 31 MAR 2019

BANKSY'S DISMALAND AND OTHERS BY BARRY CAWSTON

 

 

Banksy é um artista do qual, poder-se-á dizer, dispensam-se apresentações. O seu nome surge como sinónimo de irreverência, crítica e ironia e à sua obra artística, subversiva, associam-se certos ideais, princípios e convicções. Quando se anuncia uma exposição consigo relacionada, estabelecem-se determinadas expetativas e espera-se um confronto de frontalidade e crueza, através de um humor sátiro cuja linguagem é composta por traços, formas, cores e contrastes.
O streetartist tem vindo a desenvolver uma marca, uma forma de produzir e de se exprimir que não se confunde com os seus contemporâneos, nem mesmo com os que se aproximam a nível visual, formal e conceptual e recorrem à mesma prática expressiva, a arte de rua. Banksy distingue-se por ser, assumidamente, um ativista e deter elevadas qualidades formal e conceptual que estabelecem e solidificam uma linha de trabalho muito característica. A sua forma tão bem conseguida de discurso imagético, político e social, do qual ele é pioneiro, é dificilmente superada e afirma-se à vista de todos.

A street art demorou vários anos a consolidar-se enquanto forma de prática artística, principalmente devido ao facto da pintura de paredes, nomeadamente o graffiti, ser contínua e inevitavelmente associada a procedimentos de caráter vândalo. Porém, o que distingue a arte pública, termo que surgiu nos anos 60, de qualquer outra intervenção que tome lugar no espaço urbano, é que a primeira se insere neste último sem o danificar ou prejudicar. A criação artística é pensada, concebida e concretizada no sentido de se relacionar com os espaços e os contextos em que se fixa. Tais intervenções projetam-se e instalam-se enquanto sitespecific, projetados para um determinado lugar que se revela tanto nos âmbitos formal e estético como conceptual. A cidade torna-se, assim, a tela, o suporte para tal produção imagética que passa a ser compreendida como um trabalho artístico que proporciona experiências de recepção abertas, de uma dimensão particularmente ampla e verdadeiramente pública. O espectador da urban art é, pois, numeroso e heterogéneo, não sendo somente aquele que se desloca às instituições culturais, mas todo o indivíduo que percorre a cidade.
A arte urbana insinua-se e obriga ao seu consumo tal como a publicidade, com os cartazes e letterings, sendo criada para ser vista, lida, recebida. Cria-se, assim, uma nova dinâmica de relação artista-público e artista-sociedade-espaço. É precisamente nesse âmbito que se destaca o trabalho de Banksy, um dos que mais contribuiu para a validação e atribuição de significado a tal forma de arte. O britânico detém uma acuidade e sensibilidade muito particulares, não só por dar visibilidade a assuntos e problemáticas que o requerem, mas, simultaneamente, pelo modo como executa, surpreende e interpela o público. Distingue-se, também, por um particular sentido de oportunidade, que escasseia, cada vez mais, na presente era da livre crítica, na qual todo o indivíduo usufrui do direito e da oportunidade de enunciar e partilhar opiniões e juízos, mesmo sem fundamento ou razão, na esfera pública, tanto na territorial como na virtual, das plataformas digitais de redes sociais.

As imagens de Banksy invadem o espaço em que são colocadas de um modo que tanto marca e sobressai, como, simultaneamente, as enquadra com uma certa discrição. Esta dupla valência é nítida nos registos fotográficos de Barry Cawston que tem vindo a acompanhar o trabalho do artista nos últimos anos, apesar de não o conhecer pessoalmente. O fotógrafo conta já com um extenso e valioso reportório de registos, do qual se fez uma impressionante seleção para expor na Alfândega do Porto, desde o passado dia 19 de janeiro até 31 de março.
O principal destaque da presente exposição é a série Dismaland, da qual decorre o título da mostra, que se reporta a uma das maiores e mais singulares ações de Banksy, ou seja, um parque temático alucinante que agregou a ideia de "dismal", que em inglês significa deprimente, com o internacionalmente reconhecido complexo de diversões Disneyland. Essa instalação, aberta de agosto a setembro de 2015, foi um dos mais provocantes e polémicos eventos artísticos dos últimos anos, tendo contribuído para uma compreensão mais alargada e significativa do que é o trabalho, a pesquisa e a capacidade criativa do artista.
Em justaposição aos registos das pinturas e dos objetos que Banksy construiu nesse cenário, Barry Cawston apresenta, também, um conjunto de fotografias da cidade onde se concretizou a instalação, Weston-super Mare, em Somerset. O quotidiano e os habitantes locais que o fotógrafo capturou surgem quase como um paradoxo ao universo então criado pelo artista e revelam, da parte do Cawston, um olhar atento, hábil e, ele próprio, também cínico e crítico. Como o próprio explicou na pré-inauguração, o que o moveu foi a "bela paródia que constitui a Grã-Bretanha", algo particularmente evidenciado no momento em que se anunciava o Brexit, reflexo e consequência das profundas ambivalências e disparidades da cultura britânica.
Uma outra zona a visitar na exposição apresenta fotografias de inúmeros graffitis de diversos autores, alguns deles portugueses, em localidades que variam desde cenários urbanos e citadinos a paisagens mais isoladas e industriais. Associadas a este género de trabalho, surgem, inevitavelmente, as questões da autoria e da originalidade, problemáticas decorrentes da reprodutibilidade técnica e da qual a fotografia fora, precisamente, a protagonista, como problematizou abordou Walter Benjamin (1935). Porém, ao observar o trabalho de Cawston, compreende-se, que desde a seleção dos objetos ao enquadramento e a todo o exercício formal e visual, não se trata somente de uma apropriação. O seu registo fotográfico de arte de rua constitui um corpo de trabalho com caráter autoral e eterniza obras cuja efemeridade é acrescida em função dos locais e das condições em que são criadas.
Abre-se, também, um outro debate, que diz respeito à inclusão da arte de espaço público em quadros institucionais. Se, por um lado, a obra de arte depende do contexto em que é exposta e recebida pelo espectador, momento em que a recepção se concretiza na sua plenitude, por outro lado, ao observar o trabalho de Cawston, verifica-se como a natureza das ilustrações e a mensagem que nelas se encontra inscrita, são preservadas, bem como os seus significados.
Na exposição também se pode ver a série Walled of Hotel que mostra as polémicas intervenções de Banksy no hotel em Belém, na Cisjordânia, com vista para o muro que a separa de Israel, assim como uma instalação, Closer to Banksy, da autoria de Daniela Gonçalves, Ivo Amaro e Jorge Cardoso, obra interativa que requer a participação do espectador, evocando e recordando a polémica intervenção do streetartist, Love is the Bin (2018), num leilão da Sotheby's London.

Banksy, cujo rosto é conhecido por poucos, tem uma obra internacionalmente distinguida, a qual, quando é retratada pela lente de Cawston, se mantém intacta e exibida no que será, eventualmente, a sua melhor forma de representação. O olhar escondido atrás da câmara e do grande artista é, também ele, particularmente singular e valioso, algo que deve ser relembrado e enaltecido através da visita à presente exposição. E se à entrada da mesma se questiona "who is Banksy?", poderá ler-se, entre linhas, "quem é Barry Cawston?".



CONSTANÇA BABO